quinta-feira, 16 de abril de 2015
The Long Tomorrow
Leigh Brackett (1962). The Long Tomorrow. Nova Iorque: ACE Books.
Um livro clássico, que aborda um temor muito em voga na FC golden age, especulando sobre um mundo pós-guerra nuclear. Brackett não segue o caminho dos monstros mutantes que se acotovelam nas ruínas radioactivas e dá-nos um futuro pós-apocalíptico quase idílico, de regresso à natureza num mundo que regrediu ao nível tecnológico do século XIX rural. Duas gerações após a guerra entre o ocidente e o leste, não parecem restar traços das ruínas e da radioactividade. A ruralidade deste mundo explica-se pela prevalência das seitas religioas na américa. Após as detonações, as hordes de refugiados sobreviventes tiveram de aprender a viver com tecnologias primitivas, e quem melhor para os acolher do que os fundamentalistas cristãos que durante o século XX rejeitaram a tecnologia industrial e mantiveram vivas as manualidades? É esse o espírito conservador, de apego à terra e a rígidos valores morais, que vai caracterizar a américa deste futuro distópico, que rejeita o mundo, abomina a tecnologia, mantém limites legais ao crescimento das localidades para que não regressem as odiadas cidades, e restringe o acesso ao conhecimento sob a égide do temer a deus.
Fazemos o périplo pelas paisagens idílicas habitadas por fervorosos zelotas através da história de dois primos, Len e Esau, cuja curiosidade pelo que seria um mundo com tecnologia e vontade de descobrir a verdade que intuem por detrás das explicações oficiais piedosas os levam a abandonar a comunidade em busca daquela que imaginam ser a última cidade moderna. Fazem-no a partir de lendas que se ouvem de homens que rejeitam a vida rural piedosa e fazem a apologia dos antigos modos de vida. E, de forma sacrílega, usam tecnologias. Esses homens existem e vivem ocultos como comerciantes, assegurando um fluxo de matérias primas para uma localidade que de facto existe, resquício de uma das muitas instalações secretas subterrâneas onde um grupo de cientistas mantém viva a chama da proscrita energia nuclear para alimentar um computador.
Vários aspectos sobressaem desta leitura. Brackett avisa-nos que o trauma da loucura militarista poderá ser o rejeitar da tecnologia e o regressar a um primitivismo alicerçado na tacanhez teísta. Mas é igualmente impiedosa com o dogmatismo científico. Os seus personagens terão de escolher entre o futuro bucólico mas retrógrado e o futuro tecnicista ameaçado, e qualquer das escolhas será amarga. A opressão é a constante, sinalizando a bonomia das tiranias utópicas. Não há monstros mutantes nem paisagens devastadas pela radioactividade nesta clara distopia pós-apocalíptica. O horror aqui é o da regressão, o desconstruir das conquistas da ciência e do humanismo pela necessidade de sobrevivência catalisada através de dogmas religiosos mas também a incompreensão trazida por visões elitistas de progresso.
Um pormenor intrigou-me. Não a cidade utópica que se resume a uma base subterrânea já não muito secreta que abriga uma poderosa mainframe e o seu reactor nuclear, que deixa um dos personagens em conflito mental pela sensação diabólica de estar perante uma máquina que pensa, apesar de todas as explicações em contrário. Brackett aqui seguiu o caminho mais rigoroso de entender o computador como máquina computacional e não cérebero artificial. Intrigou foi um pequeno detalhe. A limitação constitucional que impede que as localidades cresçam a partir de um certo limite, que de forma elegante Brackett mostra como uma norma de planeamento urbano de defesa atómica (evitar concentrações populacionais e incentivar a dispersão como forma de diluir possíveis alvos de mísseis) se transforma em dogma político-religioso, com direito a linchamento às mãos de piedosas hordes para aqueles que se atrevem a afirmar que, quase um século passado após a vitória na guerra atómica, está novamente na hora de abrir as portas ao progresso. Fascinante, este toque de urbanismo, detalhe elementar do mundo ficcional desta distopia da bonomia.
segunda-feira, 13 de abril de 2015
aCalopsia: A Lei de Canon
Mark Millar, Kek-W, Chris Weston (2014). A Lei de Canon. S. Paulo: Mythos.
Canon Law mostra-nos um defensor hiperviolento de leis inflexíveis, crente numa ideia de justiça inabalável, a espalhar balas equitativas em mundos decaídos e paisagens apocalípticas. Um personagem que se situa entre o institucionalismo de Judge Dredd, o moralismo de Marshal Law ou o absurdismo de Lord Horror, com uma forte dose de ironia subversiva. Hiperviolento e muito bem ilustrado, as suas aventuras asseguram uma boa dose de diversão escatológica. Como diria aos seus droogs Alex, esse outro personagem escatológico saído do futurismo distópico de Anthony Burgess, não há nada como uma dose da boa e velha ultraviolência. A crítica completa está no aCalopsia: A Lei de Canon.
quarta-feira, 21 de janeiro de 2015
Por Mundos Divergentes: Uma Antologia
(2014). Por Mundos Divergentes: Uma Antologia. Vagos: Editorial Divergência.
As distopias estão na moda, fruto do espírito de um tempo presente que nos parece opressivo e sem grandes perspectivas. Um tempo em que o progressismo se afundou na ganância neoliberal e as depressões financeiras esmagam as populações de um mundo ocidental. Um tempo em que o antigo obscurantismo religioso volta à tona, alimentado por políticas neo-coloniais desastrosas e por uma enorme desconfiança face à ciência e ao conhecimento, porque note-se, o fundamentalismo islâmico não é o único fundamentalismo em crescimento, apenas o mais visível. Um tempo em que os ideais humanistas e liberais da democracia, igualdade e liberdade estão sob ameaça intensa de novos fascismos ou deturpados por elites predadoras. Poderia continuar. Creio que nem sequer mencionei as consequências alastrantes das alterações climatéricas e aquecimento global. Com isto tudo, como não olhar para este início do século XXI como um momento negro na história humana? Não surpreende, por isto, que a popularidade da distopia enquanto género esteja tão actual. Recorde-se que as ficções especulativas ajudam-nos, muitas vezes, a compreender melhor os desafios do mundo contemporâneo.
Depois do promissor Na Sombra das Palavras, a Editorial Divergência propõe-nos a antologia Por Mundos Divergentes, explorando distopias futuristas em diversas vertentes. Encontramos totalitarismos clássicos, mundos pós-apocalípticos, elitimos pós-escassez ou paraísos psicofarmacológicos. Sem ser uma excelente antologia, mantém um bom nível com contos interessantes que projectam em futuros anseios do presente, com a curiosa regra de se focarem no nosso país. Pode não ser excelente, mas note-se que é destas pedras que se vão construindo os caminhos de uma ficção especulativa portuguesa com cada vez mais qualidade e exigência com ela própria. Note-se que esta antologia, contrariando uma forte tendência entre os criadores portugueses de ficção fantástica, foge à fantasia e assume-se como de ficção científica.
Do livro ainda distinguiria o design de capa, a remeter para a iconografia propagandista dos totalitarismos do século XX. Infelizmente é um nível gráfico que não se mantém nas ilustrações do interior, excepção feita aos ilustradores dos contos Arrábida8, Dispensáveis e Em Asas Vermelhas. Neste, em particular, o toque de estética manga funcionou muito bem.
Patriarca, de Ricardo Dias, abre muito bem a antologia. O conto sublinha um totalitarismo opressivo baseado na hipervigilância automatizada por uma inteligência artificial consciente, num misto de opressão fabril dos primórdios da era industrial com o nosso corrente resvalar para uma sociedade panopticon. A história acompanha as desventuras de um inadaptado ao sistema, que apesar da sua rebeldia individual se descobre uma engrenganem de um diabólico sistema que reconhece a necessidade da dissidência para oprimir de forma mais eficaz. O patriarca do conto é uma entidade artificial, em constante evolução, com olhos em todas as câmaras e tentáculos globais em qualquer sensor. A prosa do autor é escorrida e a leitura rápida e agradável, apesar de se sentir o peso da omnipresença de Orwell, muito citado nestas curtas páginas.
Em Asas Vermelhas é outra boa surpresa. Neste conto de Nuno Almeida a distopia parece-nos pós-apocalíptica, com humanos empobrecidos a viver uma existência miserável na terra doentia à volta das muralhas polidas de uma cidade futurista. Ao longo do conto vai-nos sendo mostrado que houve uma guerra, e que cada povo tem o seu mito. Os citadinos pensam que lá fora se arrastam mutantes radioactivos, enquanto que fora da cidade se imagina que os que se ocultam atrás das muralhas estão irremediavelmente doentes. Mas a cidade, uma Lisboa de arranha-céus e alta tecnologia, está rodeada de zonas radioactivas cheias barracas cujos habitantes sobrevivem nas lixeiras. Só a meio percebemos que a segregação é racial, a guerra antiga uma forma de separar brancos de tudo o resto. A metáfora com as cidades contemporâneas de centros luminosos rodeados por subúrbios problemáticos de cintura torna-se óbvia, apesar da solidez do mundo ficcional. O conto em si é uma história de dissidências e encontros, sob o pano de fundo de revoltas e de uma cidade que quase tem de ser arrasada para perceber a insustentabilidade da sua situação. A história é longa, mas a prosa escorreita do autor, temperada por infodumps bem colocados e momentos empolgantes, mal nos deixa dar pelo passar das páginas.
Dispensáveis, por Ana Nunes é um daqueles contos que já se sabe que caminhos irá percorrer mal se lê os primeiros parágrafos. Um futuro de economias de escassez após o colapso financeiro da União Europeia, caciquismos fascistas, ruína e pobreza generalizada, e uma nova ordem social em que aqueles tidos como inúteis à sociedade são obrigados por lei a ser dispensados, largados para morrer na natureza inclemente. O conto ganha pontos pela coragem da autora em não mostrar a sociedade espontânea dos inúteis e ineptos como algum farol de esperança, seguindo o caminho do desespero completo. A sociedade do fundo é tão ou mais violenta e inclemente do que a do topo. Não há redenções, e os desprezados não hesitam em recorrer ao canibalismo para poder conseguir mais um dia. A reflexão político-social sobre os tempos que correm é bem visível.
Arrábida8 de Pedro Martins é um conto curioso. Arrepiante, a visão de um futuro euroasiático sujeito a ideais de conformidade perante o sistema, punível com um reiniciar de personalidades que elimina as memórias que fazem o ser. Intrigante, o conceito de uma espécie primitiva que sobreviveu nos fundos oceânicos e graças a um cataclismo vulcânico colonizou o estuário do Sado. E muito interessante o imaginar de uma Setúbal e Tróia futuras, mesclando as memórias visuais do presente com um futurismo de sabor asiático. No entanto o conto é pouco coerente. O mergulho no jargão futurista é prematuro, feito antes de termos uma indicação de como está estruturado o mundo ficcional, e o conto intui mais do que revela, ficando algo fragmentado.
Somos Felizes, por Sara Farinha, tem o seu quê de dualismo adolescente em extremos. Num futuro demasiado próximo do presente a obrigatoriedade da felicidade é absoluta. Emoções negativas são consideradas doenças, e aqueles que persistem em sentir tristezas acabam como cobaias de neurocirurgiões que querem perceber o porquê das resistências à felicidade induzida por terapias e químicos. É refrescante ler algo cujo ideário é tão a preto e branco, cheio de absolutas certezas que se esquivam às necessárias gradações conceptuais. Um conto simples e eficaz, que vai sempre muito direito ao assunto e não se desvia um milímetro do seu fio condutor.
terça-feira, 28 de outubro de 2014
Leituras
In the future we will absorb technology from the inside out and enhance our senses by eating ourselves: Um vídeo de uma beleza assombrosa, descoberto graças ao bom gosto impecável do but does it float. Com uma estética de cores ricas e esterilidade cirúrgica, a mexer com transumanismo, biotecnologia, clonagem e bleeding edge científica. E faz pensar naquilo que Bruce Sterling disse en passant num dos últimos SXSW. A vanguarda estética da FC que reflecte sobre os desafios de um mundo de tecnologias pervasivas e pesquisa as novas possibilidades estéticas dos meios digitais não se encontra nas mega-produções cheias de efeitos especiais de Hollywood ou Bollywood. Está aqui, nos vídeos experimentalistas criados por coders, artistas performativos ou videoartistas que experimentam e soltam a beleza mordente da hipermodernidade na internet.
A Science Fiction Classic Still Smolders: Estonteante, este ensaio de Jon Michaud para a New Yorker sobre A Canticle for Leibowitz. Consegue em poucos parágrafos dissecar o humor negro, a parábola sobre o poder das insituições e as visões pós-apocalípticas que catalisam os medos fundados da guerra nuclear com a experiência pessoal do autor enquanto combatente, em nada menos que Monte Cassino, ao mesmo tempo referência de grandes batalhas e destruição cega de património milenar. Ainda aponta o livro como uma influência na tendência de catastrofismo resvalante que caracteriza a cultura pop contemporânea.
This is how we imagined aerial warfare 120 years ago: Um mimo para os fãs de steampunk, cheio de ilustrações de barcos voadores, majestosos sob os enormes balões que os mantém nos céus. Note-se que não estou a falar de steam ou proto-steampunk. Este artigo recorda dois livros dos idos de 1800 e troca o passo, aventuras futuristas que concebiam futuros sob o prisma das contemporaneidades em que foram escritos.
Microsoft Integrates Kinect into 3D Builder, Allowing Full Body Color 3D Scanning and Printing: Esperem lá, li bem? A venerável Microsoft tem uma app para Windows 8 para modelar e imprimir em 3D, que ainda por cima se integra com kinects para fazer 3D scanning com facilidade? De repente o Win8 tornou-se interessante para mim.
Escape from Microsoft Word: As ferramentas digitais que utilizamos poderão influenciar, modelar e modificar os nossos processo mentais? É uma variande do media is the message mcluhanista, dissecada neste ensaio da New York Review of Books sobre o acto de escrever. Enquanto olhamos para as possibilidades e ferramentas oferecidas pelo processador de texto o mais elementar no acto de escrever - a relação entre pensamento e palavra, ficará constrangida? Habituamo-nos a tudo, mas pessoalmente sou daqueles que usa o Word para editar versões finais. Escrever, o deixar sair as palavras para o ecrã, organizar as linhas de pensamento, é algo que prefiro fazer num humilde txt ou numa qualquer caixa de texto de aplicações web. Sem distracções, sem preocupações com formatos e tipos de letra, apenas com o fluxo de ideias e encadeamentos de palavras. Ou, como o ensaísta coloca bem melhor do que eu: "Intelligent writers can produce intelligent prose using almost any instrument, but the medium in which they write will always have some more or less subtle effect on their prose. (...) When I work in Word, for all its luxuriant menus and dazzling prowess, I can’t escape a faint sense of having entered a closed, rule-bound society. When I write in WordPerfect, with all its scruffy, low-tech simplicity, the world seems more open, a place where endings can’t be predicted, where freedom might be real."
Robot Building to Become Obligatory Subject in Armenian Schools: Encontrei isto a flutuar numa thread do Reddit sobre futurismo/futurologia. Há poucas informações sobre isto, talvez porque os arménios envolvidos neste projecto não se estejam para chatear com coisas como sites em inglês. Suspeito que se soubesse arménio ser-me-ia fácil encontrar mais sobre isto. O conceito chama-se Nairi Laboratory e é uma abordagem integrada que envolve introdução à programação (com Scratch, mas pois claro), robótica e impressão 3D. É curioso como não parecem empenhados em publicitar o projecto, mas como já observei, a língua arménia é-me totalmente desconhecida (mas hey, que letrinhas tão exóticas tendes, caros arménios). Mexe com CTEM, educação, criatividade e tecnologias. Soa como um projecto de sonho, e não me importaria nada de estar envolvido em algo semelhante por cá. Este vídeo ainda me deixa mais intrigado: Nairi Lab Highlights.
Happidrome Part One: Uma crónica brilhante de Adam Curtis que começa por olhar para os kurdos mas acaba a debruçar-se sobre a hierarquização das sociedades potenciada pela tecnologia e formas de controle social skinnerianos baseados não no medo mas no prazer que são de facto tão ou mais insidiosos do que os totalitarismos mais sangrentos. Não resisto a citar uns parágrafos particularmente certeiros, que começam com uma análise de experiência do psicólogo B. F. Skinner (que, no mundo da educação, é uma das figuras incontornáveis das teorias e modelos de ensino precisamente por causa da poderosa relação estímulo-recompensa) e terminam numa reflexão profundamente certeira sobre o poder na hipermoderna sociedade contemporânea:
"What emerges in the hospital is a new, ordered hierarchy created by a system of reward - but one where the patients don’t feel controlled - instead they feel “empowered” because it was through their actions that they received the reward. Skinner makes clear in the film that he sees this as a model for how to run a future kind of society.
Watching these sections of the film does make you think that what is being described is spookily close to the system we live in today. And that maybe we have misunderstood what really has emerged to run society since the 1980s.
The accepted version is that the neo-liberal right and the free market triumphed. But maybe the truth is that what we have today is far closer to a system managed by a technocratic elite who have no real interest in politics - but rather in creating a system of rewards that both keeps us passive and happy - and also makes that elite a lot of money.
That in the mid 1980s the new networks of computers which allowed everyone to borrow money came together with lifestyle consumerism to create a system of social management very close to Skinner’s vision.
Just like in the mental hospital we are all given fake money in the form of credit - that we can then use to get rewards, which keep us happy and passive. Those same technologies that feed us the fake money can also be used to monitor us in extraordinary detail. And that information is then used used to nudge us gently towards the right rewards and the right behaviours - and in extremis we can be cut off from the rewards."
quinta-feira, 4 de setembro de 2014
Le Successeur de Pierre
Jean-Michel Truong (2012). Le Successeur de Pierre. Paris: Gallimard.
Pode um conjunto de boas ideias tornar-se um bom livro? Sim, se o escritor souber trilhar o caminho periclitante entre concisão, estrutura narrativa coerente e conceitos intrigantes. Não é o caso deste livro, penosa leitura que nos vai revelando um world building interessantíssimo mas internamente inconsistente, que se perde numa vastidão de páginas para contar uma história que, de facto, é o início do que poderia ser a real história.
Vamos por partes. Seccionar e isolar as ideias deste livro poderá ser a melhor forma de tirar algum sentido da salganhada. O título tem tudo a vr com um fio narrativo às voltas com um pergaminho contendo um segredo perigoso sobre o catolicismo que se perde na China com missionários nestorianos em fuga que recebem abrigo dos mongóis. Este é o leitmotiv do livro, apesar de raramente tocado, e só no final fazer sentido. O segredo não tem nada de esotérico, trata-se da admissão que a igreja é apenas o mais recente vector de transmissão de um meme inteligente, uma entidade sentiente talvez surgida com o big bang, espécie de lado femenino da divindade, que se vai socorrendo das formas de vida planetárias e das sociedades que criam para evoluir e escapar aos limites do planeta.
Estão a ver o que quis dizer por amontoado de ideias interessantes? Segredos da igreja e documentos secretos é coisa que pulula por aí em romances conspiratórios de maior ou menor sucesso. Até agora nunca me tinha deparado com nenhum que levasse a este nível a ideia de memes inteligentes que se propagam influenciado a criação de estruturas culturais. Mas, no que toca ao livro, esta não é uma caçada para encontrar o segredo. Estamos num futuro distópico, e este cenário é ao mesmo tempo o maior ponto de interesse e o elemento mais mal conseguido do romance.
Truong criou aqui uma intrigante especulação distópica. Imagina um futuro em que a humanidade vive enclausurada em contentores, acumulados em unidades de sobrevivência. Não há contacto humano, e os espaços exíguos contém tudo o que é necessário ao indivíduo, com uma grande dose de comunicação digital e virtual. A migração humana para as unidades de sobrevivência dá-se como consequência de uma pandemia global que por pouco não extermina a humanidade. As autoridades globais, em pânico, aprovam a lei zero-contact (pronunciem em francês, claro) e isolam a humanidade em contentores individuais. Só escapam os NoPlugs, rebeldes que insistem em viver na superfície planetária. A coisa não é tão simples como isto. As elites económicas e governamentais sobrevivem em cidades subterrâneas e estão a construir cúpulas nas principais cidades europeias e americanas que lhes permitam voltar a passear pelas largas avenidas e apreciar as caras mansões citadinas. Outro dos aspectos desta distopia é o secretivo pacto de Davos, que une a elite globlal num projecto secreto. Sim, sendo Davos, podem esperar algumas trafulhices dos 1%.
As inconsistência começam aqui. Truong descreve a humanidade sobrevivente dentro de pirâmides de contentores geridos por municipalidades que asseguram as necessidades básicas, mas aplica aos habitantes as leis de mercado. E o leitor pensa: em que é que ficamos? sobrevive-se num contentor ou aluga-se o espaço? O que é que acontece se a pessoa perde os rendimentos possíveis apenas através de uma plataforma online de trabalho? É que o autor não nos fala de bandos de excluídos das pirâmides.
À partida, esta concepção parece sólida, mas quando Truong insere uma linha narrativa determinante para a história a coerência colapsa. Esta envolve uma conspiração da élite global para submeter a China vermelha ao sistema de Davos. É estranho que o autor regresse à territorialidade do presente e nos dê uma imagem da China não como um conjunto de pirâmides de sobrevivência mas de cidades e territórios. A coisa envolve uma acusação massiva de pirataria, tensões com os EUA, uma invasão chinesa de Taiwan com demonstrações massivas de apoio nas ruas, uma escalada nuclear que resulta na atomização de Hong Kong e Shangai, e a inevitável rendição chinesa. O que não funciona aqui é que se no futuro a humanidade vive dentro de contentores, não faz sentido haver disputas territoriais, e muito menos manifestações de rua.
O elemento que vai aglutinar todas estas estruturas é a tal inteligência oculta que saltita de sociedade em sociedade. Esta descartou a igreja como vector e utiliza as élites globais como vector de transmissão. Graças ao desenvolvimento tecnológico vê a possibilidade de finalmente sair do planeta, mas para isso é preciso assegurar que os recursos económicos fluam na sua direcção, e não para alimentar as massas sujas de humanos que começam a ser descartáveis. Nasce aqui a ideia macabra posta em prática pelas élites de fazer um downsizing global da população, eutanizando os habitantes das pirâmides, reduzido a população à nova aristocracia dos 1% e seus servos clonados. O rendimento económico está assegurado pela total automação e aqueles que não pertencem a este sistema - essencialmente, toda a humanidade, são vistos com prejuízo económico.
Ficamos a saber tudo isto de forma desconexa, através da história de Calvin, o jovem protagonista que vivendo isolado no seu casulo tem a companhia fiel de um curioso grupo de amigos que se vai revelando ser mais importante do que aparenta. Há um velhote chinês, que se vai revelar ser o mítico líder da China comunista renovada. Uma mulher que o trata de forma maternal mostrar-se-á a sua mãe real (na sociedade dos contentores as crianças são geradas por inseminação artificial e retiradas cedo às mães biológicas), um tímido académico que lhe ensina tudo sobre a cultura global é uma desculpa do autor para ilustrar o processo maquiavélico de eutanização (diminuir rendimentos, criar dívidas e convidar ao suicídio assistido), e outro amigo de pendor académico irá revelar-se o guardião do segredo eclesiástico, e nada menos do que o corrente papa. O interesse em Calvin prende-se com a sua escolha como novo guardião do segredo e esperança da sobrevivência humana face a uma manipuladora entidade obscura que se prepara para descartar os incómodos macacos inteligentes na sua constante busca evolucionária.
Truong tece uma ambiciosa teia narrativa, tentando colar um conjunto muito intrigante de ideias. A distopia futura de uma humanidade isolada como resposta a uma pandemia é um bom princípio. A crítica ao neoliberalismo alastrante encarnada pela predação das élites globais e injustiças de uma economia autofágica que trata o trabalho como um recurso descartável é acutilante e pertinente. O conceito de meme inteligente como uma criatura obscura que vai parasitando a humanidade para sobreviver e evoluir intriga e abre possibilidades. Mas estes elementos não colam, há pouca atenção às inconsistências levantandas pela junção dos conceitos de base. A prosa é penosa, estendendo-se por um número elevado de páginas, boa parte das quais inúteis para a narrativa central. Chega a haver um desvio narrativo sobre um serial killer que se infiltra nos sistemas dos autómatos que permitem contacto sexual entre os habitantes dos casulos e esventra algumas vítimas incautas, que é levado a lado nenhum.
Surpreende que este livro tenha recebido a distinção de grand prix de l'imaginaire do ano 2000. Não é que este seja um péssimo livro, apenas um conjunto de ideias interessantes unidas por uma narrativa mal conseguida. Talvez nesse ano a colheita de romances de FC franceses tenha sido medíocre, e esta a obra que melhor se safava no meio dos crimes ecológicos e literários? A edição de bolso da FolioSF de 2012 foi a minha porta de entrada para este escritor de FC francófona, que não faz jus à elevada tradição do género em língua francesa.
sexta-feira, 11 de julho de 2014
Russian Hide and Seek
Kingsley Amis (1981). Russian Hide and Seek: A Melodrama. Nova Iorque: Penguin.
Kingsley Amis não ocultava o seu gosto especial pela ficção científica e teve a coragem de escrever romances dentro do género. Ao contrário do habitual nos esforços de género dos escritores mainstream, são livros bem concebidos que fazem uso brilhante das premissas da ficção científica. Um deles, The Alteration, é uma pérola esquecida da história alternativa. Este Russian Hide and Seek insere-se naquela vertente tão característica do século XX, a do futuro pós-apocalipse nuclear, com uma fortíssima ironia sobre o tão inglês sistema de castas aristocráticas.
Amis é deliberadamente difuso nos pormenores do futuro que imagina. Sabemos que estamos numa inglaterra futura, ocupada por forças soviéticas que se comportam de modo muito similar ao estereotipo do aristocrata britânico. Quem se recorda da história do século XX depressa criar uma imagem mental das possibilidades que levariam a este estado de coisas, que Amis reforça com momentos pontuais em que nos informa que houve uma guerra que teria durado três dias (e o leitor de boa memória imagina a troca de mísseis intercontinentais que reduziriam as cidades a cinzas), se bem que há indícios de que afinal a resistência teria sido mais prolongada. Os russos comportam-se como sahibs enquanto os nativos britânicos são vistos como coolies peculiares. A comparação entre uma inglaterra subjugada e o Raj indiano é uma das vertentes de ironia desta obra. Décadas após as guerras impera a memória oficial da propaganda, o declínio tecnológico é acentuado e a cultura local foi suprimida pelos ocupantes. Da velha inglaterra restam as ruínas e as memóras difusas dos poucos envelhecidos sobreviventes à guerra do passado.
O livro desenrola-se como um romance clássico russo. Centra-se em Alexander Petrovisky, personagem icónico, um jovem aristocrata militar mais adepto das conquistas amorosas do que das lides marciais. Acaba por se envolver numa bizarra conspiração onde ocupantes russos compadecidos do triste destino dos povos ocupados procuram activamente restaurar a cultura suprimida - com resultados desastrosos mas hilariantes e provocar uma revolta capaz de possibilitar a restauração da inglaterra aos ingleses. Traduzindo, colonos libertadores a engenhar a auto-determinação dos oprimidos. Só que essa conspiração é orquestrada por agentes dos serviços secretos soviéticos, entediados com a modorra de um mundo pacificado sob o jugo de Moscovo e que sentem que precisam de uma engenhosa operação para manter o treino de proficiência na caça aos possíveis dissidentes, algo difícil numa era onde as memórias oficiais são pervasivas. Daí o título do livro, que evoca uma variante do jogo da roleta russa onde quem não se souber esconder é alvejado pelos companheiros de jogo.
A elegância literária de Amis dilui a ironia hilariante do livro, cheio de duplos sentidos e frases complexas que se relidas provocam ataques de riso, naquela melhor tradição do humor literário britânico de Fielding. De facto, há muito das desventuras de Tom Jones nas atribulações de Petrovsky. As explicações difusas do futuro projectado intrigam, obrigando o leitor a preencher as lacunas com o seu conhecimento pessoal da história contemporânea. As visões irónicas do classicismo social inglês e da bonomia pós-colonialista são tiros certeiros. Também em evidência está o realismo geo-estratégico do autor. Em caso de guerra entre o bloco de leste e o ocidente, o peso da massa humana soviética seria decisiva.
segunda-feira, 2 de junho de 2014
Comics
The Massive #23: Com a história de Callum Israel quase arrumada, The Massive pode seguir um caminho mais interessante: o ser um espaço conceptual para testar ideias de possíveis futuros num mundo arrasado pelo colapso ambiental. Olhar para as aventuras do mentor da organização ambientalista que dá o ponto de partida foi uma boa desculpa para o necessário périplo pelo mundo ficcional, mas o interessante na série é o seu conceito e agora Brian Wood pode explorá-lo à vontade. É o que se nota neste corrente arco narrativo, onde uma coluna de camiões-cisterna atravessa o deserto do Sahara. Vão a caminho de Marrocos, transportando um carregamento de água recuperada aos antigos poços de petróleo da Arábia Saudita, para criar um lago artificial que mitigue a seca prolongada trazida pela alteração dos padrões climatéricos. É interessante Wood colocar o reino Saudita como uma futura potência graças à água acumulada no seu subsolo para encher os vazios deixados pelo sugar do petróleo. E fá-lo com ironia. Quem protege a coluna dos raides de bandidos armados são mulheres, viúvas ou esposas de homens imigrados. Profunda ironia, colocar os destinos financeiros do reino misógino nas mãos de aguerridas mulheres do Sahel. A vinheta que destaco é genial. Num mundo em colapso, os luxos dos melhores tempos passados tornam-se artefactos esquecidos.
Mind MGMT #22: Vou arriscar uma heresia e dizer que a continuidade desta série começa a tornar-se cansativa. Sente-se o esgotar criativo ao longo das páginas de uma história onde um grupo de rebeldes tenta recuperar uma velha organização e lutar contra um grupo de antigos elementos degenerados em terroristas. Claro que o interesse está na organização ser especialista na semiótica de combate, mas mesmo assim cansa. Ok, passo a explicar. Semiótica de combate. Utilizar simbolismos, mensagens subliminares, espiritualismos e outras técnicas mais outré como arma de guerra. Há um momento em que Matt Kindt nunca deixa de estar genial: nas curtas com que abre e encerra o seu comic, momentos perfeitos de surrealismo new weird. Neste mês, um pintor cujos quadros levam os apreciadores de arte à loucura... mas afinal as imagens são inócuas, o segredo está nas molduras...
Rover Red Charlie #06: Confesso que desta não estava à espera. Garth Ennis deu um final feliz à sua road trip pós-apocalíptica com cães. Antes ainda nos reserva um enervante e violento clímax, junto com uma reflexão sobre liberdade individual e o que nos define enquanto pessoas, utilizando a metáfora canina. O final, de uma simplicidade encantadora, deixa vontade de começar a ladrar I'm a dog I'm a dog I'm a dog. Esta série merece ser lida. Consegue encantar o leitor com a ingenuidade do antropomorfismo sem esquecer o toque visceral de Ennis. E as ilustrações dos animais são excessivamente adoráveis.
Trees #01: Warren Ellis de volta aos comics de ficção científica e, para não variar, com uma ideia de dar a volta à cabeça. A Terra foi invadida por uma espécie alienígena que nem se apercebe que aquelas formigas de duas pernas que eregem cidades são uma espécie inteligente. Gigantescas árvores extraterrestres erguem-se em locais aleatórios no planeta, soltando de vez em quando uma seiva destruidora. Mas a vida continua, e as engrenagens dos governos, dos jogos de interesse e das ambições continuam a rodar, acomodadas ao mistério. Suspeito que Ellis nos quis dar um Day of the Triffids para o século XXI. O conceito de plantas extra-terrestres que invadem o planeta tem uma das suas melhores expressões no clássico romance de John Wyndham, livro que de certeza Warren Ellis teve em mente ao conceber este Trees.
quinta-feira, 30 de maio de 2013
L'Uomo di Wolfland
Ricardo Barreiro, Franco Saudelli (1990). L'Uomo di Wolfland. Roma: Eura Editoriale.
Esta foi uma das mais interessante surpresas nesta viagem literária à descoberta do fumetti. O argentino Ricardo Barreiro assina uma intrigante história retro-futurista distópica com forte inspiração no nazismo e II guerra mundial. Somos levados a conhecer um patriótico soldado de Wolfland, ditadura germânica de toque nazi engalfinhada numa guerra sangrenta contra inimigos colectivamente designados por Anglai. Estamos num futuro distópico, de tecnologia inspirada nos anos 40 do século XX, onde imperam leis raciais, ditaduras férreas e patriotismo exacerbado.
Combate aéreo entre caças Anglai e Wolfland, claramente inspirados em Fiats g.50 e Macchis c.202.
Vindo da frente de combate, é concedido a um tenente de infantaria um período de descanso na capital da nação. Como convém a um herói de guerra, são lhe fornecidos todos os luxos: hotel, carro potente e acesso livre a um bordel militar. Aí cruza-se com uma bela prostituta e com um amigo, oficial dos serviços secretos da ditadura que o coopta para uma missão secreta. O nosso herói terá de se infiltrar numa organização secreta de mutantes, pessoas que por não passarem nos testes raciais obrigatórios perdem os direitos de cidadania. A sua ligação aos mutantes é precisamente a bela prostituta. Como bom agente, o soldado ganha a confiança dos terroristas e atrai-os para uma cilada. Mas a conclusão bem sucedida da missão tem um desfecho irónico. O herói de guerra foi escolhido para a missão secreta não pelas suas qualidades e fidelidade ao regime mas por ter sido detectada uma mutação no seu controle de pureza racial. As mutações são o resultado de exposição a radiações, algo que nos campos de batalha é comum. E o nosso herói, patriota que sacrifica tudo pela nação, é recompensado com um pelotão de fuzilamento.
Pura elegância sensual, ou o traço de Saudelli a evocar mistérios e aventuras. Não por acaso, este autor é mais conhecido pelo fumetti fetichista La Bionda, às voltas com cordas de nós apertados e uma sensual ladra loira com um carinho especial por amarrar as suas vítimas.
Se o argumento de Barreiro prima pelo perfeito canalizar da claustrofobia do fascismo militarista, as ilustrações de Franco Saudelli remetem-nos para um futurismo retro, onde a tecnologia é inspirada nas armas italianas da II guerra mundial. As aeronaves de combate são clones de máquinas como o Fiat Freccia ou o Macchi Folgore, enquanto o aspecto dos transportes evoca os comboios blindados a fervilhar com metralhadoras. O que trai o futurismo são as insígnias e o desenrolar da história. Nas primeiras vinhetas cremos que estamos a ler algo sobre a frente leste na II guerra, e são os uniformes que estabelecem a dissonância cognitiva que alimenta este fumetti. O ar anos quarenta é patente nas cidades e cenários, transposição perfeita da estética da II guerra para uma história de futuros alternativos.
sábado, 9 de março de 2013
Things to Come
quinta-feira, 24 de janeiro de 2013
Alfa 33 e o Furúnculo de Salazar
Renato Carreira (2012). Alfa 33 e o Furúnculo de Salazar. Smashwords.
Nestes tempos de crise de valores democráticos as memórias do Estado Novo douram-se com uma pátina de nostalgia por tempos mais simples, como se viver debaixo de um regime fascista e obscurantista que privilegiava elites e se socorria de um provincianismo atroz para afirmar os seus valores fosse vastamente preferível aos tempos contemporâneos. É sintoma daquele carácter português, forjado por séculos de obscurantismo religioso e político, estimulador da mesquinhez generalizada para manter os privilégios de uns poucos e apologista do homem forte e autoritário, do caudilhismo como forma de desresponsabilização individual perante o estado geral das coisas. Assim se percebe o nosso gosto por Dons Sebastiãos, Salazares, Sidónios, líderes de punho forte que metem ordem na bandalheira porque isto da liberdade é bom é para os outros, que o zé povinho não tem capacidade para isso.
Este curto e-book combate a nostalgia pelos velhos tempos com um humor corrosivo e genial. Através de uma paródia ao romance de espionagem os elementos icónicos do estado novo são caricaturados e postos a nu no absurdo do seu provincianismo totalitarista. A história é inventiva, com um charmoso agente secreto da PIDE que numa distopia alternativa tem de lutar contra uma gravosa conspiração contra a moral e bons costumes do estado, ameaçada por um filme pornográfico de Salazar enrolado como possante macho latino com uma certa jornalista francesa num portugal onde o 25 de abril foi travado a tempo e o desenvolvimento de uma bomba atómica assegurou o futuro do regime. A caricatura ao cinzentismo salazarento é perfeita, com os absurdos da moral e bons costumes, as ridicularias legais de uma sociedade fechada, a clássica corrupção familiar do irmão tio do primo do ministro que assegura contratos chorudos, o espírito sufocante do catolicismo institucional, analfabetismo dominante, o portuguesismo popularucho tornado ícone através do cinema de comédia português dos anos 40 e 50.
Apetece traçar comparações entre este conto e a eterna promessa que é a série Capitão Falcão, mas não entro por aí. A série inspira-se no cinema grindhouse e no icónico batman televisivo dos anos 60, o ebook brinca inteligentemente com o estereótipo do super-agente secreto charmoso, trocando o martini shanken, not stirred pelo tinto carrascão martelado em Almeirim. Ambas vão beber ao kitsch português dos tempos finais de um estado novo que merece ser recordado pelo seu pior e ridicularizado com inteligência, ao invés de ser revisto como uma era dourada onde nem tudo era perfeito mas éramos sublimes na pobreza humilde.
O livro é curtinho, bem escrito e está disponível gratuitamente no Smashwords. Vão ler, riam-se com os trocadilhos às voltas com a farinha 33, jaquinzinhos de bechamel como instrumento de tortura, dotes prendados de fadas do lar, furunculosos segredos de estado e pistolas de modelo renovado em tudo igual ao antigo.
sexta-feira, 18 de janeiro de 2013
Channel Zero
Brian Wood (2012). Channel Zero. Milwaukie: Dark Horse Comics.
Uma genial distopia fortemente inspirada na estética cyberpunk onde uma américa futura se afunda no fundamentalismo da moral e bons costumes. Resta a guerrilha urbana da informação para contrapôr à pressão dos meios de comunicação manipulados e do conformismo como única via possível. Se o argumento é interessante, a ilustração explode numa iconografia de manifesto cultural punk, cru, agressivo e pensado para provocar os neurónios. Espaço urbano, distopia social e a infoesfera colidem num preto e branco de arestas cortantes. Channel Zero foi a primeira graphic novel de Brian Wood, que se distingue correntemente com as séries DMZ e The Massive, formas elegantes de hacktivismo no género comic. Wood apenas se engana na tipologia de distopia. Com a presciência dos primeiros anos do século XXI, podemos observar que foram os fundamentalistas da ganância neoliberal que tomaram conta do poder, subvertendo a liberdade e a democracia para o seu enriquecimento pessoal à custa de todo um planeta.
quarta-feira, 2 de janeiro de 2013
No Muro
David Soares (2012). No Muro. Lisboa: Diário de Notícias/Escrit'orio
Começa inocentemente, com um personagem que descobre o fascínio dos livros ao esquadrinhar a biblioteca do pai em busca daqueles mementos que todos gostamos de deixar dentro das páginas dos livros. Evolui para uma fábula negra sobre a importância do conhecimento e os perigos da ignorância, simbolizada por um muro de morte e lamentação que encerra livros dentro dos tijolos. Contra esse muro opaco decorre a vida, com ênfase para a violência advinda do obscurantismo.
terça-feira, 1 de janeiro de 2013
Existence
David Brin (2012). Existence. Nova Iorque: TOR.
A história contada neste livro é um disfarce ténue. Existence aparenta ser um romance de ficção científica sobre a descoberta de vida inteligente no universo, mas é um enorme infodump das ideias de David Brin sobre pós-humanismo, futurismo, hipóteses de descoberta de vida não terrestre e uma crítica acérrima ao momento contemporâneo.
Vamos por partes. Existence mergulha-nos num futuro próximo onde três linhas narrativas colidem. Um famigerado autor de ficção científica orgulha-se de uma pretensa influência ideológica sobre grupos de aristocratas e oligarcas que utilizam a sua vasta influência para instaurar uma nova ordem mundial que aniquilaria a tradição de liberdade e progresso vindas do iluminismo e restauraria as velhas ordens sociais baseadas na meritocracia elitista dos berços dourados. Nesta luta, o ideólogo que se julga peça central descobre ser um mero peão nas maquinações dos ricos e poderosos.
Noutro registo, um astronauta convertido em apanhador de lixo espacial descobre um estranho artefacto em órbita, que se revela um receptáculo de entidades alienígenas sentientes que oferecem à humanidade uma oportunidade única: imortalidade pós-humana através do construir e semear de novos artefactos pelo universo. Passado o deslumbramento inicial, depressa se percebe que o negócio é mau para a humanidade. Nenhum dos pontos de origem dos alienígenas digitalizados no artefacto aparenta manter formas de vida e depressa se conclui que a resposta à pergunta haverá vida para lá da terra se consumiu numa versão cósmica de um vírus biológico, que existe com o fim único de se propagar sem respeitar o anfitrião local. Finalmente, a chegada do artefacto começa a despertar outros artefactos, adormecidos em locais remotos do planeta ou em hibernação na cintura de asteróides. Uma batalha cósmica emerge entre os artefactos, enquanto na terra um chinês que vive de resgatar sucata das linhas costeiras submersas vive a odisseia de uma vida através de uma ligação simbiótica com um artefacto, que o leva a aventuras violentas em estados-nação libertários em ilhas do pacífico sul. Outra curiosa linha narrativa que se entrosa no arco das oligarquias mostra-nos um grupo de golfinhos inteligentes que decide adoptar um náufrago humano como utensílio para as tarefas que requerem braços e não barbatanas. Os golfinhos são o resultado de experiências de melhoramento artificial do natural, que também se traduz no renascimento de neandertais que conseguem estabelecer laços com crianças autistas.
A colisão entre as linhas narrativas é épica. A conspiração dos oligarcas quase triunfa, sendo travada por uma coligação ad-hoc de pessoas ligadas em rede que detectam a tempo e ajudam a travar as movimentações secretas. Os cientistas que analisam os artefactos acabam por perceber a cilada cósmica que estes representam, passando a entendê-los não como mensagens de outras civilizações mas como vírus semi-conscientes programados para levar a cabo instruções que poderão já se ter tornado obsoletas. Uma humanidade tecnológica fortalecida com as transferências tecnológicas adquiridas com os artefactos começa a explorar o sistema solar e a planear espalhar-se pelo universo, misturando vida física com a imortalidade digital. Chega até a testar lançar cópias dos artefactos, que levam dentro de si digitalizações das consciências dos principais personagens da história. Evitadas as catástrofes da tomada de poder por elites gananciosas e a captura por viroses cósmicas, a promessa de um futuro radioso estende-se no final deste magnífico livro.
Existence é traçado a largos riscos numa vasta tela. Traz-nos convicentes visões de futuros prováveis, onde as desigualdades sociais se agudizam, a tecnologia digital impera, a hipeconectividade é o factor determinante do progresso, o mundo é cada vez mais urbano e a pressão ecológica faz mossa na sociedade. Não é uma obra muito subtil. Brin faz questão de partilhar com os leitires enormes infodumps com as suas ideias sobre o progresso social e tecnológico, essencialmente vastos ensaios ficcionais. O elemento de crítica social simbolizado pela sede de poder de elites aristocráticas é intrigante e particularmente acutilante neste momento actual em que a crise financeira se revela uma boa desculpa para que elites esclarecidas tudo façam para reverter as recentes conquistas sociais. A ideia da resposta à questão da vida no universo como um vírus que se replica aniquilando civilizações planetárias para se propagar é algo de inédito. Sem ser um livro perfeito, deslumbra pelos vastos panoramas e inventividade conceptual com uma abrangência de tirar o fôlego. O prazer deste livro está mais no seu lado intelectual do que no literário.
domingo, 30 de dezembro de 2012
Lord Of Light
Roger Zelazny (2004). Lord of Light. Nova Iorque: EOS.
Tornar-se um deus é uma boa forma de se manter no topo da pirâmide social, como na antiguidade os faraós egípcios e os imperadores romanos já tinham percebido. A tripulação de uma nave geracional encontra a forma perfeita para se manter como a classe dominante num planeta distante, colónia de uma Terra esquecida e talvez desaparecida. Negando aos colonos e seus descendentes os benefícios da tecnologia, assumem-se como entidades divinas utilizando aparatos tecnológicos como símbolos de magia sobrenatural. Das mitologias possíveis que estes tripulantes poderiam escolher a selecção recai sobre o hinduísmo. Quase imortais graças a tecnologias avançadas de transferência de consciência, todo-poderosos graças a equipamentos que os descendentes de colonos não dispõem, estes falsos deuses reinam sob um planeta moldado à sua medida. Controladores das máquinas de reencarnação, garantem a pureza ideológica da população. Esmagam quaisquer ressurgimentos tecnológicos pela raiz, não hesitando em arrasar cidades inteiras por heresias como a invenção da impressão, canalização ou lentes. Feitos tecnológicos são mistificados como mitos. Guerras assumem a forma de epopeias heróicas e a quase aniquilação da população nativa do planeta é mitificada como uma luta entre deuses e demónios.
Mas Sam, um dos falsos deuses, pensa de forma diferente. Vive no meio da população e vai espalhando uma mensagem de paz e inconformismo que lentamente toma raízes. Provoca dissensões no seio da casta deificada que reina. Encontra aliados entre os demónios. E provoca convulsões que abalam a ordem estabelecida e propiciam finalmente a possibilidade de progresso tecnológico humano. O triunfo final não é uma absoluta vitória da liberdade sobre o misticismo, antes uma difusa aliança entre forças opostas para proveito mútuo. Pregador do budismo como pedra na engrenagem deísta, sem planos definidos mas muito talento para desenrasque em situações bicudas, Sam é um dos tripulantes originais que, inconformista, luta de forma assimétrica contra o poder ilegitimamente estabelecido sob a capa do obscurantismo religioso.
Sátira anti-misticista sob a pele de obra de ficção científica, Lord of Light caracteriza-se por uma extraordinária fluidez linguística que mistura elementos míticos com tecnológicos e o banal com o sagrado. História circular, repetindo o ritmo dos ciclos místicos orientais, mergulha-nos num mundo onde os mais fantásticos aparatos sobrenaturais são tecnologias descrita sobre outro ponto de vista, os deuses adoram pausas para um cigarro, a promessa pós-humanista de imortalidade digital e migração entre corpos artificiais se consuma como um ciclo de reencarnações e quem desagrada aos poderes instituídos acaba reencarnado como criatura não humana e as résteas de uma facção cristã dominam hordes de zombies. Típico de uma obra de Zelazny, os trocadilhos linguísticos elegantes sucedem-se com um ritmo de sagacidade bem humorada.
quinta-feira, 13 de dezembro de 2012
Mariazinha, com diploma
Não resisto a citar o anúncio de emprego, que é particularmente ofensivo para qualquer professor: "URGENTE Precisa-se 1 Professora do 1º ciclo, para 5 crianças de 6 anos, e será para trabalhar das 17,00 até as 21,30 de segunda a sexta (com direito a uma folga sómente durante a semana, a escolha), e das 09,00 as 21,30 ao sabado, domingo e feriados, para casa particular na Ericeira. Nas férias escolares é para trabalhar das 09,00 as 21,30 de segunda a sexta e com direito a uma folga sómente durante a semana, a escolha. Bom salario e com possibilidade de fazer horas extras para alem do horario. Função a desempenhar sera a de dar apoio nos trabalhos de casa, desenhar, pintar, ler, escrever, ajudar trabalhos escola, ensinar jogos didacticos,brincar com elas, bem como em tudo que se relacione com a higiene das crianças, etc. Exige-se a pessoa que for admitida, pontualidade e assuididade bem como que seja séria, limpa, educada, ter gosto por crianças, e ter capacidade de trabalhar com as outras empregadas da casa. Aos fins-de-semana, feriados, e férias escolares, damos tambem almoço. Disponibilidade para viajar em passeios quando forem as férias escolares. As candidatas selecionadas exige-se Referencias, bem como Registo Criminal (limpo)."
Portanto, alguém com dinheiro a sobrar e paciência para aturar os filhos a faltar quer uma menina licenciada que lhe tome conta dos petizes desde o momento que chegam da escola (colégio, mais provavelmente) até à hora de deitar. Férias e fins de semana são jornadas de sol a sol, a ultrapassar o horário legal de trabalho. Ainda oferece possibilidade de fazer horas extra. Possibilidade que possivelmente é obrigatoriedade. As funções a desempenhar são aquelas da estrita competência de uma docente, como alimentar e dar banho às crianças. Pois, porque é para isso que servem professoras. Note-se também a flexibilidade no trato com outras empregadas. Esta generosa oferta ainda dá a possibilidade de escolha de um dia de folga semanal, desde que não calhe ao fim de semana, feriado ou férias escolares. Talvez haja a possibilidade de horas extra a fazer serviços horizontais ao patrão, se a candidata for jeitosa, e como é na Ericeira a vista tranquila de mar é garantida.
No antigo Portugal, que está de regresso em força, era costume meninas do campo serem enviadas para casas de boas famílias para trabalhar como empregadas domésticas a troco de tostões. A escolaridade era um empecilho e exigia-se delas servilidade total e disponibilidade a toda a hora para todo o serviço. Até animar sexualmente as noites do patrão ou dos filhos. As marias de hoje já têm de vir com um canudo universitário. Sinais de progresso, escrevo amargamente?
quinta-feira, 25 de outubro de 2012
Existence (I)
Momento where's my jetpack ou o desabafo desiludido de quem conhece o ritmo acelerado do desenvolvimento tecnológico que, por rápido que seja, nunca se consegue aproximar das aspirações humanas. Vemos sempre mais longe do que onde podemos chegar com a tecnologia contemporânea.
brash-colored billboards and luminous adverts proved inescapable, because they all blared on channel one … the layer you can’t turn off because it’s real." (p. 120)
Boa parte deste romance envolve a ideia de realidade aumentada. No futuro próximo, as barreiras entre o mundo real e o digital são estabelecidas por uma ténue fronteira de óculos ou lentes. Vendo o mundo por lentes virtuais, podemos ajustar o que vemos aos nossos desejos. Brin apenas extrapola as tendências correntes na integração entre o homem e o digital, com um olhar crítico sobre privacidade, crowdsourcing, smart mobs e a capacidade individual de sobreviver no meio de constantes fluxos de informação.
Zheng He’s voyages brought home tribute, trade, and knowledge. Had they continued, Chinese armadas might have sailed into Lisbon Harbor, in time to astonish a young Prince Henry the Navigator with ships the size of cathedrals. (p. 285)
Um aviso e reflexão sobre o conservadorismo. Poderíamos estar melhor, mais avançados. Ou talvez colapsados sobre um apocalipse global. Alguns caminhos promissores da história pararam pela decisão consciente de elites que perceberam que desenvolver o conhecimento e a tecnologia colocariam em perigo a sua posição privilegiada. Paralisar uma sociedade para manter o status quo. Já aconteceu. Brin quase grita neste livro que está a acontecer novamente.
her parents and tutors had explained the obvious—that people aren’t naturally democratic. Feudalism was the prevalent human condition erupting in all eras and cultures, since history began to be recorded on clay tablets. Even in modern films and popular culture, the theme resonated. Millions who were descended from enlightenment revolutionaries, now devoured tales about kings, wizards, and secret hierarchies. Superheroes and demigods. Celebrities, august families, and inherited privilege. (p. 405)
Surpreendente, ou talvez não. Brin cria em Existence uma crítica muito óbvia ao corrente estado da sociedade global. Estados endividados, reféns de uma elite invisível de oligarcas financeiros. Almofadas sociais, a luta por uma sociedade mais justa, a diminuição global da pobreza a recuar em toda a linha, particularmente nos países mais desenvolvidos. Democracias lideradas por títeres dos interesses económicos, com todos os sinais a apontar um possível ocaso da democracia e um regresso à legitimidade aristocrática, disfarçada de tecnocracias de índole financeira. Brin anda aos gritos neste livro a dizer que essa tendência é perigosa e ilusória, que os cidadãos do mundo não se podem deixar enganar com mais uma corrida ao poder. Chega ao ponto de criar na história futura que serve de cenário a este livro um momento-pivot na história humana em que as instituições democráticas, fragilizadas, e as populações conseguem deter um golpe levado a cabo pelas elites oligárquicas para abolir a democracia... em 2013. Não se consegue se rmais óbvio que isto. Brin não está a ser muito subtil e nesta vertente atira argumentos caricaturais, talvez porque como boa parte das pessoas no planeta com dois dedos de testa que não pertençam ao rareficado 1%, sente que a ameaça ao progresso humano é bem real, perigosa e urgente.
What was it about a lighter-than-air craft that drew the eye? Oh, certainly most of them now had pixelated, tunable skins that could be programmed for any kind of spectacle. Passing near a population center—even a village in the middle of nowhere—the convoy of cargo zeps might flicker from one gaudy advertisement to the next, for anything from a local gift shop to the mail-order wares of some Brazilian bloat-corp. (p. 434)
Uma extrapolação da ideia contemporânea de utilizar dirigíveis para transporte de carga e passageiros com menores custos económicos e ambientais (uma velha hipótese seriamente discutida com novos protótipos já a voar, talvez seja desta que pegue e grandes baleias cheias de hidrogénio flutuem graciosamente nos céus). Com um aceno de cabeça sorridente à instant city blimp, um dos conceitos provocatórios do colectivo de arquitectura Archigram.
Existence é um infodump massivo de ideias futuristas. Algumas estão mascaradas no enredo, outras literalmente despejadas em capítulos próprios. Brin utiliza a técnica literária de capítulos curtos, entretecidos com excertos de textos jornalísticos, enciclopédicos, citações ou fluxos livres que caracteriza obras como a trilogia U.S.A. de John dos Passos. Técnica eficaz. Ainda me recordo de passar noites a ler o The Big Money ou The 42nd Parallel porque a cadência rápida e a constante barragem de ideias mantém o cérebro alerta e as mãos incapazes de pousar o livro. Na Ficção Científica parece que John Brunner inaugurou o uso dessa técnica com o Stand on Zanzibar, mas como ainda não o li não me pronuncio sob risco de largar patacoada.
Brin fez bem o trabalho de casa e desvenda-nos extrapolações para um futuro próximo de ideias que circulam entre os futuristas contemporâneos: impactos do aquecimento global, bleeding edge tecnológica, intrusão do mundo virtual no real, ameaças terroristas, movimentos sociais que modelam o estado das coisas, influências de clados elitistas, e uma a ideia de distribuição não-uniforme das maravilhas do futuro que tornam muito realistas as visualizações com a coexistência de diversos níveis de tecnologia na mesma realidade. E, claro, imensas discussões do paradoxo de fermi.
David Brin (2012). Existence. Nova Iorque: TOR.
domingo, 7 de outubro de 2012
Mãos anafadas
O livro 1984 de George Orwell preconiza a sociedade panopticon, e o Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley a sociedade do espectáculo, duas vertentes do mundo contemporâneo. Não conheço nem me recordo de nenhuma outra obra de ficção científica que antevesse o corrente apocalipse financeiro. Geralmente os escritores ficaram-se por coisas mais prosaicas como pandemias, invasões alienígenas, guerras nucleares, infestações de zombies, singularidades trazidas pela complexidade tecnológica ou o esgotamento de recursos naturais. Ninguém se lembrou que o fim da civilização ocidental poderia chegar através das mãos anafadas dos banqueiros e aventureiros da finança.
(A imagem tem a sua razão de ser. Não, não são hordes manipuladas por um qualquer querido líder ditatorial. É um fotograma de Things To Come, um clássico do cinema de FC com argumento de H.G. Wells que segue na perfeição uma linha utópica que deixou de estar na moda. Guerras atómicas aniquilarão a sociedade, que no futuro decairá para um quase barbarismo. Um grupo de cientistas preserva o conhecimento, espalhando-o através de missionários voadores (leram bem). A sociedade humana é reconstruida e mergulha num período dourado. Mas, simbólico da era, a prosperidade civilizacional só é obtida graças a um governo tecnocrático que decide o que é melhor para a população. O filme termina com o obrigatório arranque da colonização das estrelas por uma nova humanidade.)
terça-feira, 25 de setembro de 2012
Design Fiction
Fico surpreendido com a forma como os alunos apreciam o futurismo digital limpinho do A Day Made Of Glass, uma peça de design fiction produzida por uma vidraceira de alta tecnologia cujos vidros se podem encontrar nos ecrãs de muitos portáteis e tablets. A visão é conservadora e pequeno-burguesa, com uma família de classe média-alta a viver o dia a dia num mundo de computação ubíqua possibilitado por vidros inteligentes e interactivos que escondem debaixo da superfície transparente os circuitos electrónicos de uma realidade aumentada e responsiva ao utilizador. É uma visão que desperta a curiosidade e a tecnoluxúria. Perguntas inevitáveis: é mesmo assim? isto já existe? quando é que podemos ter coisas destas? aquilo é um telemóvel da marca xyz?
No que toca a visões de um possível futuro de realidades aumentadas que mesclam o real e o virtual, sempre achei que o conceito cacofónico e intrusivo de Augmented (Hyper)Reality mais realista. As superfícies frias e nuas cobrem-se com informação icónica e imagens virtuais supostamente projectadas na retina. O ambiente virtual está repleto de anúncios, que se podem fugir em breves momentos de consulta de informação pessoal ou regulando os níveis de publicidade. Mas que nunca desaparecem e fazem parte da paisagem virtual que o utilizador, resignado, navega no dia a dia.
Design fiction, ou a ficção ao serviço da visualização do possível, do provável ou do desejável.
sexta-feira, 21 de setembro de 2012
Bleedout
Mike Kennedy, et al. (2011). Bleedout. Los Angeles: Archaia Studios.
Arranca com uma premissa pós-apocalíptica interessante, mas depressa fica atascado num enredo previsível de criminalidade e corrupção institucionalizada. O mundo de Bleedout está exangue de petróleo graças a um acto de bio-terrorismo que contaminou as reservas petrolíferas mundiais e levou ao obrigatório colapso social e económico. Somos focados numa cidade corrupta, onde políticos e líderes de organizações criminosas se unem para travar a anarquia e lucrar com o estado das coisas. A história é-nos contada em vinhetas soltas, centradas nas principais figuras criminosas e nas suas principais façanhas. O ambiente é o de um caldeirão onde gangues rivais prosperam em tréguas inquietas e a bio-arma que provocou o colapso civilizacional provocou uma mutação nalguns indivíduos, tornando-os quase imortais.
O que poderia ser uma história sobre a nossa dependência civilizacional do petróleo não passa de uma variação dos policiais noir com os necessários toques de violência e sexualidade desviante, sem esquecer o obrigatório super-homem que paralelo à lei coloca os criminosos a lutar entre si. Não é particularmente interessante, mas torna-se intrigante pela variedade expressiva dos estilos dos vários artistas que ilustram cada capítulo do livro.
sábado, 8 de setembro de 2012
Vislumbres de um deus críptico
No infrastructure pilgrimage can be complete without a reverential pause before a phallic god of destructive power. Menhirs and obelisks will not do for our age. Neither will skyscrapers, which are merely symbols of humanity’s child-like greedy grasping at earthly pleasures. Out in the heartland, among the grain silos (cornucopias?) where I began my pilgrimage, are scattered very different sorts of silos. Silos containing ballistic missiles, designed to soar up and kiss space, home to our loftiest aspirations, before diving back down to destroy us. (p. 13)
We forget that nature is the first and original system of evolving creative destruction. Schumpeter’s model of the economy came along later. (p. 19)
Taking refuge in numbers when faced with technological complexity is in part an acknowledgment of the poverty of a poetically enacted humanist life script . Numbers are how we grope for the trans-human. (p. 31)
We never build technology that will actually relieve the load on us and make things simpler. We only end up building technology that creates MORE work for us. (p. 104)
Venkatesh Rao, Towards an Appreciative View of Technology





























