quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Sharaz-De



Sergio Toppi (2015). Sharaz-De. Oeiras: Levoir.

Deixei o melhor para o fim. Aliás, este foi o elemento fundamental que me convenceu a negociar com uma papelaria cá da terra para fazer a colecção completa das Novelas Gráficas Público/Levoir. Tinha de assegurar que esta edição do esplendoroso Sharaz-De chegaria às minhas estantes. Sabendo o que me esperava, tendo-o já encontrado por portas e travessas nos recantos obscuros do mundo digital, guardei-o até ter tempo mental para o saborear.

A adaptação de contos das Mil e Uma Noites por Toppi toca-nos no fascínio do orientalismo. Não adapta toda a obra - seria trabalho gargantuesco, mas condensa episódios do vasto tecido ficcional dessa recolha clássica da tradição árabe. Mas não é pelo texto que o livro me encanta. Apesar de ter uma relação nostálgica com leituras de infância de esfarelados exemplares de uma edição de 1957 na colecção Orbe da Livraria Clássica Editora. Essas edições coligidas por Eduardo Dias ensinaram-me o que sei sobre Sheharazade, Aladino, Sinbad, génios, odaliscas, palácios luxuosos no meio dos desertos, princesas misteriosas, bruxas que se alimentam de cadáveres nos cemitérios do Cairo e as aventuras do jovial Harun Al-Rashid, o califa que elevou Bagdad aos píncaros civilizacionais. Sublinhe-se que a nostalgia infantil não me cegou para o lado polémico da obra, traduzida para a sensibilidade europeia no século XIX como uma visão fantasiosa e pitoresca da cultura árabe. Boa companhia para aquelas pinturas de jovens tunisinas de seios ao léu ou paisagens de carnes ardentes de odaliscas saídos dos pincéis da escola orientalista francesa, muito adepta da sensualidade das escravas no harém. O orientalismo tem muita coisa passível de aterrorizar psiquiatras ou psicólogos clínicos.

O que torna Sharaz-De obra maior é o traço de Toppi. Fortemente texturado, filigranado a roçar a abstração. Os arabescos que deslumbram o olhar são muito apropriados para estas histórias das arábias sonhadas. Têm mais força no contraste puro do desenho a preto e branco, embora as ilustrações a cor também nos façam perder o olhar. As figuras surgem por entre os arabescos filigranados ou texturas densas, pequenos oásis de silêncio por entre o murmúrio do traço.

Oásis. Pronto. Bolas. Fui apanhado pelo espírito orientalista. Resta-me ir ouvir a Scheherazade de Rimsky-Korsakov no palácio de Monserrate. Deixo ficar Toppi na estante, mas trago comigo um ou dois dos livros da colecção orbe. Permitem-me?

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