sexta-feira, 21 de abril de 2017

Visões



Dellamorte Dellamore (Michele Soavi, 1994)

Há uma razão para a obsessão por Dylan Dog neste blog. O fascínio por este personagem de fumetti entre nós desconhecido começou neste bizarro filme de Michele Soavi. O que começou por me atrair em Dellamorte Dellamore, com o qual me devo ter deparado nalguma lista de bons filmes obscuros de terror, foi o seu título. Da morte, do amor, soava estranho para um filme de zombies. Quando o vi, esperava algo depressa esquecível, algum slasher-giallo com maus efeitos especiais, argumento incoerente e situações absurdas. Igual a tantos outros clássicos filmes de terror italianos dos anos 80, aqueles que íamos buscar às prateleiras dos clubes de vídeo, onde geralmente o melhor do filme era a capa da caixa da cassette.

Não podia estar mais enganado, e ainda bem. Dellamorte Dellamore é um filme de pura poesia negra, oscilando entre comédia, terror, fantasia, sensualidade, crime e existencialismo, num registo de decadência gótica rústica e onirismo negro. O absurdismo do filme está logo patente na sua sinopse, enganadoramente simples, como história de um coveiro cuja real tarefa é manter os mortos... mortos.



Na remota e isolada cidadezinha de Buffalora, uma estranha inquietude afecta os recém-falecidos. Ao fim de poucos dias, regressam como zombies, e é o coveiro, com o seu fiel assistente que apenas consegue pronunciar um vocábulo (num excelente trabalho do actor, que com esse vocábulo transmite uma imensidão de emoções), que defende a cidade contra os mortos vivos. O resto, é a história, uma historia de episódios e vinhetas aparentemente dispersas mas que nos contam as aventuras de Francesco Dellamorte, entre hordes de escuteiros zombies, o amor entre o assistente do coveiro e a cabeça de uma adolescente, ainda cadáver fresco na campa, motoqueiros zombie e as suas apaixonadas, toda uma galeria de personagens absurdos, não no sentido caricatural mas num surrealismo de horror. E, como grande foco narrativo, a obsessão amorosa e sexual de Dellamorte por uma mulher que lhe surge sempre com o mesmo rosto, mas encarnada como viúva, cadáver, virgem e meretriz. Ficam poucos tabus por desmontar, neste filme.


Anna Falchi como a grande obsessão de Dellamorte, aqui como viúva intrigada pelo ossuário.


e aqui como morta-viva, num amor impossível.


Alguém mencionou escuteiros zombie?


O verdadeiro amor: Gnaghi e a cabeça da sua apaixonada.

 Presente em todos os capítulos do romance, um poema à morte. Esta foi a forma que Soavi escolheu para transmitir essa ideia no filme.

Diga-se que Soavi faz plena justiça ao livro original de Tiziano Sclavi. Se virem este filme e o acharem apaixonante, estranho e atraente, notem que o romance percorre caminhos ainda mais obscuros. Tudo o que Soavi faz é canalizar a voz de Sclavi, combinada com a sua visão própria de realizador. Consegue com isso dar mais encanto, tornando Dellamorte Dellamore um filme de culto, épico no seu absurdismo lírico.

E o que é que o filme tem a ver com o fumetti? Sclavi pegou em elementos icónicos do seu romance e no ator Ruper Everett, que dá a cara a Dellamorte, para criar Dylan Dog. Dellamorte monta, interminavelmente, um crânio, Dog tem o seu sempre inacabado galeão. Um guarda um cemitério de zombies, outro investiga casos onde o sobrenatural invade o real. Ambos carregam um velho revólver, embora Dellamorte lhe dê mais uso do que Dog, que tem uma tendência para se esquecer da arma. Ambos têm assistentes estranhos, embora o Groucho de Dylan Dog seja mais comunicativo do que Gnaghi. Até nas roupas, uma espécie de uniforme de ganga preta, camisa branca fora das calças e blazer preto são similares, embora ao contrário de Dellamorte, Dog não seja um anti-herói. Sclavi chegou a escrever uma aventura, Orrore Nero, onde estes dois personagens de ADN similar se cruzam, mostrando a continuidade da inspiração do escritos mas sublinhando as suas diferenças fundamentais, contrariando a ideia que, mais do que ponto de partida, Dellamorte Dellamore é igual a Dylan Dog.

Mais incrível do que o filme, foi ter podido finalmente vê-lo de forma condigna, no ecrã de cinema. Graças às Sessões de Culto no Nimas, com curadoria de Filipe Melo, também um apaixonado por este filme peculiar e pelo personagem de Sclavi. Infelizmente, a presença prevista do realizador não se concretizou.

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