terça-feira, 24 de novembro de 2015

Visões



Silvestre (João César Monteiro, 1981)

Sílvia é uma jovem donzela, filha querida de um nobre agricultor que decide casá-la com um vizinho, rico proprietário mais adepto da boa comida e do folguedo com as aias do que do cortejar uma donzela que sente repulsa pelos seus modos. Chamado à corte, o nobre agricultor parte, ordenando às filhas que por nenhum motivo abram as portas de casa. Na noite profunda, um viandante pede abrigo e elas, esquecendo as ordens do pai, dão-lhe guarida e comida. O viandante devolve a cortesia com suculentas laranjas, que Sílvia não prova mas fazem as delícias da sua meia-irmã. Sílvia fora previdente. As laranjas estão enfeitiçadas, e quem as prova mergulha num sono profundo. Atemorizada, Sílvia nada diz enquanto o viandante viola a sua meia-irmã. Na madrugada profunda irá descobrir o segredo deste, quando o ouve a tocar uma flauta endemoinhada sob chuva torrencial e encontra, sobre a mesa da casa, uma mão decepada que brilha com uma luz sobrenatural. Sílvia consegue enganar o viandante, e corta-lhe a mão, afugentando o pesadelo.

Semanas depois, o seu casamento é interrompido por um misterioso cavaleiro que insiste em exigir-lhe a mão a seu pai. Este coloca-lhe uma tarefa impossível, matando um perigoso dragão que a donzela encerrara numa caverna. O cavaleiro cumpre a tarefa, e Sílvia acompanha-o, junto com a sua meia-irmã, para um castelo sombrio onde este lhe revela ser o viandante, que em busca de vingança a irá matar. Sílvia foge, graças a um corajoso subterfúgio, e ao regressar à sua quinta em busca de homens para libertar a irmã descobre que o seu pai fora raptado por bandoleiros que pululam nas montanhas. Corta o cabelo, disfarça a condição feminina, empunha a espada e decide juntar-se aos soldados que dão caça aos bandidos. Ferida numa batalha, é desmascarada e trazida para a corte pelo comandante dos soldados, que se toma de amores por ela. Ganha o respeito do rei pela sua coragem, mas a libertação do pai só acontece quando um nobre renegado se mostra capaz de o fazer, exigindo a sua mão em troca. Sílvia sacrifica-se, mas é salva pela sua meia-irmã, que desmascara  o nobre como o viandante vingativo disfarçado. A sua morte à espada do comandante dos soldados põe fim à maldição e abre o caminho à felicidade.

Incursão de João César Monteiro pelo fantástico, Silvestre é um filme que se destaca pelo respeito ao medievalismo que professa. A história desenrola-se de forma singela, fugindo ao lado épico que caracteriza este tipo de filmes (algo que suponho não estar quer ao alcance financeiro do realizador nem dentro dos seus interesses). É um filme fortemente ritualizado e teatral, lento no seu ritmo, com falas adequadas à época. Os seus cenários fogem do naturalismo e assume-se como cenários pintados ou fotografias ampliadas, criando interessantes efeitos visuais. A estética do filme presta uma profunda vénia à pintura medieval e proto-renascentista, com os quadros do filme a invocarem directamente a estética hierática da perspectiva primitiva. Vénia que é sublinhada pelo hieratismo de uma câmara que mantém sempre os mesmos pontos de vista, reforçando a sensação no espectador que se está a olhar para um quadro animado. Filme notável pela sua estética, e pela rara incursão dentro dos campos da fantasia.

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