terça-feira, 19 de agosto de 2014

Letargia Estival


O sentimento de férias implica uma fuga, não o doce nada fazer alapado numa praia ao sol ou o passeio por locais com algum sabor idílico. Procurar novas geografias visuais. Rumar à estrada, com um mapa como guia impertinente e um gosto por procurar as tabuletas inverosímeis nos cruzamentos. É ócio puro, gosto por descobrir o que está para lá das curvas da estrada, condensar em memórias e experiências os traços, nomes e cores fixados nos mapas.

Este ano tinha planeado abrigar-me do sol sob as muralhas de Ávila, calcorrear os livreiros madrilenos em busca de pérolas bibliográficas para as minhas estantes, e descobrir El Greco nas calles sombrias de Toledo. A coisa não correu como planeado, graças a um pequeno acidente com a minha mãe que a imobilizou, obrigou a cirurgia e a colocou dependente da minha presença constante. Vi afastar-se a cada dia, com mais amargura, a possibilidade de uma viagem tão necessária à higiene neuronal. Mas consolei-me noutras possibilidades. Afinal de contas, os longos minutos nas salas de espera dos hospitais e os dias e noites sem a obrigatoriedade de conduzir mais umas dezenas de quilómetros fazem maravilhas pelo tempo disponível para pôr leituras em dia. E tantas que elas são, com bibliófagos do meu calibre.

Ler tem o seu quê de viajar. Viajar não em busca de queimaduras solares ou gastronomias saborosas, mas viajar para conhecer, ampliar o leque do que se sabe, alimentar a imaginação. Se a geografia física neste verão é por necessidade estática, já a geografia literária tem-me levado aos mais inesperados recantos do mundo. Instalei-me em Londres, numa casa de decoração decadente no número 7 de Craven Road, e pela mão de Dylan Dog fui descobrindo os mistérios que se ocultam nas névoas, as criaturas que se esgueiram pelos becos sombrios e os sonhos inquietos. Delirei com o surrealismo cósmico e psicadélico de uma Cartago situada numa distante galáxia onde Salammbô, a sacerdotisa, mesmeriza o espírito dos aventureiros. Cortázar deu-me um vislumbre da simplicidade do estranho que encerram as vidas que circulam por Buenos Aires. Fui recebido por inteligências artificiais no distante império Radchai. Visitei pequenos mundos de sonhos fantasistas passados à palavra por jovens e promissores escritores portugueses. Tive um vislumbre do que se passou na alma daquele que é um dos escritores que mais admiro, e admiro-o sem saber muito bem porquê, mas parece que todos os que o admiram se queixam do mesmo. Olhei para os desafios sociais e tecnológicos de um futuro provável, mesmo ao virar da esquina. Visitei uma União Soviética no limiar do concretizar da utopia socialista ou do resvalar para a decadência ideológica.

A letargia estival ameaça chegar ao fim, mas suspeito que ainda terei tempo de visitar a Polónia incongruente de Stefan Grabinski, perder a noção cronológica com fluxos temporais que se recusam ao espartilho da linearidade, buscar alguns vislumbres de Khalôm, a antiga, a iluminada. Talvez ainda passe pela Lublin de Singer, deguste um champanhe na gravidade lunar, perceba porque é que as nuvens púrpura são mortíferas,  ou viaje com Flash até ao clássico planeta Mongo. Mas não prometo nada. As leituras são como os cruzamentos na estrada. Planeamos um itinerário mas a cada cruzamento poderá surgir outro destino que nos tenta com a promessa de inusitadas descobertas.

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