terça-feira, 4 de novembro de 2014

Ficções

The Empties: É curioso ver a circunspecta New Yorker a publicar regularmente ficção científica. Sim, leram bem. Publicar Ficção Científica (e, fazendo a vontade ao Damien Walter, transrealismo). Volta não volta, mas com mais regularidade do que o esperado, saem peças de ficção que se enquadram perfeitamente no género. Não são dos nomes habituais nestas coisas, mas surpreendem. The Empties, de Jess Row, pega no clássico cenário pós-apocalíptico para nos mostrar até que ponto a normalidade tal como a entendemos depende de uma intricada rede económica assente na tecnologia. Mergulhamos numa zona rural, isolada do mundo após um acontecimento nunca explicado. Tudo o que nos é dado a saber é que um dia a energia eléctrica foi-se, e a partir daí o resto foi sendo abandonado. As comunidades isolaram-se, as pessoas ficaram encalhadas sem se poderem deslocar, e tudo o que tomamos como adquirido esfumou-se. Internet, vida digital, medicação, até o simples tomar um café e saborear um cigarro se tornaram uma memória do passado. Sem energia os motores do mundo pararam e os sobreviventes foram obrigados a reaprender as capacidades mais elementares. Termina com uma nota de esperança, com uma coluna armada do exército a pacificar as zonas isoladas e a reconectar a electricidade. Mas a mensagem fica. As nossas vidas, as rotinas diárias, os pequenos gestos em que não pensamos, estão dependentes de uma rede complexa de interligações cujo falhar é inconcebível, excepto no campo das distopias apocalípticas.

The Universe Flickers: Como parte da promoção de lançamento da tradução ocidental da obra de Cixin Liu a TOR tem publicado excertos do livro The Three Body Problem. Começou com King Wen of Zhou and the Long Night e juntou mais dois que podendo funcionar como contos compreendem-se melhor no contexto do livro, uma obra sobre o impacto de contactos com civilizações extra-terrestres. Neste The Universe Flickers o poder dos alienígenas é evidenciado pela forma como conseguem manipular constantes físicas como a radiação cósmica de fundo em microondas, significando que conseguem manipular o tecido do universo. Como o livro parece mexer com invasões, suspeito que o nível de interesse aumente. Quanto à ficção em si, faz sorrir por ser algo que para nós era típico na golden age: literatura clara, com forte pendor científico. Tem o seu quê de Arthur C. Clarke na forma como os seus personagens são óbvios peões para suportar a evolução narrativa.

Silent Spring: O terceiro excerto de Three Body Problem tem um arranque incómodo, recordando as injustiças cometidas em nome da pureza ideológica durante a revolução cultural chinesa. Uma experiência que marcará a protagonista do conto, filha de um físico torturado na praça pública por guardas vermelhos que o acusavam de ser reaccionário por ensinar a teoria da relatividade. Astrofísica, é reduzida ao trabalho manual em campos de reeducação na Mongólia, mas é cooptada por cientistas militares para trabalhar num projecto secreto: uma arma que, inadvertidamente, se tornará um farol que atrairá a atenção de olhos alienígenas para o planeta. Para lá da sua ligação à FC intriga pela forma como se atreve a retratar os desmandos da revolução cultural chinesa, olhando para o sacrifício da verdade científica no altar de uma pureza ideológica que foi, como hoje sabemos, o catalisador para um intenso jogo de poder no regime maoista.

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