terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

O Sangue e o Fogo




António de Macedo (2011). O Sangue e o Fogo. S. Pedro do Estoril: Saída de Emergência.

Indo beber à tradição ocultista e à história de Portugal António de Macedo oferece-nos em jeito de argumento de peças teatrais três sólidas histórias de mistério que fazem sonhar a imaginação. Em O Osso de Mafoma somos mergulhados nos gélidos ermos pedregosos das beiras de um Portugal ainda por nascer para uma história de amor que seitas ocultas, monges fanáticos e relíquias santas não são capazes de travar. A Pomba leva-nos às planícies de um Alentejo acossado pelas lutas da Guerra da Restauração, onde a velha sabedoria feminina embruxa um capitão de tropas portuguesas que vem defender das incursões espanholas uma aldeia raiana que oculta um segredo tenebroso.A Nova Ilusão leva-nos a uma cidade contemporânea, uma Lisboa mal disfarçada, onde as investigações de um professor universitário e os seus amigos descobrem a possibilidade de recuperar registos sonoros a partir de fragmentos de olaria decorada com padrões criados por estiletes, e com isso conseguem ouvir a voz de Jesus, gravada inocentemente por um oleiro que o ouvia enquanto trabalhava. A possibilidade de ouvir as reais palavras da figura basilar da cristandade levanta a ira das forças religiosas e políticas, que se abatem sem dó sobre aqueles que apenas buscam a verdade.

Às vezes soturno, divertido, misterioso, fiel às realidades históricas e com descrições que nos fazem sentir que estamos dentro dos espaços e ambientes de um passado histórico visto à luz de mistérios ocultos ou iniciáticos, este livro dá-nos três contos em jeito de peça teatral que pedem uma adaptação mais visual para cinema ou outro meio. O Sangue e o Fogo é uma obra enérgica de um velho mestre de invejável vitalidade, um livro que se distingue por uma aparente simplicidade que esconde um gosto pelo fantástico, erudição sobre as raízes históricas e tradicionais portuguesas e um profundo saber gnóstico.

Tive o prazer de iniciar a leitura deste livro numa noite gélida de verão na Guarda, onde a inaudita frescura compensava o calor de um dia em que havia visitado Viseu, cidade histórica de laivos medievos que é referida na primeira das peças. Nos dias seguintes as leituras nocturnas era feitas após viagens à descoberta da austera vastidão beirã, com os seus evocativos castelos medievais, aldeias de granito e uma imensa paisagem serrana onde o azul do céu contrasta com os castanhos da vegetação tisnada pelo sol de agosto. Pelo caminho visitei Marialva, aldeia que inspira o intrigante filme A Maldição de Marialva de Macedo, e Almeida, fortaleza que evocou as zonas raianas da guerra em que Portugal combateu pelo restauro da sua independência. As desventuras da busca da verdade nas palavras cristãs foram lidas no meio da Serra da Estrela, num quente fim de tarde à beira de um riacho que se vai tornar o rio Zêzere. Este duplo mergulho na portugalidade, pela deambulação geográfica e pelas palavras sábias de Macedo conferiu uma marca especial a esta leitura.

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