segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Almanaque Steampunk



Joana Lima, et al (ed.). (2012). Almanaque Steampunk. EuEdito.

Lê-se quase de uma assentada. Bem concebido, divertido e com um grafismo cuidado, homenageia a tradição dos almanaques e assume-se como representativo da estética steampunk. Recheado de textos interessantes e divertidos, só não se lê de uma assentada porque a realidade tem uma irritante tendência de roubar tempo às fantasias. Numa obra que se caracteriza por uma grande diversidade literária é difícil caracterizar tudo, mas algumas peças destacaram-se pelos conceitos e estilo literário. João Barreiros mistura steam e cyberpunk numa revisitação a ferro e vapor do seu universo ficcional fortaleza europa e está ao nível habitual daquele que é o decano da FC portuguesa. Não será por acaso que este seu conto, O Saque de Lampedusa, encerra a antologia/almanaque.

Tenho um fraquinho por teorias bizarras, particularmente pelas da terra oca com o seu vasto potencial ficcional. Joel Puga toca precisamente nesse ponto com o conto Portugal e o Mundo Interior, sobre aventuras coloniais portuguesas num subsolo que se revela um novo mundo. Também intrigante é a experiência meta-ficcional das Aventuras do Intrépido Teófilo, assinada por Carlos Silva que constrói um possível mundo ficcional a partir de alusões publicadas nos jornais a obras de ficção. Recorda o Borges de Tlön, Uqbar, Orbis Tertius e o Lovecraft de Imprisoned with the Pharaos com uma forte vénia à literatura pulp clássica e deixa vontade de ler as famigeradas aventuras do intrépido aventureiro.

De todas as ficções deste Almanaque uma fez-me sorrir particularmente, pelo toque ballardiano adaptado à estética steampunk. No conto Este Nosso Vasto Mundo, escrito num estilo seco e académico, João Ventura fala-nos de uma expedição antropológica que se depara com um culto de carga polinésio no estilo a vapor. A temática e estilismo têm um claro toque de Ballard, com uma divertida adaptação à estética que inspira o almanaque. Ou então sou eu que vejo toques ballardianos por todo o lado.

Na primeira de, espera-se, muitas edições, este Almanaque Steampunk surpreende pela solidez e cuidado. Levanta possibilidades ficcionais que merecem ser mais exploradas. E o toque gráfico está bem pensado, dando coerência estética a este livro.

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