quarta-feira, 20 de maio de 2015

O Mandarim


Eça de Queirós, O Mandarim.

Devo começar por confessar que até agora não tinha lido este texto clássico da literatura portuguesa. Vergonhoso, bem sei, e culpo o desleixo na obrigatoriedade que tive de ler os grandes autores no liceu que me deixou traumatizado. Mesmo quando anos mais tarde os redescubro, sinto sempre aquele peso do ler por imposição e não por curiosidade e descoberta. Ridículo, eu sei, mas prefiro gastar dinheiro em livros do que em sessões de psicoterapia para resolver este trauma. Desafiado pela sessão sobre Ficção Científica no Livros a Oeste, decidi pegar neste clássico encantador e acutilante.

Sendo livro de um autor canónico, é daqueles que nem me atrevo a dissecar. Outros, mais conhecedores e melhores analista que eu, já o fizeram em inúmeros artigos e teses. Fico-me pelo salientar de aspectos que me surpreenderam e intrigaram.

O primeiro aspecto que me surpreendeu, e não deveria, é a força das palavras de Queirós. Sentimo-nos levados para o interior de uma narrativa que não perdeu a sua força. As descrições vívidas fazem sentir que estamos com os pés bem assentes a calcorrear a Lisboa do final do século XIX. O outro aspecto está na impiedade queirosiana. De todas as personagens talvez aquele que seja mais honesto seja o diabo de fraque. Pelo menos desse sabemos à partida o que esperar. Os restantes, apregoando de alto as suas boas intenções e morais incorruptíveis, são volúveis e facilmente corrompíveis. Teodoro, o escriturário que com o tilim tilim da campaínha irá matar o distante mandarim e herdar a sua vasta riqueza, com o seu quê de ingénuo, tem nos remorsos e tentativas de redenção do crime que cometeu para saciar as suas ambições de fama e riqueza um lampejo moral. Nada disso é aparente nos que o rodeiam, sequiosos pelo dinheiro e influência, prestáveis aduladores do estatuto conferido pela riqueza. Nisso, tal como muito do que Queirós escreveu, esta pequena fábula de fantástico mantém-se actual no retrato que faz de lados imutáveis que perpassam o espírito dos tempos.

O terceiro aspecto tem a ver com o lado fantasista, de literatura fantástica, desta obra. Temos polidos e elegantes demónios, uma acção impossível que se traduzirá em consequências inesperadas, e uma viagem orientalista que trai o fascínio dos finais do século XIX pela chinoiserie. Fábula moral, revê os pressupostos sociais sob a lente colorida do fantástico.

Sendo obra em domínio público podem encontrar versões digitais gratuitas e legais deste livro. Li a do Luso Livros, apesar de ter de a reconverter no Calibre porque a codificação original fixa o corpo da letra no tamanho mínimo e não permite ampliação. Nada que uma reconversão não resolva, mas fica o aviso para que for descarregar e ao tentar ler deparar com letra de corpo 1.

1 comentário:

Rui Bastos disse...

Eça foi de facto um dos nossos melhores escritores. E não tinha medo de se aventurar por obras deste género, só que não estavam na moda :p