sexta-feira, 11 de julho de 2014

Russian Hide and Seek


Kingsley Amis (1981). Russian Hide and Seek: A Melodrama. Nova Iorque: Penguin.

Kingsley Amis não ocultava o seu gosto especial pela ficção científica e teve a coragem de escrever romances dentro do género. Ao contrário do habitual nos esforços de género dos escritores mainstream, são livros bem concebidos que fazem uso brilhante das premissas da ficção científica. Um deles, The Alteration, é uma pérola esquecida da história alternativa. Este Russian Hide and Seek insere-se naquela vertente tão característica do século XX, a do futuro pós-apocalipse nuclear, com uma fortíssima ironia sobre o tão inglês sistema de castas aristocráticas.

Amis é deliberadamente difuso nos pormenores do futuro que imagina. Sabemos que estamos numa inglaterra futura, ocupada por forças soviéticas que se comportam de modo muito similar ao estereotipo do aristocrata britânico. Quem se recorda da história do século XX depressa criar uma imagem mental das possibilidades que levariam a este estado de coisas, que Amis reforça com momentos pontuais em que nos informa que houve uma guerra que teria durado três dias (e o leitor de boa memória imagina a troca de mísseis intercontinentais que reduziriam as cidades a cinzas), se bem que há indícios de que afinal a resistência teria sido mais prolongada. Os russos comportam-se como sahibs enquanto os nativos britânicos são vistos como coolies peculiares. A comparação entre uma inglaterra subjugada e o Raj indiano é uma das vertentes de ironia desta obra. Décadas após as guerras impera a memória oficial da propaganda, o declínio tecnológico é acentuado e a cultura local foi suprimida pelos ocupantes. Da velha inglaterra restam as ruínas e as memóras difusas dos poucos envelhecidos sobreviventes à guerra do passado.

O livro desenrola-se como um romance clássico russo. Centra-se em Alexander Petrovisky, personagem icónico, um jovem aristocrata militar mais adepto das conquistas amorosas do que das lides marciais. Acaba por se envolver numa bizarra conspiração onde ocupantes russos compadecidos do triste destino dos povos ocupados procuram activamente restaurar a cultura suprimida - com resultados desastrosos mas hilariantes e provocar uma revolta capaz de possibilitar a restauração da inglaterra aos ingleses. Traduzindo, colonos libertadores a engenhar a auto-determinação dos oprimidos. Só que essa conspiração é orquestrada por agentes dos serviços secretos soviéticos, entediados com a modorra de um mundo pacificado sob o jugo de Moscovo e que sentem que precisam de uma engenhosa operação para manter o treino de proficiência na caça aos possíveis dissidentes, algo difícil numa era onde as memórias oficiais são pervasivas. Daí o título do livro, que evoca uma variante do jogo da roleta russa onde quem não se souber esconder é alvejado pelos companheiros de jogo.

A elegância literária de Amis dilui a ironia hilariante do livro, cheio de duplos sentidos e frases complexas que se relidas provocam ataques de riso, naquela melhor tradição do humor literário britânico de Fielding. De facto, há muito das desventuras de Tom Jones nas atribulações de Petrovsky. As explicações difusas do futuro projectado intrigam, obrigando o leitor a preencher as lacunas com o seu conhecimento pessoal da história contemporânea. As visões irónicas do classicismo social inglês e da bonomia pós-colonialista são tiros certeiros. Também em evidência está o realismo geo-estratégico do autor. Em caso de guerra entre o bloco de leste e o ocidente, o peso da massa humana soviética seria decisiva.

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