sexta-feira, 6 de março de 2015

Um Contrato Com Deus


Will Eisner (2015). Um Contrato Com Deus. Oeiras: Levoir.

Um homem pio e virtuoso, de luto pela morte da filha adoptiva, rasga o contrato que firmara com o seu deus e dedica-se a prosperar. Mas a venalidade não o satisfaz e regressa aos caminhos do virtuosismo, para falecer fulminado por um ataque cardíaco quando decide renovar o seu contrato com a divindade. Uma diva perdida, afastada de fenecidas luzes da ribalta, encontra na voz de um cantor de rua uma possibilidade de regressar aos palcos. Oferece-lhe comida, promessas e o seu corpo, que o homem esfomeado aceita de bom grado. Este, ao regressar à casa e à família impossível de sustentar no meio dos tempos duros da depressão, começa a sonhar com um futuro melhor, mas a mente toldada pelo alcool recusa-se a deixá-lo recordar a morada da mulher que lhe prometera um melhor futuro. Um solitário e amargo zelador de um prédio tem no seu cão o único companheiro que lhe alivia uma vida feita de imensas queixas dos inquilinos irritados. Cruza-se com a perversa sobrinha de uma inquilina, que se aproveita da sua solidão para se insinuar, roubando-lhe o dinheiro, assassinando-lhe o companheiro e deixando-o sem outra escolha senão suicidar-se, suspeito de a tentar violar. Quando o verão chega à cidade chega também a época das fugas e dos sonhos, em que as famílias saem da cidade para apanhar os ares do campo. As jovens casadoiras procuram os melhores partidos, os chico-espertos buscam a melhor mulher para encantar e dar o golpe que lhes permite fugir ao destino de meros empregados de negócios sem futuro, os casais desavindos aprofundam as suas tragédias, ocultas pela necessidade de criar os filhos. E um jovem rapaz descobre nos braços de uma mulher mais velha as delícias e as incongruências da sexualidade. O livro termina com este jovem, agora a sentir-se mais homem, contemplando a chuva outonal que cai sobre a cidade. A mesma chuva imponente com que o livro abre, no início das desventuras do homem que ao perder a fé lança como palco o edifício que será sempre a peça centrar destas histórias.

Um prazer, graças à Levoir, de regressar à Nova Yorque de Will Eisner nesta que foi a primeira das graphic novels com que encerrou uma carreira dedicada aos comics que nos legou não só personagens clássicas como uma nova forma cinematográfica de entender o espaço visual da banda desenhada. Tal como Woody Allen no cinema e Isaac Bashevis Singer na literatura, Eisner inspira-se nas idiosincrasias multiculturais da comunidade judaica nova-iorquina para contar histórias onde o apontamento nostálgico toca na tragédia e no humor. Mas mais dos que as aventuras e desventuras de personagens com forte toque auto-biográfico o que ressalta é a mestria do seu traço, liberto dos ditames do comic de mercado, liberto também dos espartilhos da vinheta, oscilando entre o bloco de apontamentos e o registo mais formal.

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