quarta-feira, 24 de junho de 2015

Cunning Plans: Talks by Warren Ellis


Warren Ellis (2015). Cunning Plans: Talks by Warren Ellis. SUMMON Books.

Creio que não consigo datar com precisão o momento em que me apercebi que venerava Warren Ellis. A coisa deu-se um pouco por acaso, ainda naqueles tempo pré-históricos em que a internet se acedia através de modems analógicos, a blogoesfera mais pura era uma colecção de texto e links, e comecei a seguir uma página escrita por ele. Daí passei aos comics, e fiquei irremediavelmente transfixo pela forma como a mente de Ellis digere tecnologia, futurismo e narrativas empolgantes de banda desenhada. Fiel fã da trilogia divinal Alan Moore, Neil Gaiman e Grant Morrison, descobri em Ellis algo ausente nestes grandes nomes dos comics: um profundo e difícil de expressar sentimento de compreensão dos limites em constante expansão da modernidade. Há mais no seu trabalho do que bons argumentos e histórias intrigantes. Por detrás destes sente-se uma intricada estrutura conceptual de especulação informada, um andaime conceptual que se deslumbra com a radicalidade da crista da onda científica e tecnológica enquanto especula em direcções inesperadas sobre os seus impactos sociais, morais e civilizacionais. Este carácter, tão ausente de boa parte da Ficção Científica, rendeu-me de vez ao trabalho deste singular autor que se refugia no estuário do rio Thames. Ellis compreende a modernidade tal como Ballard, anteriormente, a sentiu, sendo de certa forma um herdeiro do ballardianismo.

Cunning Plans reúne apontamentos e transcrições de palestras que Ellis tem sido convidado a dar em eventos ligados às intersecções entre tecnologia, design e arte. Sendo um contador de histórias, com um lirismo visceral da palavra electrificada, não se remete para o hype dinâmico ou apresentação estilo TED, com um pé na academia e outro no espectáculo. Ellis tece fiapos de pensamentos que reflectem a condição hipermoderna, misturando narrativas de elementos díspares que se solidificam em pontos de vista inesperados. Não é como Sterling, guru e profeta do admirável mundo novo digital, ou tantos outros oradores conceituados. É um shamã do mundo eléctrico, conjurando noções radicais na mente daqueles que estão encurralados a ouvi-lo com as teias de palavras que urde. Caracterizando as palestras pelos textos, não se trata tanto de aprender coisas novas mas sim de interligar o que se sabe e o inesperado, abrindo novos caminhos para compreender este transiente momento contemporâneo. Estes textos são delícias cerebrais, saída directamente do teclado do shamã da hipermodernidade digital.

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