terça-feira, 20 de janeiro de 2015

The Three-Body Problem


Cixin Liu (2014). The Three-Body Problem. Nova Iorque: TOR.

Isto para nós é novidade, mas para o público chinês Cixin Liu é um dos seus mais consagrados autores de ficção científica. A FC chinesa tem vindo a ganhar públicos no ocidente graças ao esforço de um punhado de tradutores e este livro, primeiro romance de FC chinesa publicado no mercado global, espanta pela sua qualidade. É uma daquelas raras obras que obriga leitores veteranos e endurecidos a não parar de virar a página.

No seu cerne Three-Body Problem é um romance de FC hard, na clássica e por cá já ultrapassada tradição campbelliana de conceito científico à volta do qual todo o enredo se desenrola. Esse é um dos aspectos que nos cativa. Na FC contemporânea esse espírito campelliano é quase anátema, lido como um recuo nostálgico ao passado. O ser assumido, neste livro, e sublinhado no posfácio do autor, torna-o intrigante e percebe-se que há uma dimensão interventiva na FC chinesa que nos meios ocidentais se perdeu.

No livro, a ideia-base é a do contacto entre civilizações extra-terrestres. Terreno muito batido na FC, mas Liu consegue dar-lhe um novo interesse. A descoberta da existência de civilizações extraterrestres ficará intimamente ligada a traumas decorrentes da violência da revolução cultural chinesa. Os alienígenas não têm as melhores intenções. Habitantes de um planeta cujo sistema solar alberga três sóis, estão sujeitos a ciclos aleatórios de destruição planetária. Os organismos evoluíram para ser capazes de sobreviver nos períodos de gelo profundo ou cataclismos solares, mas com o progresso civilizacional percebem que a solução para a sua sobrevivência se encontra no espaço. Quando encontram a Terra graças a uma experiência de radioastronomia chinesa, depressa traçam um plano inteligente de invasão. Sabendo que as distâncias relativísticas são implacáveis, temem que quando finalmente as suas naves chegarem à órbita os terrestres, de sobreaviso, tenham feito evoluir a sua tecnologia a níveis comparáveis ou superiores aos seus. Para evitar isto, atacam em duas frentes. Numa, socorrem-se de humanos sugestionáveis cujos traumas os levam a querer aniquilar a civilização humana. Entre ambientalistas desgostosos com a destruição de ecossistemas e cientistas amargurados pelo destino dos pais e os seus próprios problemas políticos às mãos dos guardas vermelhos nos tempos da revolução cultural o terreno é fértil.

A outra frente é um voo especulativo particularmente brilhante. A ciência extra-terrestre não é muito mais avançada do que a nossa, mas são já capazes de manipular as partículas elementares. Com isso, desdobram neutrões em n-dimensões, criando inteligências artificiais quase singularitárias com emparelhamento quântico. Enviadas à Terra, estas distorcem os resultados da pesquisa física fundamental, desconcertando e levando à loucura os físicos que, de repente, descobrem uma aleatoridade inesperada nas mais elementares leis da natureza.

Nenhuma conspiração fica por muito tempo oculta, e uma coligação internacional já está em campo para combater os alienígenas. O desespero é grande quando se apercebem que a ameaça vai de encontro ao cerne do desenvolvimento científico, mas quando se tem séculos para preparar a defesa muito ainda pode acontecer. E irá, certamente. Este é o primeiro volume de uma trilogia que termina com a curiosidade no máximo.

O toque old school do estilo de ficção científica de Cixin Liu dentro da hard SF dá a esta obra inesperada um gosto especial. Sabemos da vitalidade da FC numa China cujas instituições apoiam abertamente o género precisamente sob o ponto de vista de concepções de futuro. No gigante asiático, saído de um conturbado século XX a afirmar-se como potência global também na ciência e tecnologia, parecem sentir aquela necessidade de interpretar o presente à luz de futuros prováveis que caracterizou a FC euro-americana no seu passado recente. Ajuda o ser um texto magnífico, cheio de ideias, infodumps que fazem voar o imaginário e peripécias suficientes para manter o interesse na leitura. Este livro não passará despercebido, quer pela significância da afirmação da FC não anglo-americana no espaço de ideias global, quer, simplesmente, por ser uma leitura fantástica. Recupera aquele espírito optimista da Astounding na era de ouro da FC.

3 comentários:

Rui Bastos disse...

Já tinha ouvido falar deste livro, e estava imensamente curioso. Ainda mais fiquei depois desta opinião! Mas tenho uma pergunta: como é que são os aliens? Ou melhor, nota-se que foram criados por um chinês?

(acho que percebes a minha pergunta!)

artur coelho disse...

têm uma fisiologia diferente, podem desidratar-se para sobreviver aos períodos de devastação causados pela aleatoridade dos três sóis. mas acho que não é isto que queres saber... a minha resposta, do pouco que sei sobre a china, é sim. são alienígenas conscientes de não serem superiores à civilização que querem invadir, daí os subterfúgios que usam para prejudicar a investigação científica terrestre (isto é um major spoiler...). são implacáveis no manter uma linha de desenvolvimento contínua ao longo de ciclos destrutivos. um pouco como a própria china, cujo carácter e cultura são milenares apesar das várias fases históricas. e estão todos unidos num objectivo comum, sacrificando o indivíduo a favor do colectivo. óbvia herança do colectivismo da china vermelha.

Rui Bastos disse...

Ups, não tinha deixado isto a notificar-me de novos comentários!

Isso é muito interessante, especialmente porque a minha curiosidade com a China tem aumentado de forma praticamente exponencial (até já aprendi algum Chinês, e hei-de aprender mais).

Fiquei definitivamente curioso com este livro, e ouvi dizer que anda aí uma adaptação para cinema a se feita, não sei se isso é bom ou mau!