terça-feira, 23 de junho de 2015

"Best-Seller" de Ficção Científica


Roussado Pinto (1972). "Best-Seller" de Ficção Científica. Lisboa: Portugal Press.

O que é que andei a fazer a ler esta antologia que é, no sentido literal, mais velha do que eu? Recordem que a FC é um género que preserva a sua memória colectiva, que recorda escritores desaparecidos, reedita continuamente algumas obras marcantes e redescobre periodicamente obras esquecidas. Pegar nesta antologia portuguesa de 1972 é olhar para o passado, para o que se lia e parecia pertinente à época.

Devo ressalvar que esta antologia não tinha por objectivo ser algum olhar revolucionário sobre o género, à época. É uma colecção de histórias que até acaba por ser representativa mas que se nota ter sido criada para atrair leitores e vender livros. O resto, o objectivo mais erudito, é acessório. Ross Pynn, em modo faz tudo, escolheu os contos, escreve introduções para cada um, e até nos deixa contos seus sob pseudónimo. Um, O Voo do XS-102, é muito interessante. A genialidade trashy desta antologia começa nas primeiras páginas, onde o editor assume que optou pelo acaso como critério de selecção e publicação. E isso nota-se, com alguns contos que nada têm a ver com FC, escolhidos porque os leitores reconheceriam os autores dos romances policiais que consumiam.

No meio disto ficamos com uma antologia que consegue meter no mesmo saco Ray Bradbury, Isaac Asimov, Poul Anderson, H.P. Lovecraft e John dos Passos. O ecletismo, aqui, é sublime, embora a qualidade da maior parte dos contos escolhidos deixe muito a desejar. Tal como as traduções, que suspeito terem sido a metro, reduzindo alguns contos à incompreensibilidade.

Esta antologia é hoje um artefacto histórico da FC em Portugal. Chegou-me às mãos por oferta do übergeek Paulo Morgado, exímio caçador destas pérolas na Feira da Ladra. Como acordo mais tarde do que ele e não vivo em Lisboa nunca chego a tempo de as encontrar... como artefacto, achei que merecia ser lido e não colocado na estante, à espera de oportunidade de sair para alguma mostra literária ou bibliográfica.

Nós Vencemos Amanhãs - conto muito curto mas bem estruturado sobre paradoxos temporais. Quando uma armada alienígena vaporiza Vénus, Terra e Marte unem-se para atacar a ameaça. Após a vitória, na sede da vingança, organizam uma armada de naves mais rápidas do que a luz para dar caça aos invasores. Dela nunca mais nada se sabe, até que um cientista se apercebe que a armada voltou atrás no tempo e provocou a catástrofe que gerou a necessidade de criar uma armada vingativa. Simples, bem escrito, apesar da tradução soar algo estranha. Como traduzir "ships" por navios, o que dá um toque de dissonância à narrativa.

O Homem Que Sabia - Conto de J K Marshall, autor desconhecido, que a historiografia da ficção científica não manteve na memória. Ou então, sendo um livro editado por Ross Pynn, nada garante que não seja outro pseudónimo deste prolífico escritor a metro. A história é vagamente sobre mutações induzidas por viagens no espaço, mas é pouco perceptível e está do lado errado da fronteira da incomprensibilidade. Destaca-se o arcaísmo da tradução, que nos dá o divertido "navio astral" no lugar de starship.

O Sorriso de Metal - conto de Alfred Coppel sobre um futuro onde a humanidade se encontra à beira de uma extinção suave. Os avanços da robótica trouxeram robots tão perfeitos que se tornam mais que humanos, e a humanida torna-se obsoleta e vai-se extinguindo, sem gemidos nem dor. Toda a história se centra num autómato que está tão apaixonado pela cultura humana que quer ter um filho, esquecendo-se da condição de infertilidade biológica típica de criatura mecânica.

Um Retrato Perfeito - conto de Alan Nelson sobre um retratista que desenha as pessoas não como são no presente mas como irão ser no futuro, o que geralmente lhe granjeia devoluções dos clientes desmoralizados sobre no que se irão transformar.

Brilho Planetário - desconhecia que Bertrand Russel, filósofo e divulgador científico do século XX, tinha escrito contos de ficção científica. Roussado Pinto desencantou um deles (talvez; com este personagem as fronteiras entre o verdadeiro e o verosímil são muito difusas). Não sendo pérola literária, é uma parábola onde alienígenas funcionam como metáfora para a doutrina da destruição mutuamente assegurada para manter o equilíbrio entre as super-potências americana e soviética. Algo que no nosso contemporâneo mundo multipolarizado nos parece distante e em vias de se desvanecer das memórias.

Jogo de Loiras - conto de John D. McDonald, mais associado ao policial que ao fantástico, onde um homem bêbedo e deprimido encontra redenção graças a uma força misteriosa que lhe permite recuar no tempo e corrigir um pormenor que se tornará decisivo no seu percurso de vida.

Lição de História - finalmente, um dos grandes nomes da FC nesta antologia com um conto de Arthur C. Clarke. Não é dos seus melhores, mas destaca-se pela ironia e pelo ambiente pós-catastrofista. Milénios no futuro, os sobreviventes humanos ao que se assume ter sido um cataclismo nuclear vagueiam pela Terra preservando artefactos de um passado cuja memória perderam. Quando um grupo de cientistas venusianos chega à Terra, ficam particularmente intrigados por um objecto cilíndrico que no seu interior encerra um rolo contendo imagens sequenciais. Percebendo que se o fizerem rodar e projectar conseguem ver o documento, encantam-se com um filme da Disney, antecipando os futuros estudos académicos que permitirão desvendar os segredos das raças humanas desaparecidas da Terra.

Os Homens da Terra - Outro clássico, desta vez um dos contos das fabulosas Crónicas Marcianas de Ray Bradbury. Este é aquele em que os astronautas terrestres chegam a Marte e são recebidos como projecções fantasmagóricas da mente de um marciano doente, algo plausível num planeta onde as capacidades telepáticas podem dar manifestação física às aluncinações. O final, com o supostamente ilusório foguetão a manter-se depois da morte dos astronautas e do psiquiatra marciano que ao ver os seus corpos e equipamentos não se esfumarem, julgando-se também contaminado, acabando por ser um artefacto vendido como sucata, é magistral.

Uma Estrela Portátil - Conto não muito inspirado de Isacc Asimov, sobre dois casais cuja viagem de turismo interestelar sofre uma paragem forçada por avaria num planeta aparentemente sem vida mas habitado por formas de vida que se manifestam na mente dos incautos visitantes. Curioso, o nome do escritor aparecer como Azimov.

Agarrem esse Marciano - Conto curioso de Damon Knight sobre pessoas transformadas em fantasmas desmaterializados ao se cruzarem com um cientista marciano de visita à Terra.

O Voo do XS-102 - Suspeita-se que o autor, R. de Lue, seja um pseudónimo de Roussado Pinto. O conto replica na perfeição a hard SF simplista e inocente dos anos 50 e 60, com o seu quê de Destination Moon e Rocketship X-M. O voo do foguetão experimental deixa um astronauta em apuros. Mas a sua inelutável fuga do sistema solar é travada pela atracção gravitacional da Lua, cuja superfície oculta um fascinante mistério. Afinal, a Lua é habitada por uma civilização avancadíssima que, há milénios, se ia extinguindo numa guerra atómica. Salvou-se passando a ocupar cidades construídas nas cavernas lunares. Seres avançados e benevolentes, capazes de quase tudo com o seu Raio H, ajudam o pobre astronauta a regressa à Terra e à mulher que ama. O conto é uma mistura muito óbvia de variados elementos da FC clássica, não deixando de ser divertido e intrigante. Pergunto-me se o Major Tom, o astronauta do conto, não será um aceno do autor à canção clássica de David Bowie. Se de facto este é um pseudónimo, parece-me bem possível. Este livro data de 1972, a canção de 1969, e Roussado Pinto tinha fama de escrever a muitos metros por segundo. Este conto é uma das curiosidades deste livro.

Preocupação - Conto de Clifford D. Simak sobre o poder da ficção no moldar do pensamento humano, levado ao extremo com um personagem que consegue materializar as ficções que imagina.

Mensageiros da Solidão - Neste conto de Theodore Sturgeon uma mulher espalha a mensagem que recebeu de um disco voador. Mas não trás conhecimento ou perspectivas de invasão alienígena, apenas um curto poema. Porque os discos voadores lançados por civilizações desconhecidas avançadas poderão não ser mais do que o equivalente galáctico às mensagens atiradas ao mar em garrafas.

Apartamento Espacial - Qual será a forma menos traumática de extraterrestres capturarem espécimes humanos para experiências? Que tal camuflar uma nave espacial como um bairro de alta qualidade com rendas de baixo custo, atraindo casais incautos que ignoram estar dentro de uma enorme armadilha? Richard Matheson foi um daqueles autores cuja capacidade narrativa dava forma e interesse a qualquer conceito.

Estrela Fantoche - Conto de Anthony Boucher onde dois alienígenas, perdidos de amor, se encontram na Terra graças aos bons ofícios de humanos com capacidades telepáticas latentes.

A Cor Que Veio Do Espaço - Sim, é esse mesmo, um dos contos do lendário H.P. Lovecraft. Simboliza o ecletismo desta antologia, que apesar de caótica na sua organização tenta cobrir de forma abrangente as várias vertentes e dimensões da FC. Justificada, a inclusão deste conto onde Lovecraft misturou FC com a sua peculiar visão do Terror.

As Nascentes do Nilo - Conto de Avram Davidson, pouco inteligível, talvez pela tradução. Aparentemente tem a ver com a capacidade de antever tendências de futuro, algo que abre possibilidades interessantes para quem trabalha com a cultura pop, sempre dependente dos gostos de um público imprevisível.

O Dia em que Rembrandt se tornou Público - pequeno conto, quase infodump especulativo, de Arnold Auerbach, que imagina o que aconteceria se as grandes obras de arte fossem tratadas como activos financeiros transacionados em bolsa.

Descoberta no Autocarro - Apontamento humorístico de Russel Baker que exorciza os medos de uma guerra nuclear entre os blocos ocidentais e soviético.

O Aprendiz de Feiticeiro - Conto de suspense de Robert Bloch. Uma história sobre uma criança mentalmente diminuída que é manipulada para assassinar um homem, só que a manipulação, baseada nas ilusões da magia, provoca um banho de sangue. Foi difícil perceber como é que um conto destes se enquadra numa antologia de ficção científica. Suspeito que o editor decidiu enfiar um conto de Bloch porque, enfim, é um dos grandes nomes da ficção de género. E não conseguindo encontrar um de pura FC, ficou-se pelo qualquer coisa dá...

A Loja dos Brinquedos - Neste conto de Harry Harrison, os inventores de um sistema revolucionário de propulsão que parece desafiar as leis da física optam por um estratagema curioso para convencer os cépticos: constroem brinquedos que irão intrigar engenheiros e cientistas, levando-os a investigar os mecanismos que contrariam a ciência conhecida.

A Vontade Livre - Conto de Poul Anderson em que um ser vindo do futuro se auto-destrói ao evitar que a humanidade se aniquile no holocausto nuclear. Condoendo-se do destino humano, condena a sua linha temporal a nunca existir. Reduzido a menos que uma memória na mente humana, fica no ar a questão se o fim do perigo de extinção teria sido por efeito do exercer do livre arbítrio humano ou mão divina.

Os Barbeiros - Mesmo relendo o conto de Lawrence Durrell não consegui descortinar quaisquer elementos de ficção científica nesta história bem humorada sobre barbearias. O título da antologia bem nos avisa: "best sellers". E Durrell, à época, era autor de best sellers.

Tudo por uma Gargalhada - Vou assumir que há uma gralha no texto e que o "Mann Rubi" que assina este conto seja o escritor Mann Rubin. A história em si é moralista e concentrada, naquele estilo comercial de suspense e guião para televisão. Um marciano quer compreender o segredo do humor e contacta um comediante falhado para o ensinar. Perante as lições, que se centram no rir do sofrimento alheio, demonstra muito bem que percebeu este negro sentido do humor.

O Infeliz Mr. Morky - Conto de Vance Aandahl onde um personagem se divide e é incapaz de se reconstruir.

Três Prólogos e um Epílogo - Não um conto, um poema, e de John dos Passos, um autor insuspeito de andanças de ficção científica. Poema que é uma ode ao progresso e ao conhecimento científico.

Terra dos Buracos - Conto de Marcus Agnés onde um ganancioso construtor civil se depara com criaturas misteriosas e demoníacas numa propriedade que comprou para obter lucro fácil.

Detective do Século XXX - Roussado Pinto volta a imiscuir-se sob o pseudónimo de Charles de Vet com um conto no limiar do compreensível sobre detectives futuristas que recorrem à telepatia para desvendar conspirações.

O Monstro - O próprio antologista nos avisa que o conto S. M. Tenneshaw é FC no seu mais simplista e infantil, a contar histórias de monstros criados por influência da ciência. Neste não temos bug-eyed monsters, mas um cientista que  sofre as consequências de se expôr a raios cósmicos no seu foguetão.

Salão de Beleza - querendo ser inovador, o antologista decide encerrar a antologia com o que na altura era coisa rara e inédita: um conto de FC escrito por uma mulher. Ideia interessante. Recordem que ainda hoje a questão de género entre os escritores não está ultrapassada e nos anos 70 imperava o machismo nas fileiras da FC. Pynn poderia ter escolhido, por exemplo, algo de Joanna Russ ou James Tiptree Jr., o pseudónimo que permitiu a uma escritora reconhecimento literário num meio hostil. Mas não. A boa intenção desfaz-se em desastre quando o conto de Elisabeth Borgese, esquecida nos anais da FC, se debruça sobre a vacuidade da beleza. O futurismo está num salão de beleza onde as senhoras se vêm pôr bonitas para os seus maridos, que dispõe da mais avançada tecnologia, capaz de transformar as rugas e carnes flácidas em belezas esculturais para melhor agradar aos homens. E não, não é um conto feminista irónico, o que se lê é o que lá está.

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