quarta-feira, 16 de setembro de 2015

MOTELx 2015: Dust Devil



Dust Devil (Richard Stanley, 1992)

É também por isto que se vem ao festival de cinema de terror. Para descobrir ou redescobrir filmografias antigas, influentes mas enterradas debaixo do constante fluxo de novidades das avalanches contínuas da cultura popular. Este ano o festival focou a obra do realizador sul-africano Richard Stanley, nome um pouco obscuro mas que diz quem assistiu à sua masterclass que é uma figura brilhantemente quixotesca. Filme de 1992, é um bizarro cruzamento de road movie, policial e thriller sobrenatural, com toques de western. Seguimos o périplo assassino de um demónio que assumiu forma humana, para quem os assassínios ritualistas são a forma de adquirir poder suficiente para transcender os grilhões da carne e regressar ao mundo que fica para lá do espelho. Caça há décadas, talvez há séculos, as suas vítimas nas paisagens tisnadas da Namíbia. É aqui que reside a maior força do filme, na forma como transmite o calor sufocante do deserto com a saturação constante da cor, a fortíssima horizontalidade dos enquadramentos e a banda sonora claustrofóbica. Estados de sonho, delírios hipnagógicos, a monotonia das longas estradas do deserto que confundem a percepção sublinham a hostilidade do ambiente.Também é interessante a colisão entre mitos milenares africanos e a tradição gótica do demónio que perverte a ordem natural. É um filme provocador, deliberadamente filmado num território que para os sul-africanos recorda os estertores finais da era do apartheid, aqui focando a retirada do território ocupado da Namíbia. As tensões raciais estão em evidência durante todo o filme e, como observou o realizador na apresentação da sessão, não foi por acaso que escolheu como vilão um homem caucasiano, louro e de olhos azuis.

Sendo uma final cut, esta versão pecava por ser demasiado longa. O filme é poderoso e inquietante, com momentos de terror puro, mas arrasta-se em demasia em cenas que mereciam uma edição mais sintética.

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