quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Cibola Burn



James S. A. Corey (2014). Cibola Burn. Nova Iorque: Orbit.

O pormenor verdadeiramente interessante deste quarto livro da série Expanse está forma como foge aos pressupostos ide às estrelas e multiplicai-vos que caracteriza a space opera. Cibola Burn passa-se num planeta habitável, o primeiro dos múltiplos mundos que a tecnologia alienígena molecular e a sua propensão para abrir portões no tecido do espaço-tempo coloca nas mãos de uma humanidade sempre dividida e desavinda.

Neste capítulo da saga Holden e a tripulação da nave Rocinante são enviados a um novo planeta para mediar um conflito crescente entre colonos refugiados e os funcionários de uma empresa à qual foi concedida a licença de exploração do planeta. Situação de alta tensão, em que tudo corre mal, especialmente porque as cabeças quentes e sentidos de dever enviesados prevalecem mesmo quando todos estão ameaçados de morte. É um capítulo que se lê como homenagem da tradição western no espaço na ficção científica, desenrolando-se em peripécias que remetem directamente para o género e sublinham a mística da tradição de fronteira. Acabará, já o sabemos, tudo bem e muito bem resolvido, mas os caminhos para lá chegar são deveras tortuosos.

Como Corey já nos habituaram (não, isto não é um erro gramatical, ide descobrir quem é James Corey e entendem porque tem de ser referido no plural), a mistura de peripécias com um acumular de situações progressivamente trágicas escritas num estilo narrativo que termina todos os capítulos em suspense, funciona de forma impecável mesmo que a história de base não pareça tão interessante como a dos anteriores livros da série.

O verdadeiro ponto de interesse está na forma como Corey usam a biologia alienígena. Não seguem a binomia tradicional do hostil/benigno, mostrando antes uma biologia tão incompatível com a humana cuja interacção se traduz em consequências inesperadas. Seguem um caminho similar ao de Kim Stanley Robinson em Aurora, apesar de aqui não haver vírus alienigenas que infectam o corpo humano. Aqui as bactérias extra-terrestres preferem usar o substrato humano não como meio de infecção mas de alimentação, causando o que aparentemente são doenças mas na prática são infestações parasíticas. Junte-se a isso um planeta transformado, infestado de mecanismos dormentes há milhares de milhões de anos que vão acordando com a presença humana na superfície, e cresce a nova grande ideia da série Expanse: a inevitável colisão com civilizações avançadas que devastaram outras civilizações cujos artefactos estão agora a começar a ser colonizados por uma humanidade incipiente nas aventuras intergalácticas. Ao contrário de Aurora, Expanse resolve-se sempre no sentido classicista e prossegue no optimismo de exploração das vastas fronteiras, apesar de neste episódio ter caminhado brevemente em direcções mais pessimistas.

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