domingo, 31 de outubro de 2010

Nevar em Ougadougou

Fui adicionado bizarramente, sem ter pedido, ao grupo do Facebook "Nestes tempos de indefinição, o que é que podemos fazer por Portugal?". É um bocadinho creepy, esta nova funcionalidade do site viciante da actualidade. Mas a pergunta é intrigante, e deu-me para dizer que o melhor talvez seja emigrar para um país mais desenvolvido. Pessoalmente estou indeciso entre a Albânia, que é à beira-mar, e o Burkina-Faso, que tem um clima quentinho. No Burkina-Faso há um excelente festival de cinema mas pelo que se vê nos bares de alterne as albanesas são jeitosas. E na Albânia ainda estão de pé aqueles maravilhosos edifícios faraónicos mandados construir pelo Enver Hoxha, mas dificilmente nevará em Ougadougou... ai, decisões, decisões...

Por outro lado, Portugal é à beira-mar, tem um clima agradável, festivais de cinema, indígenas jeitosas, não neva em Lisboa e parece que orçamento de estado vai quase todo para as grandes empresas de construção civil, que tantas grandes obras faraónicas alicerçaram no solo lusitano.

Cybook



New toy: Cybook Gen3. Baratinho, lê grande parte dos formatos de e-books (não recomendo o pdf, é doloroso, mas isso é culpa do formato e não do leitor) e tem um ecrã excelente para ler na praia, sob sol forte... já começava a ficar cansado de ler no ecrã do Xperia. E estou a adorar o formato ePub. É pena é ser de ecrã monocromático. o eInk é uma maravilha, mas faz-me falta a cor. O problema é que ainda não existem ecrãs policromáticos que sejam bem visíveis à luz exterior, pelo menos sem extinguir a bateria do aparelho em poucas horas.

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sábado, 30 de outubro de 2010

Kill The Dead


Richard Kadrey (2010). Kill The Dead. Nova Yorque: HarperCollins
HarperCollins | Kill The Dead

Sandman Slim está de regresso, agora numa história ainda mais acelarada do que a do primeiro livro da série. Em Kill The Dead, Slim tem de ser guarda-costas de Lúcifer enquanto deslinda uma conspiração cabalística e combate hordes de zombies que alastram em Los Angeles. No processo, acaba por descobrir um pouco mais sobre a sua origem.

Os ingredientes que Kadrey lançou no primeiro livro da série são novamente misturados com uma eficácia hard boiled num livro que apesar de superficial, é uma leitura bem divertida. Quantos autores é que se atrevem a colocar numa mesma obra estrelas de cinema pornográfico com a caça a zombies como passatempo, anjos caídos, zombies conscientes e diálogos rápidos cheios de referências à cultura pop?

Superficial como uma poça de água, mas mata a sede de uma boa leitura leve para os fãs do horror.

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sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Novos Projectos



Iniciei hoje um novo projecto, com uma turma do 1º Ciclo. O objectivo é explorar a modelação 3D com programas simples (Doga, Bryce, Sketchup, Avatar Studio) e tentar criar objectos e mundos virtuais em VRML/X3D. Por detrás desta ideia está a minha intuição que estimular a utilização das TIC em qualquer nível de ensino tem de ir muito mais além do que a aprendizagem das aplicações office, tão sobrevalorizada pelos professores, ou a utilização de ferramentas digitais de apresentação que apenas substituem os meios clássicos (caso dos também sobrevalorizados quadros interactivos). As ferramentas digitais são um poderoso meio de expressão e é aí que eu batalho.

No final do ano lectivo anterior convenci uma professora do 1º Ciclo que já me tinha mostrado como, com dificuldades logísticas, tinha integrado os computadores magalhães no trabalho da turma a tentar ir mais além. Hoje começámos... e estou curioso para ver até onde vamos. Não só pelas possibilidades de trabalho com os alunos como pela observação e partilha, que espero estimulante, com outros docentes deste nível de ensino. Para já... um enorme entusiasmo dos alunos ao verem o que pode ser feito com programas 3D, e um chato mas necessário trabalho de instalação de aplicações nos ecrãs e teclados diminutos do Magalhães.

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quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Inception



IMDB | Inception

Um amigo meu é da opinião que o melhor de alguns filmes é o seu trailer, que condensa as melhores cenas e as pérolas visuais que a obra tem para nos oferecer. Quando entramos na sala de cinema, esperando ser deslumbrados com o que as imagens do trailer nos adoçou a boca, ficamos antes suspensos durante hora e meia de pura banalidade com um ocasional momento de brilhantismo pontual. Mas até Henry Miller, num raro momento de generosidade, escreveu que nos piores livros há sempre uma página, um parágrafo que vale a pena ser lido. O problema é suportar as restantes páginas.

Nas mãos de um realizador ou de um argumentista capaz, Inception poderia ser um filme brilhante, capaz de atingir o estatuto de filme de culto e clássico do cinema de ficção científica. Demasiado contaminado pelos constrangimentos do big budget e correspondente necessidade de lucro rápido, este não passa de mais um filme banal e previsível, cuja premissa interessante se fica por mais uma variação do tema bons rapazes aos tiros contra maus rapazes.

É no seu conceito, e em momentos brilhantes de onirismo tornados possíveis pelo corrente estado da arte, que este filme tem algum valor. A premissa é fascinante: um grupo de ladrões especializou-se em assaltos que se passam dentro da mente das suas vítimas, construindo elaborados cenários oníricos para conseguir roubar segredos ocultos. É um interessante tirar de chapéu às elaboradas construções mentais dos praticantes da mnemónica, os célebres palácios da mente com um toque de Borges (faz vir à mente o conto Tlon, Uqbar e Orbis Tertius onde os sonhos se vão concretizando na realidade) e à ideia contemporânea de que o maior valor se encontra na posse de informação. Construtores de elaborados e detalhados mundos virtuais mentais, estes criminosos dentro dos sonhos controlam a realidade que elaboram.

Infelizmente, o filme desenvolve-se em linhas holliwoodescas de filme de acção, com previsíveis tiroteios, perseguições e explosões, com um toque melodramático de romance Harlequin. O que sobra do filme são algumas potentes e surreais imagens fortemente icónicas, como a cidade de Paris a dobrar-se sobre si própria num laço de möbius ou as profundezas dos sonhos, representadas por uma cidade modernista fria, ao estilo de Le Corbusier, que se desagrega no oceano de forma reminiscente da fase catastrofista da literatura de J. G. Ballard.

Ver este filme é tempo perdido. Fiquem-se pelo trailer e tentem imaginar o que poderá estar para lá das imagens poderosas que este desperta.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

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Sandman Slim


Richard Kadrey (2009). Sandman Slim. Nova Yorque: HarperCollins.

Richard Kadrey

Sandman Slim lê-se como um argumento para um filme de terror gore. A premissa é simples: o protagonista deste romance sobrenatural de Richard Kadrey regressa dos infernos para se vingar do círculo de magos que o enviou para as profundezas. Regressando à Los Angeles do século XXI, começa o processo de vingança mas cedo se vê metido numa conspiração mais vasta, envolvendo magia negra, entidades angélicas, agências governamentais anti-terroristas especializadas em ameaças ocultas e criaturas mais perigosas do que os piores demónios.

Não será um clássico da literatura de terror, mas é um belíssimo thriller com todos os ingredientes esperados e uma prosa escatológica capaz de chocar os espíritos mais sensíveis.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

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The Bookman



Lavie Tidhar (2010). The Bookman. Londres: Angry Robot

The Bookman

Lavie Tidhar é uma das novas vozes da FC contemporânea, que começou a atingir projecção graças a contos publicados online em websites como o Futurismic. Neste seu primeiro romance, Tidhar surpreende com a qualidade da sua prosa e a inventividade dos conceitos que coloca neste livro. Bem, inventividade talvez não seja o conceito mais apropriado... talvez insanidade seja o que melhor se aplique.

The Bookman é FC Steampunk pura, desenrolando-se numa Londres alternativa do século XIX. Mas é bem mais do que isso. Tidhar socorre-se de uma forte erudição neste campo literário para criar um mundo onde o império britânico é governado por uma raça de lagartos alienígenas, a França é o paraíso de homens-máquina, os engenhos analíticos de Babbage controlam os interesses sociais (num piscar de olho a Difference Engine de Sterling e Gibson, talvez o primeiro grande romance steampunk), as colónias americanas foram descobertas por uma expedição inglesa comandada por Vespucci (que, incidentalmente, descobre o refúgio dos lagartos alienígenas) e se prepara o lançamento de um satélite, projecto predilecto de Moriarty, primeiro ministro inglês.

Nas sombras, um terrorista conhecido como o Livreiro provoca atentados e manipula o personagem principal, conhecido apenas como Orphan mas que mais tarde se descobrirá o herdeiro do trono inglês, num conjunto de aventuras estonteantes que o levam da Londres subterrânea à pirataria nos mares das caraíbas.

The Bookman é uma daquelas obras estonteantes, que nos agarram da primeira à última página com uma eficaz mistura de FC, pulp e aventura pura. Deixa a fasquia alta para o próximo romance deste autor.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Cidade dos Anjos

L.A. is what happens when a bunch of Lovecraftian elder gods and porn starlets spend a weekend locked up in the Chateau Marmont snorting lines of crank off Jim Morrison's bones. If the Viagra and illegal Traci Lords videos don't get you going, then the Japanese tentacle porn will.
Richard Kadrey, Sandman Slim

The Pacific



Hugh Ambrose (2010). The Pacific. Edimburgo: Canongate

The Pacific

A maior parte das obras sobre a II Guerra centra-se sobre o teatro europeu. Algumas abordam a mais selvática guerra na frente oriental, e são poucas aquelas que olham para os teatros da Àsia e do Pacífico. Normalmente, estes teatros de combate ficam relegados para breves parágrafos em livros que analisam detalhadamente a frente ocidental.

The Pacific, escrito como livro a acompanhar uma série televisiva, destaca-se por analisar a guerra no Pacífico, embora apenas na perspeciva norte-americana, e por ter como bases fontes primárias que vão de diários, artigos de jornal, registos militares e cartas de soldados que combateram neste conflito. O livro desenrola-se na perspectiva de vários soldados, tentando abranger os diferentes meios de combate e teatros de operações da guerra no pacífico, desde a defesa e posterior guerilha nas Filipinas, experiências de campos de concentração japoneses, a guerra aérea baseada em porta-aviões e pistas de selva, e os combates atrozes pelo controlo das ilhas do pacífico.

Narrado na primeira pessoa, sob diferentes pontos de vista, esta obra evita os grandes panoramas estratégicos e centra-se na experiência do dia a dia dos soldados no conflito. Ao fazê-lo, descentra a visão da guerra como uma série de operações tácticas e estratégicas, de movimentos nos mapas, forçando-nos a olhar para a perigosa e assustadora experiência de combate no terreno, sem lhe dar a aura de glamour que está presente em abordagens mais convencionais a este conflito.

sábado, 23 de outubro de 2010

Mine Vaganti



Um filme delicioso. Mistura de comédia de situação com tragédia familiar, esta obra italiana leva-nos à cidade de Lecce, onde Tommaso, o jovem protagonista, regressa ao fim de alguns anos em Roma para tomar conta dos destinos da empresa familiar. Mas Tommaso não só não está interessado numa carreira empresarial, querendo ser escritor, como também é homossexual. Planeia assumir-se perante a família num grande jantar, mas tudo lhe corre mal. Afinal, o irmão mais velho também é gay, e quando o assume é expulso da família e deixa Tommaso com a obrigação de tomar as rédeas do negócio, sem se poder assumir para não prejudicar a saúde do pai. A situação entra em colisão quando um grupo de amigos vem de Roma para o visitar. É aí que o filme nos faz rir com uma intensidade rara, numa perfeita comédia de situação em que o comportamento efeminado dos gays contrasta com a reacção de uma sociedade conservadora que, apesar das aparências, mantém outros vícios ocultos sob a capa do comportamento socialmente aceitável.

Apesar de nos fazer rir dos comportamentos gay, este não é um filme homofóbico que trata com leviandade o tema. Para além de divertido, este filme é notável pela forma como aborda um assunto delicado - o assumir da sexualidade e a necessidade de viver a vida de acordo com as opções individuais.

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terça-feira, 19 de outubro de 2010

Criminal: Bad Night



Criminal: Bad Night

Um insómniaco ilustrador de cartoons com um passado criminoso e um segredo a esconder, um skinhead psicótico, uma sensual stripper/enfermeira e um polícia corrupto entram em colisão em mais um sensacional arco de história da série Criminal. Brubaker é um mestre do comic policial, e neste volume que mistura filme noir, femmes fatales, ódios viscerais e criminosos vulgares excede-se pela forma como nos desafia, trocando as voltas ao leitor sempre que pensamos ter descortinado o fio condutor do argumento. As ilustrações de Sean Phillips optam por um visual rough, destacando a sensualidade, violência e decadência dos personagens e cenários. Não há inocentes no mundo de Criminal

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segunda-feira, 18 de outubro de 2010

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O Marshall McLuhan é que a sabia toda...

Millenium People



J. G. Ballard (2003). Millenium People. Londres: HarperCollins
Spike Magazine | J G Ballard : Millennium People : Entertaining Violence

Ballard é o Le Corbusier da literatura. Frio e preciso, colocou a mão no pulso da modernidade contemporânea - o urbanismo alienante e os indivíduos solipsistas obcecados na vivência das suas neuroses. Este livro tem todas as peças do puzzle que é um livro de Ballard, mas falta qualquer coisa nesta história de um grupo de pessoas da classe média que ao concluírem que são o novo proletariado se revoltam, quase proclamando um estado anarquista num condomínio fechado, vista pelos olhos de um psicólogo complacente que se sente atraído pelo despertar da violência visceral. Por detrás está a obsessão de um pediatra especializado em crianças com doenças terminais que desenvolve uma atracção estranha pelo psicólogo, manifestada por um acto de terrorismo num aeroporto que mata a ex-mulher deste e o leva a embrenhar-se num grupo de pessoas classe média - uma professora de estudos de cinema, um padre que perdeu a fé e a sua namorada asiática, e uma engenheira química que fetixiza explosivos, empenhadas a despoletar a nova revolução urbana que irá abalar os grilhões dos empréstimos habitacionais, taxas de condomínio e todos os restantes sorvedouros de dinheiro da classe média.

Apesar de interessante e de ter todos os ingredientes de um romance de Ballard - as personagens solipsistas, as frases acutilantes e a sensação de desolação urbana, este livro fica bastante àquem de obras como HighRise ou Running Wild, sublimes reflexões sobre a violência oculta sob os brandos costumes da população educada. Mas vale a leitura, porque só este escritor consegue encontrar a poesia latente nas paisagens banais da urbanidade contemporânea.

sábado, 16 de outubro de 2010

Çkull

Ontem ao almoço com colegas de trabalho ouvi-as contar alguns dos bloopers que os alunos dizem inocentemente em sala de aula. E não resisti a contar o meu melhor exemplo, ocorrido quando trabalhei como professor de EVT em Mafra.

Já não me recordo que trabalho os alunos estavam a realizar, lembro-me apenas que o aluno em causa estava a trabalhar num desenho com umas caveiras e ossos. Normalmente as minhas colegas ficam preocupadas com a saúde psicológica de alunos que se dediquem a estes temas, mas eu encorajo. Muitas vezes os professores adultos esquecem-se que já foram adolescentes com toques de rebeldia e iconoclastia.

Para terminar o desenho, o aluno decide desenhar a palavra skull. Não sendo particularmente brilhante, coloca a dúvida:
- Stor, como é que se escreve caveira em inglês?
- Skull- respondo.
- Sim, mas como?
- Skull. S, K, U, L, L.
- Mas como, stor?
- Ó rapaz, skull, S, K...
- Ó professor, qual S?
- O quê? Qual S...?
- Ó professor, não está a perceber - diz, com um tom assertivo - Posso ir ao quadro mostrar-lhe?

Levanta-se, aproxima-se do quadro de ardósia, pega no giz e desenha um C e um Ç. Aponta para os dois e pergunta-me:
- Qual destes é o S de Skull?

Confesso que fiquei um minuto paralisado.

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quarta-feira, 13 de outubro de 2010

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Metas

Levemente deprimido após uma reunião de conselho pedagógico. Um dos assuntos em cima da mesa perturbou-me: o estabelecimento de metas de sucesso percentuais até 2015. O ministério estabeleceu metas com base nos resultados das provas de aferição e exames nacionais e cabe às escolas estabelecer as suas metas com base nas oficiais. Porquê o levemente deprimido? Talvez seja demasiado idealista. Talvez por pensar que o ensino é mais do que o treinar crianças para o sucesso em testes standartizados, é formar indivíduos para exercer a sua futura cidadania, promover o acesso à cultura e procurar ajudar cada aluno a encontrar o seu caminho, a desenvolver os seus interesses e encontrar o seu lugar na sociedade.

Algo que nitidamente não se enquadra na filosofia oficial de metas e rankings. Enquanto falamos de números esquecemos que as crianças são indivíduos não quantificáveis. Nem tudo se pode reduzir à estatística.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

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A Bibilioteca



Zoran Zivkovic (2010). A Biblioteca. Lisboa: Cavalo de Ferro

Cavalo de Ferro | A Biblioteca

Esta obra encantadora lida com um certo sentido do fantástico com a bibliofilia. É levemente reminiscente da obra literária de Borges, particularmente nas suas ficções bibliográficas fantasiosas, embora a escrita de Zivkovic não seja tão densa nem erudita como a do escritor argentino. A Biblioteca é constituída por seis contos que com um toque surreal nos levam a mergulhar na paixão dos livros. Por detrás dos contos estão conceitos interessantes, como o da biblioteca virtual que permite a um autor consultar as obras que ainda não escreveu, a biblioteca nocturna composta de histórias de vida, os livros que surgem por milagre numa caixa de correio ou livro em branco que se preenche com a imaginação do autor.

Curiosamente, este foi um livro que me pareceu solitário, quase solipsista. Os personagens dos contos interagem apenas com os livros, quer como leitores quer como escritores. Talvez Zivcovic nos queira sublinha que ler implica uma certa solidão, levando-nos a centrar a atenção no diálogo com as ideias do autor abstraindo-nos necessariamente do que nos rodeia. Para lá de uma obra encantadora que toca o fantástico, A Biblioteca é uma elegia do prazer bibliográfico.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

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Disquiet, Please!



David Remnick, Henry Finder (2010). Disquiet, Please!: More Humor Writing from The New Yorker. Nova Yorque: Modern Library

WorldCat | Disquiet, Please!

Esta extensa colecção de ensaios e artigos humorísticos dos arquivos da new yorker reúne humor inteligente de autores tão díspares como James Thurber, Woody Allen, E.B. White ou Garrison Keillor, entre muitos outros. Humor inteligente e elegante, saído dos extensos arquivos da revista mais inteligente do mundo.

domingo, 10 de outubro de 2010

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Sweet Tooth



Jeff Lemire (2010). Sweet Tooth: Out Of The Deep Woods. Nova Yorque: DC Comics
Vertigo | Sweet Tooth

Jeff Lemire escreve e ilustra esta curiosa série pós-apocalíptica sobre um jovem com uma mutação surreal perdido num mundo hostil. Após uma catástrofe não explicitada que faz colapsar a civilização, começam a nascer crianças com mutações animalescas. Sweet Tooth, o jovem personagem com hastes de veado, é forçado pela morte do pai a sair da floresta onde viveu protegido e a enfrentar o mundo desagregado, acompanhado por um caçador de mutantes sentimentalista.

O surrealismo do argumento é complementado pelo traço muito próprio de Lemire, longe das convenções tradicionais dos comics e a aproximar-se muito da elegante rusticidade gráfica de desenhadores como Hugo Pratt.

sábado, 9 de outubro de 2010

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Depois da tempestade.

The Tomb of Dracula



Marv Wolfman, Gerry Conway, Archie Goodwin, Gardner Fox, Gene Colan (2010). The Tomb of Dracula Volume 1. Nova Yorque: Marvel Comics.

Wikipedia | The Tomb of Dracula

Um clássico para os amantes de comics de horror. Após delapidar a fortuna da família, um jovem herdeiro, a sua namorada e o seu melhor amigo dirigem-se à Transilvânia, pensando em recuperar o último resto da fortuna familiar, um tétrico castelo isolado. Acabam por reavivar um adormecido Drácula, e o jovem herdeiro e a sua namorada dedicam-se a caçar o terrível vampiro pelas terras inglesas, auxiliados por um envelhecido Van Helsing e a sua sobrinha. Quanto ao amigo do herdeiro, torna-se um servo fiel do vampiro. Neste comic surge pela primeira vez Blade, o afro-americano caçador de vampiros, agora um personagem violento e negro, mas na altura uma encarnação de estereotipos de pura blaxploitation.

Com argumentos de Marv Wolfman, Gerry Conway, Archie Goodwin e Gardner Fox, ilustrado por Gene Colan, este é um comic a ler pelos fãs mais puristas do género.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Surpresas



Não é fácil ser professor de artes no ensino básico. Em particular nas primeiras semanas do ano lectivo. Estamos a trabalhar com crianças com diferentes capacidades, e não com indivíduos talentosos cujo trabalho e interesse está dirigido para as artes plásticas. Não são poucas as vezes que ao ver um aluno a mostrar-me orgulhosamente o seu trabalho penso que só me apetece ser cego... mas deixo sempre uma palavra de encorajamento. Mas às vezes temos surpresas como esta, que se no final da aula se transformou nisto. Fabuloso, particularmente para uma criança de dez anos acabadinha de chegar à minha sala de aula.



O objectivo do trabalho? Simplesmente experimentar a dureza de diferentes lápis de grafite.

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Antes da tempestade.

Sleepless



Charlie Huston (2010). Sleepless Nova Iorque: Random House

RandomHouse | Sleepless

Num 2010 presente distópico, um polícia infiltrado com elevados padrões morais e um assassino profissional esteta que procura uma morte perfeita entram em rota de colisão. Enquanto o agente investiga crimes relacionados com o tráfico de um medicamento para uma doença que se espalha pela humanidade, o assassino tenta recuperar informação que poderá levar ao revelar de uma conspiração que abalará a confiança num enorme conglomerado económico ligado à produção de medicamentos.

Mistura de ficção científica com policial noir, Sleepless construi uma convicente realidade: num futuro presente, as assimetrias sociais são exacerbadas por catástrofes ambientais e escassez de petróleo. Grupos de terroristas fundamentalistas cristãos tornam as grandes cidades campos de batalha. Uma pandemia de insónia fatal, que leva os doentes à morte em menos de um ano, espalha-se pela humanidade. Apenas um medicamento pode dar algum alívio aos doentes, e a descoberta deste está relacionada com a origem da praga - uma experiência de agricultura transgénica que se espalhou para o meio ambiente. Perante a desagregação social, os indivíduos recolhem-se em mundos virtuais enquanto os conglomerados económicos tentam aproveitar os lucros a curto prazo vindos de hordes de pessoas com insónia que nos primeiros estados da doença tentam viver o pouco tempo que lhes resta. Enquanto as cidades se transformam em campos de batalha com gangues, terroristas fundamentalistas e forças militares e policiais a travar guerras urbanas, os ultra-ricos fecham-se em condomínios fechados securizados e os restantes tentam lidar com o caos e desagregação social.

Escrito num ritmo rápido, Sleepless agarra-nos pelo desenrolar do seu argumento e pelo vislumbre de um mundo contemporâneo que de certa forma espelha o nosso mundo de 2010.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Nichos

Começo a ficar deprimido sempre que vou à Fnac. Não por não ter dinheiro suficiente para comprar todos os livros que me interessam, nem por falta de tempo para os ler. Na questão do tempo, as curvas inglórias da vida até me estão a dar bastante para me dedicar às leituras.

Na secção de livros importados, o espaço dedicado ao horror e fantasia é grande. Em FC, fica-se por duas ou três prateleiras sem grandes novidades. Na literatura traduzida, o mesmo, com ainda menos livros de FC. Descortinei J.G. Ballard e William Gibson relegados para as secções de literatura e estranhamente o último do Neal Stephenson encontrava-se entre obras de fantasia (raciocínio possível: como o livro envolve monges alienígenas, deve ser fantasia...).

Nos DVDs, a coisa ainda é pior. Há uma secção de filmes de terror bem artilhada, mas quaisquer filmes de FC têm de ser dolorosamente localizados nas outras secções. Também concedo: são poucos os filmes do género verdadeiramente bons (e não, a interminável saga da Guerra das Estrelas ou a variação western no espaço que é o Star Trek se qualificam).

Surpreendeu-me a existência de uma nova secção fílmica e literária destinada ao público gay/lésbico, onde inexplicavelmente se encontrava o Sexus de Henry Miller. Quem leu este clássico erótico do Alto Modernismo, mistura visceral de recordações ao jeito de Proust e monólogos interiores de uma molly bloom surrealista percebe que este é talvez o menos LBGT de todos os livros, mas enfim.

Isto não é um resmungo homofóbico. Até me sinto orgulhoso por numa das maiores e mais populares livrarias lisboetas este nicho ter tanto destaque. É sinal de uma sociedade mais aberta. Só resmungo porque o meu nicho, a Ficção Científica, parece estar a desvanecer-se...

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