quarta-feira, 16 de abril de 2014

O Baile; Living Will #02.


Nuno Duarte, Joana Afonso (2012). O Baile. Lisboa: Kingpin Books.

Tem sido difícil apanhar um exemplar deste livro desde que o vi pela primeira vez, apresentado há dois anos atrás numa edição do Fórum Fantástico. Nesse intervalo a obra já teve espaço de reedição (coisa rara na BD portuguesa), ganho prémios e cativado leitores. E com muito mérito, diga-se, e digo depois de finalmente a ler. 

O Baile conjuga bem um excelente argumento com grafismo na fronteira entre a legibilidade gráfica e o registo artístico de cunho pessoal. É uma perfeita história de terror clássico, com inspirações lovecraftianas e em todos os filmes e contos onde uma aldeia à beira-mar é aterrorizada por misteriosas criaturas maléficas. O enredo do inspector da PIDE, com as suas dúvidas pessoais, que é enviado ao lugar pobre e esquecido para vigiar a pureza ideológica da nação faz a ponte entre a iconografia literária do horror clássico e a realidade histórica portuguesa. Não pude deixar de notar uma certa semelhança conceptual entre este livro e o filme A Promessa de António de Macedo, também este um reflexo da colisão de velhos mitos, condições de vida no Portugal do antigo regime e choques de modernidade. 

O traço de Joana Afonso dá ao livro o carácter fortemente cinematográfico que lhe vem do argumento. Para além do estilo pessoal da ilustradora, realista com um toque forte de expressionismo, há um trabalho muito cuidado de enquadramentos que contribuem para a leitura da história. Este é um livro marcante no panorama da BD e do fantástico em Portugal.


André Oliveira, Joana Afonso (2014). Living Will #02. Lisboa: Ave Rara.

A história de um homem que ao sentir a morte aproximar-se parte em busca de redenção pelo passado é desenvolvida de forma encantadora nesta série. Apanhei o segundo volume, e agora terei de ir, implacável, à caça do primeiro e manter sob vigilância apertada a edição das restantes. Muito boa escrita de banda desenhada ilustrada pelo traço expressivo de Joana Afonso. Se a obra em si e a ilustração já são cativantes o pormenor final do elemento redentor ter sido de natureza aleatória deixou-me rendido à série.

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