terça-feira, 19 de agosto de 2014

Aventuras de uma Criminóloga



Giancarlo Berardi et al (2013). J. Kendall: Aventuras de uma Criminóloga #106. São Paulo: Mythos.

Apesar de saber que este título da Bonelli era distribuído por cá nunca me tinha calhado encontrá-lo in the wild. O título é uma boa adição de referência para a minha colecção, mas a confirmar aquilo que já tinha percebido da personagem em leituras anteriores. Tem um ritmo narrativo entediante e não foge aos limites do policial procedimental com um toque leve de romance ao estilo harlequin. Suponho que os fãs adorem esta mistela, mas a mim passa-me ao lado. Daí a leitura para referência.

O fumetti intriga-me pela mistura de continuidade das personagens em episódios regulares não interligados de tamanho grande. Cada edição mensal oscila entre as 80 e 130 páginas, variando de acordo com o personagem. Neste aspecto parece-me mais próximo do manga do que da BD franco-belga, onde cada álbum oscila entre 60 a 80 páginas, e nem se compara aos comics, onde paginações destas são reservadas para graphic novels especiais ou edições coligidas em trade paperback. Uma média de cem páginas por personagem por mês adiciona-se num corpo de trabalho impressionante. O problema está em encher as páginas, e é aí que o modelo fraqueja. As narrativas concisas são deitadas às urtigas e as situações são esticadas ao limite. O que resulta é algo com uma estrutura repetitiva mais próxima das telenovelas do que de bd. Desde que mergulhei nos fumettis que me apercebi disso, ao ler tantas aventuras que beneficiariam em ser mais focalizadas, cujas premissas de grande interesse se diluem no arrastar narrativo. Recordo-me de dois exemplos típicos: Caravan, sobre uma cidade evacuada sem explicações por militares cujos habitantes se vão deslocando em caravana automóvel por estradas no deserto, ou o pós-apocalíptico Brendon, excelentes premissas que são transformadas em verdadeiros festivais de bocejo. É curioso que não sendo excepcionais são séries de sucesso, com publicação regular mensal e vendas que que eu saiba não estão a levar a editora à falência. Deve ser aquele algo incompreensível que os carácteres nacionais têm, com sotaque italiano.

Este carácter do fumetti leva-me a admirar ainda mais o trabalho de argumentistas como Tiziano Sclavi, de Dylan Dog, e Luca Enoch, que acumula com ilustrador da soberba série Lilith e da fantasia young adult de Gea. Estes conseguiram utilizar um formato tão próprio para criar belíssimas narrativas gráficas, mantendo o interesse e conjugando muito bem as linguagens narrativa e visual. Este tipo de trabalho é algo de fundamental na melhor BD. Se isto não acontecer quanto muito temos textos ilustrados com desenhos alusivos. E há tantas BDs assim por aí publicadas...

Esta edição regular da Mythos está a publicar as aventuras da criminólogia Julia Kendall, aventuras policiais procedimentais que a inteligente, brilhante e solitária detective acaba por deslindar com ajuda de um fiel painel de detectives secundários. Nesta edição estão contidas duas aventuras. Em Férias Forçadas uma quadrilha de ladrões que sai da prisão para assaltar repetidamente o mesmo edifício obriga a personagem a interromper as férias para desvendar o mistério, e em A Tormenta um condenado perde a compostura e aproveita uma tempestada de neve para fazer reféns os polícias na central, entre as quais se encontra uma heroína a arrastar um momento romântico com outro detective. Suponho que quem goste de policiais com romantismo à mistura possa adorar estas aventuras.

Não deixo de fazer alguns reparos interessantes sobre o que li da série. Os ilustradores sabem homenagear referências visuais ao género policial nas vinhetas. Numa das histórias há uma referência visual fabulosa a Orson Welles. Julia e Dylan Dog têm em comum um personagem secundário muito próximo de comportamentos irritantes. Dylan tem o fiel Groucho, clone assumido de Groucho Marx com piadas secas a condizer, e Julia tem Emily, personagem decalcada de Whoopy Goldberg, uma mulher a dias maternal e mandona com propensão para calinadas linguísticas. Como é que alguém decalca um personagem numa actriz tão irritante quanto esta e sobrevive para contar histórias é algo que me ultrapassa.

E confesso que houve um pormenor nestas Aventuras de uma Criminosa que me cativou. A elegância da personagem tem o seu quê de homenagem a Audrey Hepburn. O aspecto visual de Julia é em tudo similar à actriz de Breakfast at Tiffany's, e a elementos destes reage-se com um sorriso.

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