terça-feira, 16 de agosto de 2016

Dicionário de Lugares Imaginários



Alberto Manguel, Gianni Guadalupi (2013). Dicionário de Lugares Imaginários. Lisboa: Tinta da China.

Nesta era em que cada milímetro quadrado do planeta está mapeado com rigor, observado pelo olhar lenticular dos satélites em órbita, cada recanto registado pelas suas coordenadas no espaço abstracto dos meridianos e paralelos, fotografado nos espectros do infravermelho ao ultravioleta, calcorreado por exploradores, aventureiros ou servos de gigantes tecnológicos apostados em digitalizar o planeta, traçado em atlas e mapas pixelizados, precisamos talvez mais do que nunca de espaços desconhecidos, de vazios nos mapas que prometem dragões e ao fazê-lo despertam os voos mais exóticos da imaginação humana. Foi este o meu primeiro pensamento ao folhear este delicioso tomo. Escrevi isto antes de o abrir com olhos de leitor, e só depois li o fantástico prefácio de Manguel, que espelha com precisão esta necessidade de imaginar o desconhecido na era onde as luzes do conhecimento iluminam o mais recôndito, longínquo ou obscuro. Não só, mas também o fascínio pelos voos de imaginação, pelos locais que existem em mapas que mapeiam não a geografia física mas os escolhos e penedos da imaginação sonhadora.

A lista é longa e exaustiva, itemizada de A a Z. Duvido que tenha esgotado as geografias imaginárias da literatura. Não vi por lá referências à FC, tendo os autores ido beber às especulações filosóficas, história antiga, fantástico, fantasia e surrealismo. Depois do longo mergulho nos apontamentos sobre estes mundos, há padrões que se fazem notar. Um é o óbvio encantamento dos autores por uma certa fantasia épica, bem como de alguma fantasia infantil. Richard Adams, Ursula K. LeGuin e Tolkien têm um peso muito elevado nas entradas deste dicionário. Os mundos de Oz e Dr. Doolittle não são tão interessantes quanto o peso que têm neste livro. O outro grande padrão é a evolução conceptual dos mundos de ficção. Apesar do livro não estar ordenado de forma cronológica, nota-se que há uma evolução das geografias imaginárias. Nos textos mais antigos são utilizados como parábola filosófica, utópica, satírica ou religiosa. A tónica está na mensagem que os autores pretendiam inculcar nos seus leitores, e não na coerência dos mundos ficcionais. Um elemento que se altera, com a ficção a explorar estas geografias do imaginário apenas pelo prazer de criar novos mundos, algo que caracteriza a fantasia de hoje.

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