quinta-feira, 2 de abril de 2015

Beterraba: A Vida Numa Colher


Miguel Rocha (2015). Beterraba: A Vida Numa Colher. Oeiras: Levoir.

O que mais atrai na obra de Miguel Rocha é o seu estilismo, numa poderosa incografia de contrastes onde a violência da cor se sobrepõe às formas. Sente-se o olhar o real numa constante super-exposição lumínica. Sendo o Alentejo o local onde se desenrola esta singula história, é impossível não fugir ao lugar-comum de interpretar a predominância de vermelhos opressivos como uma metáfora visual do calor estival e da dureza da vida campestre. Mas podemos ir mais longe e rever nas vinhetas tão pictóricas de Miguel Rocha o expressionismo de Franz Marc e o modernismo de Dordio Gomes. Aliás, enquanto lia este livro não consegui deixar de pensar na forma como este pintor retratou o Portugal rural da primeira metade do século XX.

É a uma era a que Miguel Rocha também nos leva, com uma história que mistura a dureza real da lavoura à magia do isolamento solipsista. A história do herdeiro enjeitado que regressa à aldeia para reclamar como herança uns tristes baldios que denodadamente irá transformar num plantio de beterraba cruza-se com uma narrativa de obsessões psicóticas de um homem que apenas deseja ter um filho mas lega ao mundo um bando de raparigas quase selvagens. História intrigante, a colidir entre o neo-realismo da tradição literária portuguesa com o fantástico do realismo mágico, mas que nos desperta mais a atenção pela força pictórica das imagens.

Parte da colecção Novelas Gráficas da Levoir, é a única obra de autor português incluída numa lista de elevada qualidade. A primeira edição, de 2000, é da Polvo.

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