quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Visões


Rogue One: A Star Wars Story (Gareth Edwards, 2016).

Fui ver The Force Awakens com um espírito céptico, inclinado a desvalorizar o filme como um produto comercial nostálgico destinado a manter viva a rentabilidade do universo Star Wars. Saí da sala de cinema convencido, depois de noventa minutos de excelente cinematografia que, dentro dos estreitos limites do universo ficcional, recuperou o espírito de aventura clássico dos primeiros filmes.

Claro, estamos a falar de Star Wars, notem que para que qualquer fã conhecedor de Ficção Científica apreciar estes filmes, tem de desligar parcialmente o cérebro. Star Wars é FC no seu pior, sem plausibilidade nem especulação, mera história de aventura entre o western e o medievalismo, com sabres laser e naves espaciais para as quais os limites da física não existem. No entanto, é inescapável e um prazer culposo, admito.

 

Rogue One tinha tudo para ser mais um excelente filme da saga. Os já habituais efeitos especiais de excelência, uma história que completa a linha narrativa do universo ficcional detalhando como é que a Aliança obteve os planos da Estrela da Morte para a história de A New Hope, personagens interessantes e condenados à partida, a boa vontade de um público reconquistado por The Force Awakens. Mas falha redondamente. É um problema claramente técnico de realização, que torna a história desconexa, feita de cenas mal encadeadas, onde as tentativas de piscar o olho aos fãs com meta-referências visuais e verbais se sentem como forçadas e derivativas. Os actores estão especialmente pouco convincentes. Digamos que quando o único personagem com o qual os espectadores conseguem estabelecer empatia é um robot, algo correu muito mal na realização. O pormenor de utilizar actores sintéticos, reconstruindo a figura do falecido Peter Cushing para volta a desempenhar um papel na saga, é demasiado creepy e foi parar ao lado errado do uncanny valley. A técnica está lá, o cérebro detecta o artificialismo e arrepela-se, e as implicações éticas de ressuscitar digitalmente um actor falecido são muito fortes.

Uma história com tudo para ser empolgante, entre aventura, drama e fantásticas batalhas espaciais, acaba por ser um longo bocejo de tédio. Os fãs mais hard-core da série jurarão a pés juntos sobre a excelência do filme, enquanto o analisam em busca de easte eggs, pistas ou outros acenos aos fãs, mas não passa de uma boa história, muito mal contada. Mesmo sendo Star Wars, há limites para o desligar de cérebro.

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