segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Antígona Gelada


Armando Rosa (2008). Antígona Gelada. Évora: CENDREV/Fluir Perene.

É raro encontrar teatro directamente inspirado na ficção científica, embora os géneros não sejam incompatíveis. Recorde-se, como exemplo mais óbvio, que R.U.R.  de Capek foi originalmente um texto teatral. É ainda mais raro, e inesperado, encontrar um exemplo português de teatro que vai beber directamente a um género mal visto no meio cultural português. É esse o caso de Antígona Gelada escrito por Armando Rosa e estreada pelo Cendrev em 2008. A peça cruzou-me o radar através de uma representação levada a cabo pela turma de mestrado de Artes Performativas da ESTC, encenação muito interessante que mostrou como o corpo e a austeridade de adereços combinada com uma boa selecção de texto é o suficiente para

O título não engana ninguém. Antígona remete para a antiguidade clássica, para esse poderoso substrato cultural herdado da Grécia antiga que ainda hoje ressoa, poderoso, no nosso ser. Armando Rosa mantém a estrutura trágica da peça de Sófocles, recriando-a com um olhar catalisado pela modernidade tecnológica e científica. Tebas é agora uma estação espacial, dominada pelo ditador Creonte que sabe dar uso à propaganda mediátia e aos meios digitais de controle. As esfinges são mutações genéticas induzidas por cientistas militares para criar soldados temíveis e monstruosos, e há algo de esfinge em Antígona, capitã das forças militares cuja herança familiar maldita está inscrita nos genes. Convulsões políticas, fluidez de géneros, clonagem e bio-engenharia, dominância mediatizada e uma sociedade dividida entre as antigas pulsões e a hipermodernidade são alguns dos temas para onde Rosa faz evoluir o clássico de Sófocles.

Para além de Sófocles, a quem Rosa vai buscar a base da peça, há uma influência muito declarada do transrealismo de P.K. Dick, misto de paranóia com futurismo tecnológico. Os impactos e questões levantadas pela tecnologia contemporânea estão também presentes no texto, que toma a clonagem e a fluidez de géneros sexuais possibilitada pelos avanços na medicina como algo de banal mas ainda a inquietar indivíduos. E termina com outra vénia a um dos mais elegantes recursos narrativos da FC, a metaficção, com Creonte a sublinhar o véu difuso entre realidade e ficção, colocando os personagens numa linha de continuidade que, provavelmente, tem raízes míticas que antecedem a antiguidade e se perdem na noite dos tempos: "Laboram todos no mesmo erro. Mas vou ser piedoso convosco. Abro-vos os olhos para contemplarem o vazio. De facto, nenhum de vós existe. Não somos mais que o passatempo virtual de um engenheiro cibernético, em noites de insónia. Nunca se perguntaram pela razão dos nossos nomes e dos nossos enredos? Somos todos imitações baratas de outra gente antes de nós. Já houve outros Tirésias e outras Antígonas, outras Ismenas e outros Creontes, a viverem farsas e tragédias parecidas com as nossas, noutros cenários e roupagens. A nossa vida não é original. É uma cópia tardia. Fazemos parte de um jogo programado. Antígona morre sempre no fim. Eu preciso que me odeiem para ser Creonte. Tirésias é um sábio indeciso, que muda de sexo como quem muda de peúgas. Hémon e Ismena, lamento dizê-lo, são figuras secundárias. Alguém inventa a nossa vida online e diverte-se a jogar à bola com os nossos neurónios. Gostamos de jogos virtuais e desconhecemos que somos o jogo de outros que nos manipulam. Vocês são uns parolos. Levam a sério a ficção que interpretam."

Intrigante, o texto destaca-se pelo insólito de ser peça teatral de FC portuguesa, revendo um clássico com muita inspiração nas fímbrias mais provocantes do género. Pode ser lido em PDF no site da Fluir Perene: Antígona Gelada.

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