quinta-feira, 23 de abril de 2015

Doctor Sleep


Stephen King (2014). Doctor Sleep. Nova Iorque: Scribner.

Fascina-me a forma como a prosa de Stephen King agarra o leitor. É um contador de histórias directo, que não perde tempo com elaborações literárias mas explora ao máximo detalhes para aumentar o tamanho dos seus livros. Não é sintético, é banal, pouco profundo e os horrores que invoca não são particularmente assustadores. E, no entanto, sempre senti isto: há na prosa dele algo que nos agarra, que nos obriga a ler, a virar a página, a lamentar quando as intromissões da vida nos obrigam a pousar o livro e interromper a leitura. É esta a genialidade de King, este talento nato para contar histórias que se sobrepõe a tudo o resto. Mesmo percebendo desde cedo que caminhos e desfechos tem, mesmo sendo os sustos esperados e o terror pouco visceral, lá estamos a virar compulsivamente a página, até ao fina inelutável do livro.

Doctor Sleep regressa ao mundo de The Shining, assumindo-se como uma sequela. Do livro, não do filme, e parte da piada desta leitura é descobrir as diferenças entre a memória cinematográfica do olhar de Kubrick e as reminiscências da acção do livro original. Danny Torrance já não é uma criança, e chega a uma cidadezinha do Maine como alcoólico em recuperação, cuja nova vida lhe dá uma redenção dos erros do passado que o atormentam. Nela cruza-se com uma criança, depois adolescente, que revela um poder psíquico fortíssimo. Tornar-se-á o seu mentor nas coisas das visões e dos poderes, e também o seu salvador. King lembra-se que criar um grupo de predadores, uma espécie de vampiros especializados em sugar a energia anímica de crianças com dotes especiais e assim asseguram uma espécie de imortalidade.

Pela descrição já perceberam por onde vai a história. Danny sofre, Danny redime-se, a criança cresce aprendendo a controlar os seus poderes, os vampiros anímicos irão dar-lhe caça para repor o seu stock de energia que se encontra em baixo, depois de alguns confrontos chocantes os bons triunfarão sobre o mal e os seus medos pessoais. Sente-se, quase, que o enredo de aventura negra é quase um adereço que oculta a verdadeira história que King quer contar. O foco real do romance está no alcoolismo da personagem, e no longo e duro caminho da recuperação. O resto lá se vai tentando enquadrar num regresso a The Shining com continuidade noutras vertentes, mas dilui-se perante o eterno regresso ao alcoolismo, à redenção e aos grupos de apoio que ajudam à recuperação.

Mas lá está, King é mestre daquela prosa simples, dos pormenores banais, das pessoas simples que fazem a sua vida, que encanta e agarra. Talvez no futuro King seja lido não como autor de terror mas como romancista das gentes e costumes do Maine no final do século XX.

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