quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Ghost in the Shell


Masamune Shirow (2006). Ghost in the Shell. Milwaukie: Dark Horse Comics.

Demorou o seu tempo, mas finalmente li esta obra seminal quer do mangá quer da estética cyberpunk. Ghost in the Shell é o tipo de livro que só poderia ter surgido nos anos 90 do século XX, com o deslumbramento optimista por tecnologias digitais que inspiraram influentes voos de imaginação. Apesar de ser na base uma história de aventuras policiais, este mangá partilha do mesmo espaço conceptual da obra de escritores com Bruce Sterling ou William Gibson. É cyberpunk no seu estado puro, rico na iconografia tecnológica imaginária que desperta tecno-luxúria, aproveitando a diversão para reflectir sobre os impactos sociológicos das tecnologias, e sonhando com uma promessa dual de sentiência e imortalidade digital, assente nos electrões que circulam pelas redes.

As personagens de Shirow transcendem os limites fisiológicos através de implantes tecnológicos, restando do humano original pouco mais do que a aparência, alguns orgãos vitais e a aderência a códigos culturais, embora o final deste volume pareça colocar em causa este último factor em nome de conceitos de evolução transhumanista. Prevalente na série está uma visão abstracta do ser e da humanidade, vista como algo mental e independente do corpo, abrindo espaço ao oposto, ao reconhecer de sentiência e individualidade a inteligências artificiais. Uma visão explorada com rigor, numa narrativa estrutural progressiva que se mantém constante ao longo das diversas aventuras.

E, claro, é um mangá divertido, com as peripécias dos agentes da secção de operações especiais que se ocupa de missões secretas para manter a segurança num Japão futuro. A equipa operacional, liderada pela esbelta cyborg Motoko Kusanagi, é especialista no combate a ameaças cibernéticas e vai deparar-se com uma inteligência artificial que, sentindo-se transcendente, escapou aos seus criadores. Pelo meio vão vivendo aventuras com muita acção e intriga, temperadas por uma forte dose de humor.

2 comentários:

joão campos disse...

No contexto do cyberpunk, o Ghost in the Shell é também interessante por se afastar da apologia da marginalidade tão característica ao género. A Major Kusanagi e a Secção 9 do Aramaki são uma autoridade pública, e não os criminosos e anti-heróis que o género celebrizou,provavelmente pelas influências noir - algo de que o Shirow também se afastou. Seria muito interessante estudar isto.

artur coelho disse...

Bem, a secção 9 é também aquela que faz o tipo de trabalho que requer deniability, a fronteira é mais difusa, mas sim, esse lado institucional está ausente do contexto do cyberpunk.