sexta-feira, 18 de março de 2016

Adventures in Unhistory



Avram Davidson (2006). Adventures in Unhistory: Conjectures on the Factual Foundations of Several Ancient Legends. Nova Iorque: TOR.

And each connection, it is said, shines and glitters, like a jewel.
É deste tipo de pensamento que é feito o substrato do imaginário. Antigos mitos, ideias díspares, histórias que talvez já tenham sido verdadeiras, algures no tempo. Peças desconexas que uma mente inquisitiva poderá vislumbrar como elementos de um puzzle. Este curioso livro de ensaios de Avram Davidson é um pouco isto, uma manta de retalhos de ideias, misturando mito, história, literatura, Ciência e muita conjectura.

As questões que Davidson levanta são algo esotéricas. De onde vieram as fénix, por onde andou Sindbad, quem realmente foi Preste João porque é que o dodó é tão simbólico ou o que anda por detrás das histórias de sereias, entre outras questões que costumam fazer parte dos livros sobre fantasia ou mitologia. Davidson segue um caminho muito pessoal, em vias sinuosas entre história, Ciência e literatura. Esboça hipóteses, que ele próprio aponta como elucubrações, sobre as origens reais dos mitos que ainda hoje nos encantam.

É curioso que nunca segue o caminho mais óbvio de apontar simplismo ou ignorância aos antepassados. Mostra-nos, antes, que se os factos que originaram os mitos se perderam na noite dos tempos, deram origem a histórias que se foram modificando ao longo do tempo. Porque quem conta um conto acrescenta um ponto. Para embelezar, tornar mais fascinante, ou simplesmente desviar as atenções para manter algo em segredo. É impossível não sorrir ao ler a interpretação do autor sobre as estranhas histórias que Heródoto registou como verdadeiras, talvez advindas da capacidade inventiva de nativos com pouca vontade de revelar ao ingénuo forasteiro os segredos do seu território.

Tudo contado com um cunho de oralidade marcante. Mais do que textos literários, estes ensaios soam a palestra, cheios de interjeições e desvios típicos da oralidade, que enriquecem e dão vida à sequência das ideias.

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