quarta-feira, 22 de junho de 2016

Antigas e Novas Andanças do Demónio


Jorge de Sena (2007). Antigas e Novas Andanças do Demónio. Lisboa: Edições 70.

Na busca dessa coisa elusiva que é a ficção fantástica portuguesa, vim parar à obra de Jorge de Sena. Que, bem sei, não é escritor de fantasias, mas tem em alguns elementos da sua vasta obra traços entre o onirismo, o sobrenatural e as tradições do fantástico, quer históricas quer populares. Surpreendeu esta descoberta, um livro que não se lia mas se saboreava, pela força das palavras do autor. E mais não digo, que para me atrever a pegar neste escritor precisava de um arcaboiço literário e académico que não tenho. Só me pergunto como diabos andei tanto tempo sem me aperceber destas andanças.

Razão do Pai Natal ter as Barbas Brancas: Diz-se que as tentações do demo assolaram Jesus no deserto, mas a verdade é que este já conhecia as desandanças do grande carapelho. Conheceu-o quando era menino, quando o natal lhe prometia uma carroça feita com muito amor pelo seu pai carpinteiro. Perdeu para o demo, mas ganhou uma dada pelo pai natal, que a partir desse momento passou a usar uma barba branca para se distinguir desse outro cavalheiro de língua afiada. Mas, esperem um pouco. O menino Jesus também tinha prendas de natal? Isso, talvez seja outra história...

História do Peixe-Pato: Era um homem que vivia só, à beira mar numa restinga de uma ilha deserta. Comia o que pescava, abrigava-se das raras tempestades num rochedo alto. Até se cruzar com um peixe diferente dos outros, um peixe-pato, que lhe fazia companhia e pedia mimos. A história irá acabar nos bicos das gaivotas impiedosas que sobrevoam constantemente a restinga.

Mar de Pedras: Jorge de Sena ficciona uma lenda atribuída ao santo inglês Venerável de Beda, monge escolástico que teria, um dia, pregado às pedras. Na ficção o santo dirige-se à aldeia limítrofe ao mosteiro para o serviço religioso. Perdido nos seus devaneios, não dá pela passagem do tempo, e ao cair da noite é assaltado por dois jovens camponeses, revoltados com o seu destino. Cativa-os com a sua bondade, e abrigam-se do frio da noite num templo arruinado, sobre cujas pedras as mulheres da zona gostam de se deitar para assegurar a fertilidade. Sob as pedras megalíticas, desfiado pelos camponeses a convencer as pedras sobre a verdade das suas crenças, faz um discurso tão apaixonado que estas lhe respondem. A partir de uma lenda piedosa, Jorge de Sena constrói um elogio à sabedoria, à bondade, ao gosto pelo conhecimento, apropriando-se de uma figura histórica, responsável pela escrita de uma das mais antigas histórias dos povos ingleses.

O Comboio das Onze: Vinheta surreal, onde a carruagem de um comboio serve de palco a estranhos desejos lúbricos. Conto curioso, onde o ponto de vista vai saltitando de personagem em personagem.

A Janela da Esquina: Era uma velhinha, mesmo muito velhinha, que terminava os seus dias de exígua e solitária existência esquecida por um mundo que já ela tinha esquecido. À janela de uma casa lisboeta, cujos aposentos se cobrem de pó e sujidade entranhada. Até ao dia em que espreita pelos vidros um casal enamorado, cujos encontros amorosos se passam entre a esquina e a mercearia da rua. Algo daquele amor lhe entra no sangue, e por breves momentos irá renascer, até a morte a levar. Um conto sobre solidão e vidas apagadas, que aqueles que recordam uma Lisboa antiga, dos bairros tradicionais com os seus envelhecidos habitantes, compreendem com um especial gostinho.

A Comemoração: A ideia surgiu no café, entre dois copos e muita bazófia, e o senhor que era escriturário na repartição tomou muito naturalmente o pulso à coisa. Afinal, homenagear um herói das colónias de África, que chegou lá marçano e veio de lá governador, não é tarefa para qualquer um. Depois de muito cuidado na preparação, com a divulgação nos jornais e até naquele posto da rádio onde as meninas do bairro cantavam para o éter, lá vai o senhor chefe de repartição ao cemitério para aquela que espera ser uma enchente de homenagem. Mas ninguém aparece para o render das honras. Em evidência no conto está a memória incómoda das colónias, as eternar boas vontades das conversas de café que raramente se concretizam, bem como a pequenez das regras de primazia nos ambientes laborais empoeirados.

Duas Medalhas Imperiais Com Atlântico: Mais vinhetas do que contos, relatos de impressões de viagem marítima, entre as conversas dos marinheiros e a realidade das colónias de Cabo Verde e S. Tomé, com o esplendor das paisagens a servir de palco aos dramas humanos da pobreza e solidão. Não são observações fáceis, ou cómodas para o regime ditatorial. Nelas, Sena fala da sexualidade dos marinheiros em longas viagens, da fome desesperada das crianças na aridez cabo-verdiana, ou o hábito dos donos das roças são-tomenses de ir caçar pretos na mata, para aliviar o tédio.

A Campanha da Rússia: Rumores que a casa onde o escritor se hospedou, então estudante pelintra, na rua da Cedofeita, servia de palco a invocações espíritas são a faísca para alguém que tem temores do além passar as noites à deriva pelas ruelas do Porto. Enquanto lá fora, no mundo, a campanha da Rússia ruge na II Guerra, o jovem estudante mergulha como num sonho surreal nas ruelas e becos de uma cidade cuja vida parece desabrochar ao cair da noite.

Kama e o Génio: Era um génio, não muito poderoso mas tido por isso pelos habitantes da aldeia indiana pela qual velava, ao longo de séculos. Detestava as oferendas de papa e leite ázimo, preferindo as raras asinhas de frango, mas acarinhava os aldeões e seguia-lhes as vidas, transmigradas, após a morte. Até um dia, em que os aldeões em fúria lhe cortam parte da árvore que o alberga para empalar um criminoso apanhado pela turba. O génio não suporta ver o sofrimento ladrão, solta-o, e é prontamente espancado pelos demónios que assombram o cemitério, normalmente amigáveis mas irritados pela óbvia perda de muito entretenimento. Felizmente para o génio, o ladrão em risco de execução era uma encarnação do deus Kama, que o recompensa com uma nova vida numa árvore do seu palácio, com dríades para o aconchegar e as suas tão queridas asinhas de frango para o alimentar. Conto onde Jorge de Sena olha com humor para a mitologia hindu, inspirado nas ideias de transmigração das almas.

A Noite Que Fora De Natal: Contos de natal de Jorge de Sena são, nota-se, algo avessos ao espírito natalício. Este começa na ressaca de uma noite de deboche, onde o imperador Tibério sacrificou um jovem escravo para saciar os seus desejos, contando a um dos seus fiéis servidores que ouviu relatos acerca da morte do deus Pã, perguntando-se se será ele, o imperador, deus nascido com a morte desse outro. Regressa quarenta anos depois, com o antigo servidor de Tibério a ser visitado por um velho amigo dos tempos dos seus serviços na Judeia, agora o líder de uma religião emergente que o imperador Nero quer pôr cobro. É uma visita amarga, pois o apóstolo sabe que em Roma lhe espera o martírio, mas com tempo para especular. Se o deus que o cristão segue teve o seu messias na terra há quarenta anos, terá sido ele o que nasceu com a morte de Pã?

O Grande Segredo: Pequeno conto inspirado nos relatos de êxtases místicos de santas, com uma curiosa inversão. A monja santificada que acolhe este sublimar das paixões religiosas abomina os momentos extáticos. No seu íntimo, o ser tocada pela mão de deus é bem pior do que as sevícias que sofreu ao longo de uma vida de sofrimento e escravidão, na qual a clausura é o alívio para uma alma torturada.

Super Flumina Babylonis: Uma ode a Camões, olhando para a amargura do final da sua vida, ficcionando de forma apaixonante elementos da biografia do poeta. Conto denso, algo tenebroso, analisa a pulsão da poesia face à pobreza e esquecimento a que foi votado.

Conto Brevíssimo: O contar de um curto encontro com uma velhota na rua da estação dos correios é a faísca para uma reflexão, curta, sobre o carácter sintético do conto enquanto forma narrativa.

Defesa e Justificação de um Ex-Criminoso de Guerra: Conto cruel, que procura o impensável, colocando-nos da mente de um oficial nazi que, encarregue de controlar um território eslavo, o transforma num recreio para as piores pulsões humanas. O tom mantém a superioridade daqueles que se crêem superiores aos seus semelhantes, justificando a violência extrema com uma objectificação desumana. Narrativa incómoda, que nos leva a ver o mundo pelos olhos de um monstro que se acredita inocente.

O Urso, a Pantufa, o Quadro e o Coronel: Outro conto de Natal onde Sena cruza o espírito da época com contornos de sobrenatural. Durante uma noite de tempestade, numa pousada serrana, um militar em viagem cruza-se com uma bela viúva, dona da pousada, revê-se num quadro antigo, tem sonhos marcantes e, ao acordar no dia seguinte, ninguém o consegue convencer que o dono da pousada está vivo e de boa saúde. Terá sido sonho ou assombração? Esta dualidade nunca explicitada torna delicioso este conto.

Os Amantes: conto que dificilmente seria publicado por cá nos tempos do regime do estado novo. O apelo à sensualidade e sexualidade é directo e explícito nesta história que explora muito bem os sentimentos carnais do amor.

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