quinta-feira, 28 de julho de 2016

A Vida Oculta de Fernando Pessoa

 

André Morgado, Alexandre Leoni (2016). A Vida Oculta de Fernando Pessoa. Bicho Carpinteiro.

Uma forma diferente de ler Fernando Pessoa através dos seus heterónimos. E se, pergunta-nos o argumentista André Morgado, os heterónimos não fossem personificações poéticas de múltiplas personalidades enquadradas no experimentalismo modernista, mas pessoas reais, que um Pessoa ao serviço de uma sociedade secreta elimina com extremo prejuízo? O poeta é aqui um torturado agente, que herdou do pai a dura tarefa de pertencer a um grupo de guardiões que defende a humanidade de todo o tipo de monstros. Face a uma epidemia de zombies, Pessoa despacha aqueles que lhe é ordenado eliminar com uma singular pistola antiquada. Dilacerado pela mortandade, Pessoa decide encarnar aqueles que teve de matar através da voz poética.

Se o argumento é divertido, colocando a bom uso trechos específicos da poesia pessoana (e heterónimos), a ilustração acompanha-o muito bem. A princípio, o traço simples, bem marcado e trabalho estilizado de cor do ilustrador Alexandre Leoni parece demasiado simples, mas, parafraseando o inspirador desta singular proposta de banda desenhada, primeiro estranha-se, depois entranha-se. O grafismo amadurece ao longo do livro.

Entre o fantástico e o erudito, esta obra atreve-se a misturar horror com um grande vulto da literatura portuguesa. Suspeito que irá provocar sobrancelhas levantadas por entre pessoanos ferrenhos, abismados pelo desplante para com o seu ídolo. Aguenta-se muito bem como conto de terror dentro do muito batido género zombie, e mostra um profundo conhecimento da obra literária de Pessoa na forma como utiliza os poemas dos diferentes heterónimos nos diálogos dos personagens. Sem querer revelar demasiado, mas tendo em conta a linha do livro, o spoiler é inevitável, digamos que nem a musa Ofélia escapa ao tenebroso destino.

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