terça-feira, 7 de janeiro de 2014

A Era Dourada


Pedro Cipriano (2013). A Era Dourada. Smashwords.

É curioso ver como em poucas semanas o esquecido género pós-apocalíptico levantou a cabeça na FC nacional. Primeiro o conto de Carlos Silva na mais recente edição da Antologia Fénix e agora Pedro Cipriano que colige os contos do seu universo ficcional Era Dourada nesta edição digital. Cipriano estabelece uma premissa interessante que vai desenvolvendo muito bem numa série de contos que funcionam como vinhetas que nos dão um vislumbre de algo potencialmente muito mais vasto.

Começamos no fim da civilização ocidental, com os tanques aliados a entrar na venerável S. Petersburgo após longa batalhas pelo controle dos recursos energéticos. A resposta nuclear é inevitável, e o conto A Alvorada conclui com o alastrar de cogumelos atómicos a arrasar o planeta. Um final apropriado para o início, a recordar os medos dos anos 80 do século XX sobre a possibilidade de apocalipse nuclear.

Alguns sobreviventes escapam à atomização e às radiações abrigando-se em bunkers especialmente preparados para acolher cientistas. Mergulhados nas profundezas, começam a perceber a real extensão da catástrofe que se abate sobre a humanidade. Radiação e inverno nuclear são os perigos exteriores, porque no interior a loucura afecta aqueles que sobrevivem dentro do abrigo no conto A Escuridão. Devo dizer que na ideia de surtos de insanidade passados na claustrofobia de um abrigo pós-apocalíptico percebi um toque de Romero em Day of the Dead.

No conto A Alergia a humanidade começa a recuperar e a reconstruir a civilização. A tecnologia é vista como um mal necessário, com fortes restrições a vertentes de desenvolvimento que repitam o que levou a humanidade à catástrofe nuclear. Mesmo assim há quem sinta que até a tecnologia restrita é perigosa, caso dos terroristas que se designam de alérgicos. Mas esta história triste desenrola-se sob o ponto de vista de um homem solitário que se decide a vingar-se da sociedade após a morte da noiva, aproveitando os terroristas como justificação para um atentando suicida.

Os contos O Monstro e a Musa - O Monstro, A Musa são legíveis em sequência. Cipriano dá mais um passo na construção deste mundo ficcional onde exércitos do mundo civilizado se debatem contra tribos selvagens nas fronteiras ibéricas. Um inventor ao serviço das forças militares é raptado por rebeldes e levado para um castro, não uma povoação primitiva mas uma cidade bem desenvolvida, e forçado a trabalhar na pesquisa de energias alternativas ao carvão, o recurso natural que está por detrás destas guerras. A energia eléctrica é a escolhida, e o inventor vai trazer uma nova era de prosperidade e tecnologia ao castro, mas uma paixão pela filha do violento chefe tribal coloca em perigo tudo o que conquista. Curiosamente, este é o único conto que tem um final feliz e bastante inesperado, depois de tudo o que nos é levado a esperar não augurar nada de bom. Cipriano não resistiu a um toque de compaixão e termina o conto com um sinal de esperança. E muito gira, a ideia de uma civilização avançada nas serranias ibéricas.

Para encerrar a colectânea o conto O Fruto Proibido quase regressa ao início. Um grupo de cientistas que investiga as ruínas de um bunker encontra algo de muito precioso: uma biblioteca recheada de livros pré-apocalipse. Um dos cientistas, físico de formação, não resiste a guardar para si um manual de física nuclear, conhecimento proibido pelas leis da humanidade sobrevivente. Sentindo que a humanidade necessita de outras fontes de energia que não os poluentes derivados do carvão, começa a investigar a fissão nuclear, mas mal as autoridades o descobrem é arrastado para um julgamento sumário por pesquisas proibidas e fuzilado. Confessem lá: para qualquer amante de livros o penetrar nas ruínas de um bunker e descobrir um tesouro de obras impressas é um sonho molhado, não é?

A escrita clara e límpida de Pedro Cipriano torna estes contos uma boa leitura. Sabem a pouco. O vislumbre que nos dá promete um universo ficcional muito mais vasto, mas por outro lado é bom ter resistido à tentação de criar um romance-pastelão de raiz, com inspirações no clássico Um Cântico para Leibowitz, e ir construindo passo a passo através de contos que podem ser ordenados em sequência. Note-se que Bradbury fez o mesmo com as Crónicas Marcianas e deu no que deu, para eterno agradecimento dos amantes de FC. O formato de conto curto não permite grandes aventuras de desenvolvimento conceptual, e é talvez o que esta Era Dourada necessita. É que a leitura soube mesmo a pouco.

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