quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Europe at Midnight



Dave Hutchinson (2015). Europe at Midnight. Solaris.

Europe at Midnight parte de uma premissa fantástica para gerar o seu mundo ficcional. Lê-se a bom ritmo, com um enredo interessante que nos mantém agarrados à obra para perceber por onde é que a história se vai desenvolver. Apesar disto, tem alguns defeitos estruturais que dificultam a sua compreensão.

Vamos por partes. Primeiro, o mais interessante. O mundo ficcional deste romance que mistura ficção científica com distopia e policial procedimental desenrola-se num futuro próximo. A Europa colapsou, vítima das pressões trazidas por crises económicas e uma misteriosa pandemia que matou milhões. Os próprios estados colapsaram, com micro-países a irromper um pouco por todo o território de uma União Europeia que parece ainda existir no papel. A Inglaterra já não é um reino unido, com a Escócia e Gales independentes, e a Cornualha a travar uma guerra civil.

Mas há mais territórios, e mais Europas. Numa curiosa mistura entre ficção científica hard e fantasia, Hutchison fala-nos de dois territórios paralelos, pequenos mundos circunscritos que coexitem com o nosso planeta. A explicação para a sua existência mistura topologia n-dimensional com um acto de criação levado a cabo séculos antes por um casal de geógrafos, que ao mapear regiões ficcionais acabou por lhes dar origem. É este o elemento mais interessante do romance, fazendo recordar um dos episódios do arco narrativo de Air, comic de G. Willow Wilson e M. K. Perker, em que os personagens aterram num território encastrado entre a Índia e o Paquistão esquecido pelos mapas. Se bem que a principal inspiração talvez tenha sido a ideia de que o mapa forma o território, tão bem lançada pelo magistral conto Tlön, Uqbar e Orbis Tertius de Borges.

O romance vive de tensões de espionagem e jogos de poder entre o mundo real e as realidades paralelas. Uma é um enorme campus universitário, outra uma segunda Europa que se estende da península ibérica a Moscovo que se assemelha a uma gigantesca Inglaterra idílica. Há pontos de contacto entre os mundos, caminhos que parecem seguir um percurso mas levam a outro. E há algo mais soturno. Se o nosso mundo desconhece as realidades que lhe são paralelas, o mundo universitário vive encerrado numa espécie de redoma conceptual. Já a Europa paralela, colonizada por famílias vindas da Europa real, conhece bem e influencia o mundo mais vasto que está para lá da sua topologia.

São estas tensões que formam uma linha narrativa próxima do romance de espionagem. Oscilamos entre o ponto de vista de um agente de segurança inglês, que descobre, atónito, a existência destes mundos paralelos, e um refugiado do mundo universitário, também ele um agente secreto que se verá envolvido em diversas conspirações que, metodicamente, nos vão revelando os segredos deste mundo fascinante.

É na duplicidade de pontos de vista que o romance falha. Oscilamos entre narração de primeira e terceira pessoa com alguma desconexão, nem sempre sendo aparente quem é o narrador. A sequenciação da linha narrativa depende de uma multiplicidade simultânea de eventos que só nos é apresentada, muitas vezes, demasiado tarde. Apesar destas falhas, é um romance intrigante que desperta a atenção pela premissa em que se baseia. Uma ficção sobre ficções que se tornaram reais. Não resisto a destacar o pormenor da arma cronenberg, uma pistola totalmente orgânica de um só tiro que não deixa quaisquer pistas sobre a sua utilização. Quem se recorda de Videodrome percebe o aceno.

Europe at Midnight será editado em novembro. Esperemos que até lá as inconsistências estruturais que prejudicam um divertido livro sejam limadas graças às indicações dos leitores que leram a ARC.

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