quarta-feira, 1 de abril de 2015

Nemo: River of Ghosts


Alan Moore, Kevin O'Neill (2015). Nemo: River of Ghosts. Marietta: Top Shelf.

Agora é esperar por Jess Nevins e o seu batalhão de caçadores de referências para deslindar a teia de personagens pulp literários e cinematográficos que Moore e O'Neill urdem neste novo episódio dedicado à filha do Capitão Nemo. Agora à beira da morte e senhora de uma ilha libertária dedicada ao progresso, porto de abrigo de inadaptados e almas livres, parte numa última aventura para eliminar a aparente renascida Ayesha, eterna arqui-inimiga. Rumores do seu reaparecimento leva-na a desempoeirar o submarino Nautilus e dar-lhe caça numa perseguição que sobe até ao alto amazonas, atravessando a lagoa que alberga as estranhas criaturas da lagoa negra e culminando num templo perdido onde resistentes do regime nazi de Hynkel se uniram ao Dr. Goldfoot, celerado criador de andróides que os ajuda a construir um exército de belas e mortíferas robots de bikini.

Há por aqui tanta coisa que nem se sabe por onde começar. A referência a Heart of Darkness é óbvia, bem como a todo o historial da série. Mas há aqui mais coisas. A filmografia de Lang, recordando Mabuse e Metropolis, os filmes B de Vincent Price (com a referência directa a Dr. Goldfoot And His Bikini Machines), o lendário The Creature From The Black Lagoon, a clonagem de arianos puros no meio da selva de Boys from Brazil, e de certeza muitos outros que me escapam. Também óbvia é a referência às revistas pulp masculinas, cheias de histórias de heroísmo sensual felizmente esquecidas mas cujas capas icónicas, cheias de musculados heróis a enfrentar dominadoras nazis ou voluptuosas virgens de vestes rasgadas à mercê de selvagens ficaram na memória colectiva. Também se detectam laivos de Ian Fleming, com referências aos inimigos de Bond, e um toque muito discreto do obscuro Lord Horror, o intragável personagem literário do punk xenófobo de extrema direita.

Estas incursões de Moore nos territórios ficcionais do mundo da Liga dos Cavalheiros Extraordinários não são tão ambiciosas como a narrativa central, mas recuperam muito bem o espírito da série, o gosto da ficção escapista e revê personagens dos vastos universos ficcionais do cinema e literatura populares do século XX.

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