segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Comics


Batman #27: Scott Snyder está a fazer um bom trabalho neste recontar das origens do homem-morcego. A vénia é devida a Frank Miller, sendo claro que a inspiração para este reboot é Batman: Year One. Fundamentalmente, Snyder está a actualizar o personagem, rejuvenescendo-o no século XXI e aplicando o mesmo tratamento aos restantes personagens. Já o ambiente persecutório e a cidade corrupta espelham na perfeição a revisão de Miller. E Snyder ainda nos deixa pérolas da escrita para comics como esta "all those kisses and hugs from Gotham".


Doc Savage #02: E o que é que acontece aos criminosos travados por Doc Savage, espécime perfeito de humanidade aperfeiçoada? O benévolo e esclarecido Savage não os relega para o tradicional sistema judicial, onde as hipóteses de redenção são nulas. Antes, interna-os numa instituição onde são utilizados os mais modernos métodos de saúde mental para lhes mostrar e redimir o erro dos seus caminhos. Sim, leram bem, lavagem cerebral benévola feita em nome do combate às piores pulsões humanas mostrada como algo de positivo. Chris Roberson é um argumentista inteligente. Nesta edição põe a nu o fascismo inerente a este género de heróis supra-humanos e infalíveis. Não é por acaso que o Doc Savage original vem da mesma era que nos legou os ideais eugenistas e a crença nos líderes políticos infalíveis. Ah, já me ia esquecendo. Notem o pormenor: o herói tem um jetpack.


Hacktivist #01: Um comic sobre cyber-activismo, às voltas com exploits de hackers white hat especialistas em ajudar sociedades oprimidas  auxiliados por uma dupla de über hackers que também são donos da maior empresa global da economia digital, uma espécie de misto de google com facebook em modo de digitalismo libertário. A premissa é actual e o retrato distorcido das personalidades da vida digital intrigante. Sabemos que o do no evil da Google é mais proclamação do que realidade e esta visão de dois milionários combatentes pela liberdade e direitos individuais na era digital espelha bem a imagem projectada pelos principais intervenientes da e-economia. O comic é escrito por Alyssa Milano que... sim, isso mesmo. Essa Alyssa Milano, antiga estrela pré-adolescente de uma sitcom clássica. Velhos tempos em que tentava passar a perna ao sabido italo-americano que tinha como pai.


Mind MGMT #18: Matt Kindt entra em modo de fábula com esta edição encantadora do seu sempre espantos Mind MGMT. Empatia, uma criança decalcada de mowgli e a tortuosidade borgesiana da série colidem na história de uma menina que sentia o falar dos animais e é recrutada pela agência para os moldar em máquinas de guerra. Mais uma edição a reforçar aquele que é um dos melhores comics do momento.


The Unwritten Apocalypse #01Sempre achei o sucesso desta série surpreendente. Certo, Carey seduz os fãs de feitiçarias fantasistas com esta vénia irónica a Harry Potter mas o real tema do comic é a metaficção e a importância das histórias na formação do espírito humano. O sucesso da série obrigou a equipe criativa a prolongar as histórias mais do que o desejável, e houve muitos momentos em que as aventuras de Tommy Taylor se assemelhavam em demasia ao género que ironizava. Carey fez uma pausa e regressou em força, sublinhando o carácter metaficcional e a colisão de fantasias e mundos ficcionais. Está à partida assumido como uma narrativa sobre o contar de histórias, com as aventuras do personagem a fazer de fio condutor para levar o leitor numa viagem pelo gosto pelas palavras.


Se a metaficção irónica de Mike Carey está em grande o humor gráfico do ilustrador Peter Gross não lhe fica atrás. E de regresso estão as deslumbrantes capas de Yukio Shimizu. The Unwritten é um daqueles raros comics que se presta a diferentes leituras. Superficialmente é um clone do género jovem aprendiz de feiticeiro mas quando mergulhamos nele descobrimos níveis insuspeitos mas assumidos de profundidade.


Zero #05: E o prémio de capa mais avant garde vai para... Zero, escrito por Ales Kot e ilustrado por Will Tempest. Sublinha a relação entre a banda desenhada e a arte. O lado didáctico de argumentistas e ilustradores, a homenagear a composição visual, recriar a iconografia de períodos artísticos ou explicitamente a falar de Arte usando a linguagem visual da BD não é novidade. Recordo, por exemplo, David Mazzuchelli a replicar em Daredevil a estrutura visual da pintura renascentista ou Grant Morrison a mergulhar o leitor no absurdismo cubista. Esta é a primeira vez que vejo um reaproveitar da estética glitch no género. Já a história em si mete-se nos terrenos batidos da espionagem futurista, mas terminou num tom decididamente day of the triffids com a sugestão de uma invasão da terra por entidades biológicas mutantes.