quinta-feira, 5 de março de 2015

La Femme Limace



Junji Ito (1998). La Femme Limace. Paris: Éditions Tonkam.

Uma mulher transforma-se lentamente em lesma. Um monstro leviatânico das profundezas dá à praia, morto, e rodeado por pessoas que sentiram uma estranha compulsão em ir ver a criatura apodrecer. Nas suas entranhas putrefactas encontram-se ainda vivos os passageiros desaparecidos num naufrágio ocorrido anos antes, aglomerados no estômago e intestinos da criatura como peixes a estrebuchar numa rede. Um jovem regressa a Tokyo, à casa que alugou a um professor que detestava, para a descobrir coberta de fungos impossíveis de eliminar, que contaminaram e devoraram os seus inquilinos, acabando coberto de fungos no seu jardim transformado num paraíso fúngico. Um ídolo misterioso de jade mata quem nele tocar, transformando o seu corpo numa rede de buracos. Inspirado num sonho, um homem decide cavar um buraco no chão da casa para encontrar uma fonte de água quente que talvez seja uma porta para os infernos. Uma dona de casa obcecada pela limpeza vê, com horror, a presença de terceiros, matando o marido e levando a que um admirador das suas filhas se oculte dentro dos esgotos. Uma jovem secretária disposta a tudo para impressionar o seu patrão vê-se dentro de uma casa de horrores, rodeada por vampiras que tocam violino enquanto sorriem ao sentir jactos de sangue quente na pele e caçada pelo patrão num viveiro de insectos para alimentação exótica.

Junji Ito é um mestre do horror japonês. Nesta colectânea de histórias pega nos pequenos horrores que nos arrepiam a pele. As lesmas, os fungos, buracos estranhos na pele, a sujidade, os fluídos. Com eles cria pequenos contos de horror visceral que, dentro daquilo que tanto me atrai no horror japonês, não dependem da lógica ou procuram um desfecho que faça sentido. São horrores que arrepiam, existem, como mitos ou espíritos milenares. O traço preciso de Ito consegue ser perverso nos momentos mais marcantes, sublinhando o terror inexplicável das histórias.

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