domingo, 26 de janeiro de 2014

Futuro a preto e branco


Alienígenas saurópodes com métodos subtis para cozinhar humanos e os rebeldes que os combatem, recordam-se?

Passar uma vista de olhos às novidades trazidas pelos feeds e redes sociais enquanto os primeiros goles de café começam a combater as teias de aranha que toldam o cérebro é a nova rotina matinal nesta era digital. Vai longe o tempo da imagem idílica da mesa bem recheada de iguarias de pequeno-almoço que se devoram enquanto nos recordamos do mundo através dos jornais da manhã. Numa destas manhãs enquanto o café despertava os neurónios sorri ao ver partilhas em sequência de imagens das séries clássicas de FC V e Space: 1999. Que maravilhoso, pensei.

O que é hoje fortemente retro foi no passado uma visão de futurismo extraordinário? Os cenários da série Espaço: 1999 nada ficam a dever ao design mais arrojado dos anos 70.

Parei, e voltei a pensar. Maravilhoso? A sério? Na verdade estas séries aguentaram mal a passagem do tempo. Quando as revemos apercebemo-nos do quanto as premissas são ingénuas, de como os argumentos são primitivos, da parca qualidade do desempenho dos actores e todas as outras incongruências que na altura não nos apercebíamos mas hoje topamos à légua. Daqui poder-se-ia perguntar como serão revistas as complexas e bem escritas séries televisivas de hoje. Sobreviverão ao teste do tempo, parecerão daqui a vinte anos tão acutilantes e intrigantes como hoje, ou serão vistas como relíquias curiosas de um tempo que já passou.


Espaço: 1999: Sonhos da colonização lunar destravada pela deriva galáctica provocada por explosões atómicas que libertaram a Lua do laço gravitacional terrestre.

Mas não é por aí que gostaria de ir. Antes, pergunto-me o que há nestas imagens que nos leva a sorrir e a admirar, com um misto de nostalgia e sentimento de futurismo. O factor nostalgia é importante, claro. Ver fotos ou vídeos destas séries recordam-nos, conscientemente ou não, tempos mais inocentes e olhares mais deslumbrados. São recordações vagas de infância ou juventude e por isso sorrimos. Mas também sentimos que as imagens não perderam a sua frescura, apesar dos necessários descontos dados pela evolução dos gostos e tendências visuais. Talvez haja algo mais que nos leve a manter este gosto pela iconografia futurista do passado da ficção científica.


Ignoremos os canastrões e os robots patéticos, e olhemos à volta. O século XXV é deslumbrante... pelo menos nas áreas protegidas do deserto radioactivo em que se tornou a Terra pós-apocalipse nuclear.

Pessoalmente tenho a sensação que se as visões passadas dos futuros imaginados se mantém hoje esteticamente válidas tal se deve àqueles nomes que raramente lemos nos créditos finais. Às equipes de designers que se atarefavam em rascunhos que evoluíam para criar o tom visual de uma série, prestando atenção aos mais ínfimos pormenores para conferir solidez ao mundo ficcional. Aos modeladores que com balsa, cola, tintas e verniz tornavam reais os espaços mais delirantes ou as visões mais futuristas, dando forma sólida às memoráveis naves que sulcavam os espaços de aventura. Uma visita ao desenho de cenários do Espaço: 1999 revela-nos pérolas gráficas visionárias que ombreiam com as visões de moda que fizeram época. Noutros casos, quando se tratavam de imaginar mundos alienígenas, tocavam profundamente no psicadelismo. E se há algo que não me sai da memória são as cidades do futuro século XXV na patética revisão a Buck Rogers que eu tanto adorava quando era pequeno. As cidades futuristas de Sant'Elia cruzados com a arquitectura metropolita de Le Corbusier deixaram as suas marcas nestes luminosos futuros urbanos. A cultura visual da avant-garde modernista e o design de vanguarda, disponível para todos, todas as semanas no televisor a preto e branco.

Mergulhar, hoje, nestes produtos da cultura pop de FC tem o seu quê de doloroso. Os argumentos esburacados, actores canastrões e simplismo generalizado divertem mas deixam a pensar no que, precisamente, faz daquilo clássicos elogiados. Talvez porque a iconografia persista, mesmo sabendo que os futuros utópicos prescritos não se concretizaram. Talvez, porque mais importantes do que as tropelias do Capitão Kirk, os périplos da Galactica, ou os alienígenas psicadélicos com que os tripulantes da base lunar à deriva se cruzavam, as estéticas cuidadas dessas séries perduram como referência visual de antigas utopias e por direito próprio como visões de design aplicado à construção sólida de mundos ficcionais. Sempre que revejo fotogramas ou ilustrações de set design da maior parte das obras cinematográficas ou televisivas de ficção científica clássica penso nisto. Reparem que o futurismo visual de 2001 ainda hoje nos encanta com a sua dissonância entre o carácter novo e datado.

3 comentários:

João Campos disse...

Ao futurismo visual de "2001" juntaria o de "Blade Runner", independentemente da actualização que conheceu na "Final Cut". Há qualquer coisa na estética dos anos 80 que a torna datada de uma forma muito própria (se me faço entender - é difícil de explicar), mais até do que a FC cinematográfica dos anos 70. Que o "Blade Runner" se tenha elevado acima disso é uma proeza espantosa.

Quanto à actualização das séries, "Battlestar Galactica" é um exemplo curioso. Basicamente - e ainda não vi a quarta temporada toda -, os criadores pegaram no esqueleto original e encheram a coisa com uma reflexão pós-11 de Setembro. O que resultou bastante bem na última década; veremos como se aguenta daqui a duas ou três.

Fyredrake disse...

Curioso como ainda há pouco tempo, num acesso de nostalgia, estive a rever, precisamente, o Espaço 1999. Já não me lembrava dos maus argumentos nem da fraca interpretação, mas o que persistia na minha memória eram precisamente os cenários e os efeitos especiais de Brian Johnson (que depois trabalharia em Star Wars de Lucas). O que ficou foi uma ideia de futurismo e ainda hoje penso nessa série quando vejo telemóveis de ultima geração; como pareciam tecnologicamente avançados aqueles comunicadores com ecrã e como eu, então miúda, desejava ter um.

artur coelho disse...

eu não meteria o blade runner, porque a visão de futuro anda muito a sul do utópico e é válida precisamente pela mistura que faz entre voos futuristas e a normalidade contemporânea. a cidade torna-se tangível porque na arquitectura e nas ruas o velho e o novo coexistem. sobre o buck rogers, há uma cena constante que recordo: o comic relief em todos os episódios, com o dr. huer a mostrar um objecto banal do nosso dia a dia transformado em artefacto arqueológico e a especular sobre o que poderia ter sido. coisas como pegar num secador de cabelo e alvitrar a hipótese daquilo ter sido uma arma de raios da morte. tinha piada, mas faz pensar. o que para nós é dado adquirido e facilmente reconhecido daqui a décadas pode parecer um artefacto exótico.