quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Daemon


Daniel Suarez (2009). Daemon. Nova Iorque: Dutton.

Há livros que nos surpreendem e apanham nas curvas. Este é um deles. Não esperava encontrar o que se oculta debaixo deste aparentemente banal technothriller que mistura os géneros policial com teorias da conspiração. A estrutura narrativa segue os moldes do pulp pop com influências no estilismo cinematográfico do cinema de acção, ou um olho posto numa possível adaptação cinematográfica que não dê grande trabalho a passar de registo literário a argumento. Nisso não é diferente de milhares de outros livros descartáveis. A linguagem é directa e está cheia de infodumps, que aqui são elementos necessários para o que realmente dá valor ao livro. O conceito, e a interconexão de conhecimento e possibilidades tecnológicas e sociais que geram a conspiração que dá o mote ao livro. Estes são os elementos de génio numa obra que se lê como um thriller descartável mas nos deixa a reflectir profundamente sobre possibilidades, potencial e catástrofes de uma sociedade progressivamente automatizada, dependente do digital e onde a convergência de tecnologias bleeding edge gera possibilidades inauditas.

O mistério que dá o mote a este livro inicia-se com o falecimento de um programador e magnata dos jogos, criador de um dos MMORPGs mais populares no mundo. A sua morte desencadeia uma série de assassínios cuja investigação revela um padrão preocupante. Como legado final, este programador criou uma inteligência artificial restrita distribuída pela internet, cujos componentes se activam accionados por pedaços específicos de informação. Acontecimentos isolados fazem parte de um vasto padrão onde um organismo digital automatizado recruta pessoas brilhantes para gerar um organismo que mistura o real e o virtual. Implacável, eficiente, representa o emergir de um novo tipo de organização difusa assente na internet que virá substituir o corrente sistema de estados-nação.

Ao longo do romance esta génese é tratada como algo de negativo, reflectindo-se na cooptação de personagens sombrias e na luta de representantes de legalidade normativa contra este novo organismo. No final do livro o autor dá o lógico passo em direcção à ambiguidade revelando que este organismo, criado intencionalmente, é apenas um forçar de evoluções sociológicas naturais e não é necessariamente uma nova encarnação do mal.

Para além deste conceito de base, é muito interessante o uso interconectado que Suarez faz de tecnologias de ponta na manufactura, jogos, comunicação e robótica para criar o seu supra-organismo dependente de inteligência artificial. Realidade aumentada, impressão 3D, automatização de comunicações, bases de dados distribuídas e colocação de camadas de informação que permite agir no espaço real e robots autónomos são alguns dos conceitos que Suarez faz colidir neste seu intrigante romance. Surpreendente. Debaixo da capa de policial procedural esconde-se uma fortíssima lição de especulação futurista desenfreada. Este aparente technothriller oculta especulação cyberpunk hipermoderno ao nível de um Sterling ou Gibson no seu melhor.

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