sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Leituras


Esta imagem anda a circular pela rede fora e pessoalmente acho-a fabulosa. Ilustra de forma muito concisa os mitos sobre o medo que o uso de tecnologias esteja a transformar os humanos em seres anti-sociais, constantemente imersos nas suas bolhas de informação. É interessante pelo détournement que nos provoca dissonância cognitiva: a frase estaria perfeitamente à vontade nalgum artigo capa de revista ou peça alarmista de jornalismo televisivo sobre jogos/telemóveis/internet/(inserir aqui outra das tecnologias/media do costume nestas coisas), daquelas que afirmam o iminente colapso da civilização ocidental graças aos efeitos nefastos das "novas" tecnologias. E mostra-nos que é uma falácia a ideia que por em público se estivermos concentrados em algo estamos a resvalar para um solipsismo isolacionista. Mas nem era preciso mostrar os passageiros de um comboio concentrados nos jornais. Recordo-me de ser criança e ir de metro para a baixa de Lisboa e reparar nas expressões vazias e olhares que se evitavam dos passageiros. Não tinham telemóveis ou outros dispositivos, nem livros, rareavam os jornais e talvez alguns mais afoitos arriscassem um walkman. Os anos oitenta era decididamente cinzentos neste aspecto.

Modern art: I could have done that... so I did: Fiquei espantado ao ler isto. Parte daquela premissa simplista que muitos afirmam quando estão perante os desafios conceptuais da arte moderna e contemporânea com a frase ai isto é arte? até (inserir aqui criança/eu/outro termo de conotação derisiva no contexto) consigo fazer isto. O autor deste artigo, amante de fotografia amadora, achou que a qualidade das imagens que tirava era suficientemente boa para uma exposição e arriscou enviar os seus trabalhos. O que em si nada tem de mal, mas o autor posiciona-se claramente no campo do amadorismo que torce o nariz ao que considera pretensões artísticas infladas e com o acto audacioso se ri na cara das elites que julga ter enganado. Pior. Subjacente a este ideário está outra ideia perigosa, também afirmada no artigo, de que as capacidades tecnológicas hoje ao nosso dispor facilmente nos transformam em bons artistas, tão ou melhores do que os clássicos da era pré-digital. Isto é profundamente falacioso e falso. Sim, as ferramentas avançadas democratizaram o acesso à expressão artística pessoal facilitando barreiras técnicas. Puramente nestes termos podemos dizer que, no acto em si, é mais fácil tirar uma fotografia do que pintar uma paisagem. Apontar a máquina fotográfica ou telemóvel e carregar no botão virtual ou real é em si mais simples do que preparar a tela, as tintas e todo o trabalho prévio de domínio do material, mas alargar este elemento para uma conclusão generalizada que com tecnologia é fácil criar é um erro. Por detrás do acto criador há uma confluência de aprendizagens técnicas e estéticas que só se adquirem com tempo, prática e procura de conhecimento. Se assim não fosse os álbuns fotográficos online estariam cheios de obras primas. Quanto à também falaciosa ideia que o domínio das técnicas de expressão artística tradicionais é mais difícil do que o das técnicas digitais, só há uma resposta possível. Tentem lá pegar num Photoshop ou aplicação de modelação 3D para criar uma boa imagem ou um daqueles modelos 3D que enchem o olho. Com alguma sorte conseguem fazer um cubo... para dominar uma técnica é preciso prática, aprendizagem e motivação para os necessários avanços penosos. E criatividade para ter ideias que nos levem a progredir e aperfeiçoar o domínio técnico. Não, não basta ter um programa de computador para fazer grandes modelos 3D ou imagens de tirar o fôlego, ter uma câmara digital com a capacidade de captar milhões de pixeis incorporada no telemóvel por si só não chega para produzir imagens que captem o olho e a imaginação. Tal como estar frente ao teclado não é garantia de qualidade literária. Enfim, os exemplos seriam muitos. Este artigo, assente numa ideia errónea de tecnologia como facilitadora (quando na verdade não facilita, apenas expande o campo das possibilidades) e destruidora da barreira qualitativa que distingue as obras de arte, é de um simplismo falacioso.

An Ode To Science Fiction: Faço minhas as encantadoras palavras deste jovem cineasta. É um elogio da ficção científica como despertadora de ideias e de um estado de espírito caracterizado por mentalidade aberta e percepção de potenciais e possibilidades. Ou como Kuxhausen diz tão bem: "you've shown me how much i need science in my life, but you also told me to keep imagining".

STEM needs a new letter: e essa letra é o A de arts, englobando os processo de concepção, design e experimentação livre subjacentes às artes. Uma intrigante proposta que sublinha que o formalismo na aprendizagem não é suficiente para formar aquilo que os programas centrados nas CTEM (ciências, tecnologia, engenharia e matemática para os leigos nestes acrónimos pedagógicos) pretendem. Ser proficiente nestas áreas implica um certo grau de capacidade de arregaçar as mangas e experimentar, algo que as artes tão bem desenvolvem.

History of Computer Art: Um recurso precioso para todos os que se interessam por arte digital, não arte digital como ferramenta mas sim como meio de expressão com estéticas próprias e um historial de pesquisa técnica e artística.

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