quarta-feira, 22 de abril de 2015

Sustos às Sextas (IV)


Está quase a terminar estar interessante tertúlia que me tem levado mensalmente às wildlands do sprawl suburbano de Linda-a-Velha, ao espaço neo-medievo do Palácio dos Aciprestes. Para a sessão deste mês a organização reservou-nos pomeas de Baudelaire, canções de Charles Sangnoir e uma palestra de David Soares.

Da declamação poética não guardo memória. A voz é um instrumento e é preciso saber usá-la. Já Sangnoir foi uma excelente surpresa. A sua voz de um optimismo cristalino contrastava com a negrura das palavras cantadas ao piano, com o seu quê de burlesco decadente. Podem ver aqui uma das canções que Sangnoir partilhou conosco, O Bordel de Lúcifer, e ficar com uma pálida ideia da beleza tenebrosa da sua música. Pelo Spotify também deparei com o disco Os Anormaisa quatro mãos com David Soares que merece exploração.


Mas foi David Soares o dono desta noite de sustos. Pela feliz coincidência de calhar no seu aniversário, mas principalmente pela longa palestra que nos deu com o tema À Mercê da Medicina: Farmacologia Canibal na Europa e em Portugal na Prática e na Cultura. Os mais incautos esperariam uma conversa cheia de deliciosos pormenores escabrosos e titilância do nojo visceral, mas quem conhece um pouco da obra do autor sabe que Soares tem uma profunda e culta inteligência, que vai sempre muito mais além do mero deslumbre com o chocante e tenebroso. Ao longo de hora e meia falou-nos do canibalismo ao longo da história, com foco nas práticas ritualistas e fúnebres que ainda hoje persistem não só nos locais tradicionalmente esperados mas em modas, tendências e parafilias que se mantém como corrente no mundo contemporâneo. Falou-nos também das tradições medicinais pré e proto-científicas que recorriam ao corpo, aos seus fluídos e dejectos na crença de cura das maleitas. Interessante, sem dúvida, mas o cerne das questões que levantou não estavam nas histórias de canibalismo, nas curiosidades de outras épocas ou na morbidez do tema.

Soares fez sempre questão de nos levar a olhar para estas práticas que nos causam repulsa e horror sob a lente dos pressupostos contemporâneos dos tempos em que decorreram. Vi aqui a pairar um espectro do que Evgeni Morozov apelida de epocalismo, a ideia que a nossa época, aquela em que vivemos e nos molda o pensamento, é social, ética e tecnológicamente a mais avançada e que as que nos precederam são tempos bárbaros ou de atraso. Ao fazê-lo, esquecemos que os nossos antepassados pensaram, talvez, o mesmo. E esquecemos que estamos a cometer o erro de avaliar o normal de antanho pelos nossos padrões,  Que o que aos nossos olhos parece imoral, patético ou absurdo à luz da ciência e progresso social foi aceitável e norma noutros tempos. E esquecemos que o nosso pináculo contemporâneo de progresso será, no futuro, analisado com a mesma lente de enviesamento crítico com que nós analisamos o passado. Esta vontade expressa de não caracterizar o que nos repulsa sob a perspectiva do barbarismo selvagem transpareceu ao longo de toda a palestra.

O outro ponto que atravessou toda a apresentação foi a continuidade telúrica de mitos e pulsões que se mantém ao longo da história humana, a constância do espírito humano, cujo cerne ético e mítico parece manter-se inalterado ao longo de milénios, É uma ideia que também pervade a ficção de David Soares.

Foi um momento genial. E fica aqui uma nota de respeito: eu dou aulas de hora e meia e sei bem o que é manter a voz e a continuidade de pensamento sem interrepção. Durante todo este tempo um David Soares imparável agarrou-nos e fez-nos pensar. São poucos os oradores que conseguem isso. Julguem por vós próprios: um excerto da palestra foi publicado no YouTube.

Terminou mais um Sustos. Temo o próximo. Será o último. Mas talvez este interesse gerado leve a que se repita a iniciativa futuramente. Os fãs de literatura de FC e Fantástico por cá não tem muitos espaços e momentos de partilha. Entretanto, passem pelo Rascunhos, onde a Cristina Alves deixa as suas observações sobre esta edição do Sustos, ou pela página do evento onde partilham as fotos da sessão. Quanto às fotos, se me virem de relance gostaria de prometer que um dia iria aparecer composto e apresentável nestas sessões. Mas as sextas-feiras costumam ser o longo final de um longo dia que culmina longas semanas. As olheiras são indispensáveis.

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