terça-feira, 5 de abril de 2016

Sr. Bentley, o Enraba-Passarinhos


Ágata Ramos (2006). Sr. Bentley, o Enraba-Passarinhos. Parede: Saída de Emergência.

Este tipo de livros não costuma ser muito fácil de engolir. Propositadamente chocantes e provocadores, são exemplos impressos, em termos freudianos, do Id à solta. Todos os maus pensamentos, ideias raivosas, lampejos inconfessáveis e desejos culposos, aquilo que recalcamos como refugo de personalidade, sucedem-se metodicamente neste tipo de narrativas. Os nossos anticorpos morais, culturais e de ética pessoal ficam inquietos com o constante bombardeamento de escatologia transgressiva.

O Enraba-Passarinhos, com as desventuras do importuno, impertinente, ofensivo, impróprio, inopinado e mais uma longa série de adjectivos negativistas não necessariamente começadas por i protagonista, é um desses livros. Com o seu quê de provocação light, porque o óbvio lado cómico da obra impede-nos de a levar muito a sério. Cada capitulo é uma sucessão insultuosa de desmandos e mergulhos num absurdismo escatológico, centrados num personagem que adora provocar tudo e todos só porque sim, e não poupa ninguém ao zurzir constante da suas incómodas língua e acções.

Apanhei este livro por acaso em trânsito pela Gare do Oriente, anos depois da sua publicação original. Nunca percebi a política das livrarias, que mantém a maior parte das obras em janelas muito curtas de venda. Suspeito que se o tivesse lido há... cinco anos atrás, foi essa a data original de edição (podia ir ver aos créditos, mas deixem-me ser um bocadinho Bentley)? Nessa altura, o livro parecer-me-ia ou mais ofensivo ou mais acutilante do que realmente me pareceu, hoje. Talvez porque hoje, mercê de uns media à mercê do clickbait, do ressurgir de forças políticas obscurantistas em tempos de crise global, se ouça e leia por aí muita coisa de fazer jus ao senhor Bentley, mas proferidas por pessoas que acreditam realmente no que dizem. Basta ler alguns cronistas, peritos no ladrar acutilante de cão de fila, ou ouvir declarações de responsáveis políticos, para percebe que o senhor Bentley deste livro é até muito inocente nas maquiavélicas maquinarias do mundo. Por muitas sevícias e insultos que declame, Bentley empalidece frente a um Trump, candidato à presidência da mais poderosa e influente nação do mundo, cuja última declaração patética e ofensiva estou a ouvir enquanto escrevo esta recensão. Lamento, mas nos dias de hoje, o Senhor Bentley já não consegue ferrar a dentuça com a força que gostaria de ter.

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