terça-feira, 8 de novembro de 2016

A Invasão dos Robôs



Leonel Moura (2016). A Invasão dos Robôs. Lisboa: Alêtheia Editores.

Temo que por cá um livro destes caia em saco roto. A sociedade portuguesa tem uma certa aversão à ciência e tecnologia, preferindo o deslumbre com o gadget à reflexão profunda sobre potenciais e consequências da evolução tecnológica. Não é algo que caracterize toda a nossa sociedade, bem sei. Uma das mais gratificantes descobertas que ando a fazer ao mergulhar no mundo do ensino das TIC é ter descoberto muitos professores que se atrevem a ver mais à frente, e a trazer para a sala de aula essa vontade de aprender a fazer e criar com tecnologia. Mas sente-se que quem, por cá, se atreve a mexer ou reflectir com estes temas é uma imensa e dinâmica minoria, vistos com um certo exoticismo. Estes, devorarão este livro em poucas horas, e provavelmente queixar-se-ão da sua simplicidade e aparente superficialidade. Provavelmente já leram muitos outros livros mais profundos sobre o tema. Os restantes, caso frequentem livrarias, quando muito perguntar-se-ão o que é que anda um livro de ficção científica a fazer nas prateleiras de ciências sociais.

Descontem o óbvio clickbait da capa. Este livro não é um retrato alarmante da futura subjugação e extinção da humanidade perante hordes de robots controlados por inteligências artificiais. Apesar de não temer falar de possíveis consequências sociais da evolução da robótica contemporânea, opta antes por um tom generalista e introdutório, falando aos leitores das diferentes vertentes da robótica e inteligência artificial que hoje estão a ser desenvolvidas ou já em funcionamento no nosso dia a dia.

Neste aspecto, A Invasão dos Robôs é um bom livro para se descobrir o fascinante mundo da robótica. Sem aprofundar muito, não sendo esse o seu âmbito, Leonel Moura fala-nos da sua evolução histórica e tipologias, dos robots industriais aos domésticos. Mostra-nos como se tornaram ferramentas indispensáveis em inúmeros campos de actuação humana, nas indústrias, medicina, ciência, defesa ou serviços, para citar os exemplos mais conhecidos. Destaca também o seu papel na educação e nas artes.

Na educação, sublinha a importância da aprendizagem da robótica como forma de estimular a aprendizagem nas tecnologias, potenciando o saber tecnológico logo desde cedo. Pela ausência de menções neste capítulo, suspeito que Leonel Moura não esteja a par do que se passa, hoje, nos domínios da robótica educativa, com apoio institucional a clubes de robótica nas escolas, competições nacionais e internacionais, diversos projectos que em várias formas estão a levar os robots enquanto ferramentas de aprendizagem aos vários ciclos de ensino. A robótica com Lego está por cá bem implementada, e há muitos outros projectos, como o Code2Fly com drones e programação, ou o Anprino, com impressão 3D e arduino, que promovem diversidade de aprendizagens nestas áreas.

Leonel Moura chegou à robótica através das artes, e neste capítulo mostra como, mais ao nível dos algoritmos do que dos equipamentos em si, a capacidade de produção artística evidenciada por mecanismos autónomos programados permite questionar profundamente algumas ideias pré-concebidas sobre arte, tidas como inabaláveis. Os algoritmos complexos fazem mais do que o simples seguimento de instruções programadas, originando comportamentos emergentes, o que coloca em questão a perspectiva tradicional da inteligência e criatividade como uma função superior inerente ao homem.

O livro não deixa de falar nas consequências previsíveis a um médio prazo que se pressente cada vez mais curto da evolução da robótica e sua introdução nos sectores económicos. O exemplo dos empregos industriais que requerem baixas qualificações é o mais óbvio. Falar da possibilidade de desemprego massivo em áreas tidas como invulneráveis à automação soa a alarmismo infundado, mas está de facto em linha quer com algumas vertentes de desenvolvimento das tecnologias de robótica e automação, quer com reflexões de economistas e decisores políticos. Recordaria o The Second Machine Age de McAfee e Brynjolfsson, ou as discussões cada vez mais acesas em círculos ligados à tecnologia e futurismo sobre a necessidade de desenvolvimento de sistemas de rendimento básico universal sustentados pelos rendimentos da automação. Algo que, em si, não é uma ideia nova, já Hans Moravec a tinha postulado com a sua visão de um futuro utópico onde o trabalho ficaria para os robots, libertando os humanos para o ócio (assumo que quem leia isto saiba que o conceito de ócio não é aquela ideia de preguicite negativista que tantas vezes lhe associamos). Não são discussões espúrias, ou de franja. Na recente edição da Wired editada por Barack Obama, o presidente americano e Joi Ito do MIT abordaram estes mesmos temas em entrevista. Neste campo, a posição de Leonel Moura reflecte que se a curto prazo as mudanças terão impacto negativo, a médio prazo poderão trazer a potenciação e expansão das capacidades humanas ampliadas por robótica e automação. É uma visão optimista, que reflecte a capacidade humana de se adaptar aos desafios e evoluir.

A Invasão dos Robôs é um livro interessante, excelente forma de iniciar os leitores mais leigos nos domínios da robótica. Notável por, por cá, ser talvez a primeira obra generalista sobre este tema escrita por um especialista para o público português. Não pretende ser profunda, antes, é um ponto de partida de conhecimento e reflexão. Neste aspecto, tem uma falha: a ausência de uma bibliografia que mostre as fontes consultadas pelo autor, e dê ao leitor sugestões para aprofundar estes temas.

Pequenas coincidências. Depois de passar na livraria para adquirir este livro, entrei numa loja de electrónica e electrodomésticos onde uma sorridente promotora de vendas andava atrás de um robot-aspirador. Ainda acreditam que estes temas sejam assim tão especulativos?

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