terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Contos do Androthélys


António de Macedo (1993). Contos do Androthélys. Lisboa: Caminho.

O equilíbrio mágico entre os ditames do coração e os do intelecto é frágil, bem sabe o endiabrado Androthélys, criatura angelical das esferas superiores que começa a desesperar com a orientação de Vallatius, aprendiz de magia superior que já vai na sexta encarnação sem conseguir aceder às esferas etéreras. A causa é a sua paixão culposa por uma Sílfide que está disposta a perder a sua imaterialidade por amor. As pulsões carnais atrapalham a ascensão, ou talvez não. A corrente encarnação de Vallatius está num humilde guarda-livros lisboeta, cuja vida cinzenta e apagada é irremediavelmente transformada por um estranho encontro nocturno com um árabe livreiro que por preço simbólico lhe dá os mais raros livros de esoterismo, e com isso despoleta uma aventura em que os sábios etéreos, mestres de Vallatius, se descobrem ameaçados por uma terrível força sobrenatural. E no final o que salvará os sábios e os outros é o amor entre o aprendiz e a sílfide. Mas talvez o Androthélys sempre tenha sabido isso, mantendo distâncias e provocando sobressaltos para testar a força do amor.

Em tom de parábola inspirada na literatura mágica, este livro é um mergulho na poesia esotérica de António de Macedo. É sempre interessante ler a forma como o romancista e realizador de cinema, homem dedicado ao Fantástico nas artes, sublima a tradição de conhecimento esotérico através de histórias cheias de poesia onírica, com o seu inimitável bom humor.

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