sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Dylan Dog: Ucronìa



Tiziano Sclavi, Franco Saudelli (2006). Dylan Dog #240: Ucronìa. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..


Sclavi raramente se dá ao trabalho de esconder as suas influências, e este Ucronìa não é excepção. Parte da inspiração sai do romance American Psycho de Ellis, que Sclavi utiliza para basear um dos personagens desta história, um serial killer fascinando pelo luxo a que o argumentista apelida de Brett Ellis. É uma vénia assumida. A mescla de fontes de inspiração, de vénias à cultura literária e cinematográfica do fantástico, é uma das grandes marcas do trabalho deste argumentista e escritor. De certa forma, Sclavi não criava, destilava, recriava, e essencialmente recordava aos leitores o quanto há para descobrir, nas suas histórias de forte textura e múltiplas camadas de sentido.

Se as façanhas do elegante corretor de bolsa são um dos fios condutores desta aventura singular do Old Boy, outra é a obscuridade de um refugiado que se sente sempre perseguido. E talvez o seja. Sclavi vai buscar outra fonte de inspiração à teoria quântica, à simultaneidade do paradoxo de Schrödinger, e lega-nos o que dá a verdadeira força a este episódio de Dylan Dog. Aqui, diferentes realidades coexistem, mundos paralelos em sincronismo, todas as Terras e histórias possíveis coexistem nos mesmos momentos, imperceptíveis até que algo quebre as barreiras da percepção. Dylan é mergulhado numa aventura que testa os sentidos, com constantes vislumbres de realidades que lhe são incompreensíveis. Sclavi não segue a tentação clássica de colocar os seus heróis em realidades alternativas. Antes, cruza-as em simultaneidade, como ondas que vão e vêem. Por vezes, parte da história leva-nos a outros mundos. Noutras, são pequeníssimos pormenores, idiosincrasias visuais que nos mostram que, sem que os personagens se apercebam, o mundo que julgam imutável está sob choque constante de alternativas em fluidez. Das mais tocantes é a curta vinheta em que um ovni se aproxima, ominoso, do planeta onde Dylan e Groucho conversam, mas na sua realidade a Terra é um deserto inóspito. O alienígena afasta-se, perdendo a esperança de encontrar vida, rendendo-se ao vazio existencial de se sentir totalmente só num vasto universo que depressa o engole, enquanto Groucho termina mais uma das suas absurdas piadas.

Uma história de primeira merece um ilustrador à altura, e nesta aventura o grafismo está a cargo do lendário Franco Saudelli, um dos grandes nomes da banda desenhada italiana.

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