terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Numa palavra, tratava-se de um autómato.


"Abriu-se uma porta e penetrámos em abóbadas subterrâneas, além das quais se avistava como que um lago de prata e que na realidade era de mercúrio. A princesa bateu as palmas e apareceu uma barca conduzida por um anão jovem. Embarcámos e logo me apercebi de que o anão tinha o rosto de ouro, os olhos de diamantes, a boca de coral: numa palavra, tratava-se de um autómato que, por meio de pequenos remos, cortava o mercúrio com grande perícia. Este estranho barqueiro conduziu-nos até aos pés de um rochedo que se abriu, fazendo-nos entrar num novo subterrâneo, onde mil autómatos nos ofereceram um espectáculo singular. Pavões abriam o leque, exibindo uma cauda esmaltada coberta de pedrarias. Por cima das nossas cabeças, esvoaçavam papagaios com plumagens de esmeraldas. Negros de ébano apresentavam-nos bandejas de ouro, repletas de cerejas de rubis e uvas de safira. Milhares de objectos espantosos enchiam estas abóbadas maravilhosas, de que não avistávamos o fim." (p. 191)

Outra vinheta para a minha colecção de visões imaginárias do virtual e do robótico. Esta vem de  Manuscrito Encontrado em Saragoça, compilação de narrativas fantásticas interligadas que mergulha o leitor em mundos progressivamente fractais de fantasia. Digamos que cada personagem do livro conta o seu conto, do qual fazem parte outros personagens que contam os seus contos nos quais outros personagens contam os seus contos. Escrito entre 1790 e 1810 pelo polaco Jan Potocki, este livro é uma pérola de imaginário fantástico e ocultista, com voos de imaginação que se iniciam nas serranias andaluzas mas depressa nos transportam para narrativas de irrealidade sublime. Neste fragmento, um dos personagens conta a sua aventura no castelo assombrado da princesa de Monte Salerno, bela e rica jovem que criou para si um paraíso terrestre de riquezas e deleites, sendo por isso amaldiçoada a passar a eternidade nos seus paraísos artificiais. Antes de acordar nas ruínas do castelo, rodeado por piedosos frades que vivem nas celas que outrora foram salas de riqueza incomensurável, o narrador é mergulhado na fantasmagoria da maldição da princesa com uma visita ao paraíso artificial.

É uma passagem intrigante de um livro intrigante. Potocki cria aqui a imagem de uma gruta habitada por autómatos luxuriosos, um misto de realidade virtual com robótica. Espelha o costume decorativo barroco de criar ambientes artificiais em grutas onde o marulhar das águas, esculturas decorativas e autómatos simples deleitava os nobre convivas por entre vitualhas luxuriosas. Da época datam as vestimentas elaboradas, a comida confeccionada e apresentada como forma de arquitectura e os autómatos como elementos de deleite. Recordemos que a história dos mecanismos que imitam parcialmente a vida é muito mais antiga do que a nossa moderna tecnologia deixa adivinhar, que Da Vinci imaginou mecanismos para autómatos, que nas cortes de 1700 e 1800 era comum o deleite com objectos animados que escreviam poemas ou imitavam animais, como o pato de Vaucanson ou o os desenhadores de Pierre Jaquet-Droz. Da mesma época data a autómato Olympia, musa do conto Der Sandmann de E.T.A. Hoffman. Esta visão feérica de Potocki é mais um reflexo do sonho sublime de recriar mecanicamente o real. Os mecanismos de relógio do passado deram lugar aos servo-motores e software intricado do presente, mas o sonho é o mesmo.

(Na imagem, autómatos dançarinos de Jacquet-Droz.)
Jan Potocki (2010). Manuscrito Encontrado em Saragoça Volume I.

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