terça-feira, 15 de setembro de 2015

MOTELx Histórias de Terror



Afonso Cruz, et al (2015). MOTELx Histórias de Terror. Lisboa: Escritório Editora.

Este tipo de antologias, lançadas como parte integrante de eventos temáticos, é geralmente pouco homogénea na sua qualidade. Os autores mais conotados com os géneros são iguais a si próprios, os novos nomes surpreendem pelas ideias mesmo que a prosa esteja ainda imatura, e as figuras convidadas de outras áreas, quer como artistas ou escritores mais habituados a géneros mais mainstream, ficam-se por contribuições desastrosas. Esta antologia não é excepção a isto, mas felizmente anda longe dos níveis de mediocridade de pontos baixíssimos como a felizmente esquecida antologia Ficções Científicas e Fantásticas, um daqueles livros que exemplifica na perfeição os altos e baixos deste tipo de publicações.

No global esta é uma boa companhia para os intervalos das sessões do festival de cinema de terror que enche o S. Jorge de fãs. Tem contos interessantes, na sua maioria bem escritos, e mesmo os menos bem conseguidos conseguem ter algo de estranho e intrigante. Poderia ser uma iniciativa a manter nas próximas edições, juntando o prazer literário ao cinéfilo. Normalmente estas ideias ficam-se pelo acontecerem uma vez, mas talvez a força que o MOTELx continua a revelar consiga tornar este tipo de iniciativa mais recorrente.

Onde esta antologia se mostra consistentemente boa é na qualidade da ilustração, entregues a Alex Gozblau, João Fazenda, Esgar Acelerado, Manuel João Vieira, Mariana a Miserável, Mulher-Bala e Tiago Alexandre. Oscilando entre o simples mas incisivo e o surreal onírico, as ilustrações dão um bom sabor extra à antologia.

Contas Para Pagar: Afonso Cruz igual a si próprio, num conto de ironia macabra escrito com a sua habitual elegância literária. A história é sobre um escritor que desistiu das musas para procurar inspiração, tendo encontrado una fonte inesgotável de ideias literárias torturando metodicamente vítimas incautas. E mais não digo, até já disse demais.

A Parte Pelo Todo: Um conto de ritmo bem marcado que vai levando o leitor até ao desvendar do susto final, com um carteiro embevecido e uma mulher-monstro que talvez se tenha tornado bela encomendado partes de corpos pelo correio. Conto de Inês Fonseca Santos.

A Painelista: A contribuição de Adolfo Luxúria Canibal é uma sucessão de momentos tenebrosos, caracterizados com uma escrita vívida e cerrada, que no entanto como conto é previsível. Vale pelas partes e não pelo todo.

O Artista e as Pessoas de Olhos Negros: Menção honrosa do concurso literário MOTELx 2015, o conto do brasileiro Jeziel Buenon consegue alguns bons momentos de gore literário. A história fala-nos de um assassino que se vê confrontado por zombies que foram as suas vítimas.

Os Que Nunca Esquecemos: A este conto de Filipe Homem Fonseca falta-lhe alguma clareza estrutural. O ambiente tétrico surreal é depressa estabelecido e invoca imagens poderosas neste conto onde dois amantes são condenados a uma eternidade de torturas, tornadas suportáveis pelos breves momentos em que se tocam apesar do extremo sofrimento a que estão votados por causa do amor que ousaram professar.

Canção de Ninar: O conto de Victora F., vencedor do concurso literário MOTELx, é uma bem conseguida história ambígua sobre uma mãe que encara o seu bebé recém-nascido como uma criatura monstruosa, com um final que arrepiará os mais sensíveis.

Suicidem-me ou o Diário de Alva: A encerrar a antologia, um conto difuso de Patrícia Portela cuja criatura amaldiçoada começa por orbitar o género zombie mas se torna algo mais rarefeito e omnipresente.

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