terça-feira, 1 de julho de 2014

Ribeira


A imutável vassoura, a limpar a sujidade quer em palhas, quer em fibras sintéticas. À foto falta o ruído das mulheres da limpeza, tagarelando em dialectos africanos.


O afoito pombo lisboeta, sempre a atrever-se a debicar nos locais mais arriscados. À sua volta os clientes dos quiosques de comida trendy afadigavam-se a escolher iguarias.


O talho que não muda, apesar dos ganchos de magarefe vazios e da carne conservada no balcão frigorífico, contemplada pela reprodução de uma das mais clássicas ilustrações de cartazes taurinos (também tenho uma, enrolada algures na biblioteca). Havia silêncio neste local.


A impermanência dos locais de trabalho, remodeláveis, em constantes limpezas, na solidão após as horas de grande fluxo em espaços longe da memória das multidões. Sob a sola dos sapatos sentia-se a água fria.


O desperdício, a sujidade, a limpeza, a organização, ciclo que se repete dia a dia. Um leve odor a peixe, o ar húmido das mangueiradas. A sardinha que se viu pescada em vão.

O desafio, lançado pelo João Lima no curso de Património Imaterial , era o de visitar o recém-gentrificado Mercado da Ribeira e tirar cinco fotografias com dois temas: o que lá está de novo, ou o que se mantinha imutável apesar das intervenções. Calhou-me a segunda, tarefa não muito fácil por entre o brilho envernizado dos espaços renovados. Mas, dê por onde der, a Ribeira continua a ser um mercado e os processos de trabalho não mudam muito, mesmo que o cenário se renove, as pedras sejam polidas e a infra-estrutura requalificada. À margem do núcleo central trendy ainda resiste o velho mercado.

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