terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Acedia



André Coelho (2016). Acedia. Cascais: Chili Com Carne.

Nos anos 90, David Lynch realizou uma sitcom. Leram bem. Pegou nas tropes nostálgicas do género e remisturou-as com o seu surrealismo bizarro, em seis brilhantes episódios que contaram as aventuras de um programa de entretenimento televisivo nos anos 50. Googlem a série On The Air, hilariante, subversiva e surreal. Recordo-a porque uma das suas personagens, um operador de efeitos especiais que sofre de um síndrome que o faz ver 25.5% mais do que a visão normal, está construída a partir de uma premissa similar ao deste livro de André Coelho.

Acedia, o torpor da angústia depressiva, do perder empatia e preocupações com o outro, é aqui despertada por um corpo estranho alojado na cavidade ocular de Daniel, o personagem deste livro perturbante. A pressão sobre o olho provoca alterações na visão e percepção, e resta ao personagem escolher o caminho da intervenção médica ou o deixar-se levar numa nova forma de viver, talvez mais libertadora e de assumida anormalidade.

Os livros de André Coelho lêem-se como murros no estômago, e este não é excepção. Obra a solo, o poder narrativo de Coelho não é diluído pelos argumentos de outros autores. O murro é mais forte. O carácter duro do grafismo, entre o experimental e o clássico, com um traço ao mesmo tempo rude e elegante, misturando estéticas, recorrendo à mistura de iconografias entre imagética técnica e desenho, sempre num registo sem compromissos de forte contraste em preto e branco, é o que mais se destaca quer neste livro quer na obra deste autor. A linha narrativa não é muito clara, e suspeito que não o pretende ser. A justaposição violenta de imagens perturbadoras leva o leitor a mergulhar na psique em mutação de um homem que deixou de ver o mundo da mesma forma que os outros, compreendendo a sua confusão, ansiedade e caminho de evolução.

Acedia é profundamente ballardiano nalguns aspectos, como na justaposição entre imagiologia médica e desenho, ou a alteração de carácter induzida por factores externos. O que me recorda. Há uns anos atrás, André Coelho mostrou no Fórum Fantástico pranchas de uma adaptação sua de histórias de J. G. Ballard que, ao meu olhar de fã incondicional deste escritor inglês, me pareceram a transposição para BD das imagens mentais que formei quanto li pela primeira vez os contos em adaptação. Um livro que nunca mais vê a luz do dia, e que aguardo ansiosamente.

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