quarta-feira, 2 de julho de 2014

Dylan Dog Color Fest #11


Cristiana Astori, et al (2013). Dylan Dog Color Fest #11. Milão: Sergio Bonelli S.p.A..

Esta custou. Estou mal habituado ao longo historial do personagem nas mãos do seu criador. Lê-lo escrito por outros argumentistas é sempre uma desilusão, apesar de por vezes aparecerem boas surpresas. Não é só pela diluição da personagem e sua redução à iconografia estereotípica. O que realmente me desilude é que Sclavi conseguia criar textos riquíssimos, conjugando de formas magistrais as linguagens literárias e visuais em narrativas cheias de subtileza, referências literárias e saborosas doses de surrealismo onírico. Os restantes argumentistas limitam-se a contar histórias lineares. Este Color Fest reúne quatro medíocres exemplos disso. A busca do frisson de choque do horror fica-se pelo óbvio e descarrila no patético.

Fumetti a cores é sempre desapontador. As histórias são originalmente publicadas a preto e branco, pelas exigências do mercado editorial, e quando republicadas a cores o tratamento que lhes é dado não passa do pintar as ilustrações. Não há qualquer uso interessante das possibilidades das cores. E Dylan Dog sabe bem é a preto e branco, para nos levar às profundezas dos seus mundos sombrios.

Per il verso sbagliato - Há muito pouco mistério nesta história onde Dylan é convocado a uma escola para investigar um caso de poltergeists. Assume-se que será o espírito de uma jovem em coma, a rapariga diferente dos restantes colegas da turma, mas não. Trata-se do seu melhor amigo, capaz de antever o futuro e que provoca o acidente para se sacrificar e salvar a amiga. Pretende ser misterioso e a puxar ao coração, mas falha redondamente.

Ouroboros - Dylan ajuda o inspector Bloch a investigar o mistério das vítimas exangues de um serial killer que, ao contrário do que tudo aponta, não é um vampiro. Tendo encontrado uma estátua oca de um oroboros num palácio abandonado, decide invocar os seus poderes enchendo-a com o sangue das suas vítimas.

I morti non ballano - Pobre Dylan. Polícia novato, é colocado a vigiar a morgue à noite e é vítima das praxes dos colegas mais velhos. Ainda jovem, não suspeita que se irá tornar o detective dos pesadelos e aterroriza-se quando a alma inquieta de um dos cadáveres lhe pede ajuda. Sem o saber, cai numa cilada de um grupo de demónios que tenta abrir um portal para a terra, mas é impedido a tempo pela polícia dos infernos. Esta nota o dom de Dylan, e decide vigiá-lo, suspeitando que ainda ouvirá falar muito dele. Uma aventura curiosa que nos leva às origens ficcionas do personagem.

La Nera - Ah, os terrores da horrenda e maléfica... bicicleta assombrada. Pois. Dylan é contactado por uma jeitosa viúva preocupada com o filho. Suspeita que este se encontra possuído por um demónio. E tudo começou desde que a criança se dedicou a restaurar uma bicicleta velha. Dylan percebe tudo quando faz uma visita à casa da família e vê objecto, e de caminho acaba na cama da mulher. Faz todo o sentido. Mães preocupada levam sempre aqueles que ajudam os seus filhos para a cama, e aproveitam a conversa de almofada para falar dos dramas que assolam a criança. É que faz todo o sentido. O mistério resolve-se facilmente, uma vez que a bicicleta assombrada também já tinha passado pelas mãos de um jovem Dylan e acaba com uma perseguição nas ruas de uma Londres desenhada para ficar estranhamente parecida com uma aldeia italiana. Imaginem, o puto possuído na bicicleta negra e Dylan a persegui-lo montado numa alva bicicleta branca, numa corrida que ultrapassa o real e mergulha numa infernal realidade paralela.

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