terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Gene Mapper


Taiyo Fujii (2015). Gene Mapper. São Francisco: Haikasoru.

Um delicioso thriller biopunk passado num futuro próximo onde a engenharia genética consegue produzir alimentos desenhando de raiz o código genético das plantas transgénicas. Uma inovação que promete acabar de vez com a fome no mundo, mas que pode sofrer um fortíssimo abalo quando uma plantação experimental do mais avançado arroz transgénico é corroída por uma praga desconhecida. Um dos desenhadores do mapa genético do novo arroz é desafiado a investigar, e descobre-se no meio de uma conspiração que une jornalistas sem escrúpulos a eco-terroristas, que soltam uma arma biológica, um insecto transgénico concebido por cientistas da DARPA programável para uso militar, numa tentativa de derrotar o consenso sobre a genética com um ataque terrorista disfarçado de tragédia natural.

Livro com um ritmo de leitura rápido, bem desenvolvido nas suas premissas, tem três pontos especiais de interesse no domínio da ficção especulativa. O primeiro é o ponto de vista inocente sobre o potencial benéfico da manipulação genética. Uma visão cândida, benévola, de utopias de abundância trazidas pela engenharia genética, muito distante da mais habitual e paranóica visão dos seus perigos inesperados e usos tenebrosos. O segundo ponto de interesse está no conceito de criação de uma forma de vida totalmente desenhada em laboratório, incluindo um kit de desenvolvimento e uma api para programar o que é essencialmente descrito como uma computação em nuvem, distribuída em enxames de insectos artificiais biológicos.

Apesar de ser um thriller utópico de biopunk, Gene Mapper encerra dentro de si uma brilhante especulação cyberpunk. O terceiro ponto de interesse especulativo do livro é a forma como concebe a pervasividade da realidade aumentada como forma de comunicação, recorrendo a avatares, espaços virtuais e recriações tridimensionais tal com hoje comunicamos por telefone ou texto. Neste futurismo que deve alguma coisa aos cardboard futures saídos das empresas tecnológicas dominantes, redes de implantes corporais permitem uma transição constante entre espaços reais e virtuais, assentes numa rede robusta que substituiu a velhinha internet, eliminada numa catástrofe digital e da qual só restam alguns arquivos de vastas cópias de segurança, subtraídos por hackers previdentes durante a derrocada da rede global.

Com interessantes especulações sobre o futurismo próximo, apesar de uma certa inocência sobre intenções e consequências da manipulação genética, lê-se como um thriller imparável onde a melhor acção se passa no espaço das ideias. Boa surpresa literária, trazida do Japão pela Haikasoru.

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