quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Future: A Recent History


Lawrence Samuels (2009). Future: A Recent History. Austin: University Of Texas Press.

A focalização numa visão americanocêntrica do futurismo é um handicap assumido à partida. Compreende-se a escolha, mas não é esse o defeito do livro. A história do futurismo, não do movimento artístico mas das ideias e concepções que pretendem imaginar ou antever o que o futuro trará, é assunto cheio de visões intrigantes, bizarrias, predições que falharam o alvo por quilómetros e pequenos detalhes estranhamente prescientes. Samuels consegue transformar este assunto num tédio assinalável, construindo o seu texto numa prosa que se resume ao coligir e entrosar de recortes de artigos, discursos e livros de divulgação popular publicados entre as primeiras décadas e o final do século XX.

Do livro retira-se uma visão da evolução temporal da concepção daquilo que Bruce Sterling apelida de flatpack futures, antevisões futuristas produzidas com seriedade por analistas em empresas ligadas à tecnologia e que se distinguem pelo seu aspecto limpo e burguês de revolução tecnológica que não levanta ondas. As visões citadas por Samuel não nos parecem ser tão relevantes, hoje, como as design fiction da corning ou microsoft, mas percebe-se que as concepções que hoje nos parecem de vanguarda depressa se tornarão tão absurdas como as compras via televisão, automóveis com motores atómicos ou cozinhas renováveis no final da estação de modas.

Inadvertidamente, Samuels mostra uma clivagem entre concepções de futuro. Até aos anos 70 reinava a utopia consumista, representada por ondas de optimismo alastrante onde qualquer tecnologia presente era extrapolada para um glorioso futuro de bakelite conveniente. Após os anos 70 instala-se o pessimismo, com a crescente observação que a sobre-exploração dos recursos planetários exigida pela sociedade industrial consumista, o aquecimento global e as crises energéticas poderão ter consequências devastadoras e a consequente visão de que o futuro poderá não ser tão sorridente quanto as predições anteriores postulavam. Os anos 90 vieram trazer uma epidemia de utopia tecno-cibernética, com o digital a levar de enxurrada concepções futuristas que, no limite, apregoam a transcendência dos limites da carne para a promessa de uma virtualidade eternizante. Talvez a conclusão a tira seja que por muito negro que o futuro se afigure as predições e antevisões trairiam as nossas expectativas se fossem demasiado pesssimistas.

Retirei um dado curioso das tendências postuladas pelos futuristas citados por Samuels. Independentemente dos acessórios - televisões de dupla via, carros com reactores nucleares, consumismo de bakelite brilhante e conveniência no dia a dia graças ao progresso da ciência, todos os preditores apontavam para que no futuro se trabalhasse menos, com horários de trabalho semanal a rondar as vinte horas ou abaixo disso. Os vendedores esfregavam as mãos a imaginar o que poderiam vender às massas humanas com tanto tempo livre para ocupar enquanto os mais utópicos previam um renascimento intelectual massificado graças a um renovado interesse pela cultura na futura leisure society trazida pela promessa libertadora da tecnologia. Pois, estamos no futuro e é o que se vê. Não só não trabalhamos menos como trabalhamos mais e de forma mais intensa, graças à tecnologia que nos prometia libertação conjugada com o retrocesso nos ideários socializantes provocados pelo domínio da escola financeira de pensamento na sociedade ocidental. Mas, felizmente, as colisões automóveis não provocam zonas de exclusão radioactiva nas autoestradas e o ciber tomou de assalto a nossa forma de conceber o espaço de ideias humano.

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