terça-feira, 17 de março de 2015

Rewind and Come Again.


Confesso que dos Batida prefiro o programa de rádio à sua música. A sua fascinante sonoridade  tropicalista mistura ritmos kuduro, afro-beat, reggae, electrónica e mais umas quantas coisas que me escapam por completo mas soam muito bem dentro do ecletismo musical. Mas não é o tipo de som que me enche as veias de electricidade. Na rádio são espantosos, misturando sonoridades tradicionais, clássicas, retro e contemporâneas dessa grande cultura afro-brasileira que nos está também no ADN, por via do nosso pouco falado e tantas vezes branqueado passado colonial. Foi na rádio que os descobri, algures entre as estradas nacionais, com ritmos africanos dos anos 60 a travarem o meu saltitar impulsivo entre estações de rádio.


Sabendo-os em cartaz no Centro Cultural das Caldas da Raínha não resisti a ir vê-los ao vivo. Fui sem saber o que iria dali sair, armado apenas com o conhecimento de algumas canções dos álbuns Dois e Batida, algumas em rotação pelas rádios nacionais. Músicas ritmadas e agradáveis, que intrigam o meu ouvido mais habituado a rock, blues, clássica e contemporânea. Deve ser por isso que Batida me atrai. Quem sente o coração aquecido por Xenakis ou Varèse tem de estar aberto a sonoridades fora do comum. Do atrair ao sentir vai uma longa distância, e percebi neste concerto que esta música só faz sentido ao vivo.

Começa pela disposição do palco. Ao entrar percebi que iámos ver o concerto em cima do palco, rodeando os músicos. Pedro Coquenão, o génio musical por detrás dos Batida, explicou-nos logo que queria mesmo assim, como se estivessemos numa roda no largo da aldeia. Recordou-nos que a música é uma experiência partilhada, profundamente social, ao derrubar a barreira que a convencionalidade logistica ergueu entre músicos e audiência. O resto foi uma explosão imparável de ritmo e sonoridade. Impossível de ficar quieto e não seguir a batida. Não se deu pelo tempo passar enquanto Coquenão, os seus músicos, vj e dançarinos nos atiravam à papo-seco para os trópicos contemporâneos, entre rap/reggae/kuduro, video, e discos antigos com beats fascinantes. Nunca me imaginei a dançar ao som de Bonga. Yep, aconteceu. O concerto terminou em festa apoteótica, com os Batida a demonstrar que a música sente-se no momento com uma versão de Alegria que... enfim, ninguém ficou indiferente aos ritmos hipnóticos e visuais psicadélicos. A partilha e interacção com o público foram um dos eixos do espectáculo, onde as barreiras não existiam. Saí de lá rendido. Continua a não ser o meu som de eleição, mas de facto sentir isto ao vivo é uma experiência extraordinária e a repetir. Podem ter uma pequena ideia do que foi este concerto vendo o vídeo de um recente boiler room em Lisboa: Batida Boiler Room. Vejam, e imaginem este concerto com o público imparável a dançar à volta dos músicos, com Coquenão mais intimista a falar-nos do projecto nas suas mais variadas vertentes.

É o momento e o contexto. Goste-se ou não destas sonoridades, desta forma é impossível resistir-lhes. Tão bom, que quando se aproximava o final Coquenão defeniu com precisão o que sentíamos: quando a música é boa e está a terminar, rewind and come again.

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