quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Saga #01

 

Brian Vaughan, Fiona Staples (2014). Saga Vol. 1. Maspalomas: G. Floy Studio.

Termino sempre desconcertado a leitura de Saga. Por um lado, intriga-me o brilhantismo de uma premissa que colide com extremo prejuízo as tropes clássicas da FC e Fantasia. A variante da história de amor entre filhos de casas desavindas, Romeu e Julieta para os shakesearianos, Píramo e Thysbe para os classicistas, aqui representados por um casal de espécies vizinhas mas eternamente em guerra que gera uma filha, alvo do interesse das mais poderosas forças galácticas.

A dualidade entre duas espécies em guerra eterna, uma claramente modelada nos ícones da FC clássica, em  uniformes de Buck Rogers e Flash Gordon e asas truncadas, lideradas por cyborgs robóticos hedonistas cujas cabeças replicam os televisores dos anos 50, a outra uma caricatura de Pan com cornos e poderes mágicos. A guerra por proximidade entre dois vizinhos, habitantes do mesmo sistema planetário, que para não danificarem os seus lares combatem no que eufemisticamente chamam de planetas-cliente, terrenos de luta arrasados com as populações nativas exterminadas ou vendidas para escravatura nos bordéis galácticos. Estranhas estratégias de sobrevivência dos povos subjugados, como a espécie planetária que após o seu extermínio persiste como fantasmas que assombram os combatentes. Perigosos caçadores de recompensas capazes de virar a galáxia do avesso para cumprir os seus contratos. São estes os elementos em colisão nesta intrigante série.

Feitiços, raios laser, foguetões biológicos, estações espaciais, encantamentos, assombrações, fraldas sujas. A junção é muito bem feita, temperando ironia pós-modernista com comentários acérrimos à actualidade. Guerras por proxy? Prisões de combatentes? O dualismo entre terrorista e combatente pela liberdade? Percebe-se bem. Então, porquê o sentimento de desconcerto?

Na verdade, não consigo colocar o dedo no que precisamente é a ironia desta série. Não percebo se é Monty Python, absurdista mas a fazer pensar, ou Benny Hill, hilariante mas acéfala. Por vezes, a colisão Fantasia/FC é demasiado óbvia, as personagens e situações demasiado caricaturais. Noutras, a ironia é fina e intrigante. Uma dualidade que começa logo pelo nome da série, que suspeito ser o que seria se Joseph Campbell tivesse escrito sobre a estrutura do progresso do herói em tom de comédia.

O que Saga tem provado ser é uma saga de sucesso junto do público, com continuidade assegurada na Image Comics e traduções editadas globalmente.

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